04/05/2025

Lília Tavares, in Nas Mãos A Sede Dos Pássaros

 Há mulheres que, ávidas,

lêem em bibliotecas ou pedem
emprestados às amigas livros
ilícitos
vedados.
Escondem beauvoir
na gaveta da roupa íntima.
"Se leres, tornas-te vadia
suja,
vais saber demais e
os homens detestam
mulheres insolentes e altivas.
Vais desnortear-te."
O futuro era só mais uma história que
lhes tinham ensinado a ler
entre silêncios, filhos,
fome de desejo.
Elas escolhem denegar o passado.
O presente não tem de ser o fruto
de uma árvore fragmentada.

02/05/2025

Por Célia Moura

Este amor que me rasga

de lés a lés
tem odor a terra acabada
de fecundar
traz-me nos olhos
um oceano,
e são minhas as mãos esplêndidas,
abertas, loucas
no bocejar das colinas.
Este amor que de noite
se entrelaça em teus dedos
cintilantes de menino
sabe-me a amoras
e vinho moscatel
porém é absinto.
Em tuas mãos
me doei menina,
adormeci mulher.
Essas mãos de archote
que me incendiaram a alma,
o pensamento
os dias
e os seios fartos.
Este amor
onde perdendo me fui encontrando
em troca de nada
sempre me rasgando
devorada numa angústia infinita de mim,
devastada em ébrias promessas
abandonando-me em todos os risos
num pedestal fecundado de miséria,
este palco imenso da (tua)vida
onde me ergueste,
onde morri.
É por aí que eu vou meu amor
alheia, anónima
indiferente ao voo das aves
ao odor da terra em minhas mãos
e ao pranto de Deus.

ORAÇÃO ( Girlene Verly )

 com

a
cor
o
corpo
se
veste
com
a
dança
o corpo
se
despe
goza e reza
expressa
a alma

AINDA QUE SEJA PRIMAVERA ( Girlene Verly )

 o meu corpo e o seu corpo

estranho território a conhecer
domar e explorar
feito de broto e casca
águas e fluidos
ganhou decreto
margem fronteira

tornou-se (des)controle
medo, ameaça
ainda hoje
o corpo
mesmo o meu, é um outro
eu
o desconhecido marginal
mas a dança o cobre e queima
avança
e floresce
floresce e assusta
ainda que seja
primavera

CORPO CÊNICO ( Girlene Verly )

 em cena

o corpo
tempo espaço
o corpo-eixo
o corpo feito
encaixe e desencaixe
em cena o corpo
que encena
a cena, a foto, o ato
o corpo que acena
a pronúncia, a queixa
a denúncia
a extensão do que diz
(mas não fala)
a palavra

01/05/2025

MEU QUINTANA ( Manuel Bandeira )

 Meu Quintana, os teus cantares

Não são, Quintana, cantares:
São, Quintana, quintanares.

Quinta-essência de cantares.
Insólitos, singulares.
Cantares? Não! Quintanares!

Quer livres, quer regulares,
Abrem sempre os teus cantares
Como flor de quintanares.

São cantigas sem esgares.
Onde as lágrimas são mares
De amor, os teus quintanares.

São feitos esses cantares
De um tudo-nada: ao falares,
Luzem estrelas luares.

São para dizer em bares
Como em mansões seculares
Quintana, os teus quintanares.

Sim, em bares, onde os pares
Se beijam sem que repares
Que são casais exemplares.

E quer no pudor dos lares.
Quer no horror dos lupanares.
Cheiram sempre os teus cantares

Ao ar dos melhores ares,
Pois são simples, invulgares.
Quintana, os teus quintanares.

Por isso peço não pares,
Quintana, nos teus cantares.
Perdão! digo quintanares.

BRISA ( Manuel Bandeira ) in Belo, Belo; 1948

 Vamos viver no Nordeste, Anarina.

Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.
Deixarás aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.

Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor também.
Mas lá tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina.

O VINHO DE HEBE ( Raimundo Correia )

 Quando do Olimpo nos festins surgia

Hebe risonha, os deuses majestosos
Os copos estendiam-lhe, ruidosos,
E ela, passando, os copos lhes enchia.

A Mocidade, assim, na rubra orgia
Da vida, alegre e pródiga de gozos,
Passa por nós, e nós também, sequiosos,
Nossa taça estendemos-lhe, vazia.

E o vinho do prazer em nossa taça
Verte-nos ela, verte-nos e passa.
Passa, e não torna atrás o seu caminho.

Nós chamamo-la em vão; em nossos lábios
Restam apenas tímidos ressábios,
Como recordações daquele vinho.

DESDÉM ( Florbela Espanca )

 Andas dum lado pro outro

Pela rua passeando;
Finges que não queres ver
Mas sempre me vais olhando.

É um olhar fugidio,
Olhar que dura um instante,
Mas deixa um rasto de estrelas
O doce olhar saltitante…

É esse rasto bendito
Que atraiçoa o teu olhar,
Pois é tão leve e fugaz
Que eu nem o sinto passar!

Quem tem uns olhos assim
E quer fingir o desdém,
Não pode nem um instante
Olhar os olhos d’alguém…

Por isso vai caminhando…
E se queres a muita gente
Demonstrar que me desprezas
Olha os meus olhos de frente.

PRELÚDIOS-INTENSOS PARA OS DESMEMORIADOS DO AMOR (Hilda Hilst) in Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão

 I

Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me agora, antes
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.

II

Tateio. A fronte. O braço. O ombro.
O fundo sortilégio da omoplata.
Matéria-menina a tua fronte e eu
Madurez, ausência nos teus claros
Guardados.

Ai, ai de mim. Enquanto caminhas
Em lúcida altivez, eu já sou o passado.
Esta fronte que é minha, prodigiosa
De núpcias e caminho
É tão diversa da tua fronte descuidada.

Tateio. E a um só tempo vivo
E vou morrendo. Entre terra e água
Meu existir anfíbio. Passeia
Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:
Noturno girassol. Rama secreta.

III

Contente. Contente do instante
Da ressurreição, das insônias heróicas
Contente da assombrada canção
Que no meu peito agora se entrelaça.
Sabes? O fogo iluminou a casa.
E sobre a claridade do capim
Um expandir-se de asa, um trinado

Uma garganta aguda, vitoriosa.

Desde sempre em mim. Desde
Sempre estiveste. Nas arcadas do Tempo
Nas ermas biografias, neste adro solar
No meu mudo momento

Desde sempre, amor, redescoberto em mim.

IV

Que boca há de roer o tempo? Que rosto
Há de chegar depois do meu? Quantas vezes
O tule do meu sopro há de pousar
Sobre a brancura fremente do teu dorso?

Atravessaremos juntos as grandes espirais
A artéria estendida do silêncio, o vão
O patamar do tempo?

Quantas vezes dirás: vida, vésper, magna-marinha
E quantas vezes direi: és meu. E as distendidas
Tardes, as largas luas, as madrugadas agônicas
Sem poder tocar-te. Quantas vezes, amor

Uma nova vertente há de nascer em ti
E quantas vezes em mim há de morrer.


PORQUE TE AMO ( Joaquim Pessoa )

Estou mais perto de ti porque te amo. 
Os meus beijos nascem já na tua boca. 
Não poderei escrever teu nome com palavras. 
Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me. 

Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto. 
Quero a tua boca aberta em minha boca. 
E amo-te como se nunca te tivesse amado 
porque tu estás em mim mas ausente de mim. 

Nesta noite sei apenas dos teus gestos 
e procuro o teu corpo para além dos meus dedos. 
Trago as mãos distantes do teu peito. 

Sim, tu estás em toda a parte. Em toda a parte. 
Tão por dentro de mim. Tão ausente de mim. 

E eu estou perto de ti porque te amo.

(Joaquim Pessoa, in "Os Olhos de Isa")  



MARIA AFONSO, in CORPO IRREPETÍVEL

 desce desse filamento astral e vem

velar-me da sede das vertigens
como se os lábios se abrissem à poeira
noctívaga e cedessem às linhas
das minhas mãos
serei o teu vestido a vela
de um corpo feito navio
o fogo ateará a boca das bússolas
e todos os cantares
na penumbra
dos faróis
não vês o mar que arde por entre os
ângulos das palavras?

27/04/2025

TANGO ( Cristina Moita )

 Vem!

Quero dançar!
Nem um tango
Consigo marcar,
Os pés não deslizam,
Os olhos já nem visualizam,
A respiração, nem sei controlar!
Vem devagar!
Ofusca-me o ar
Faz-me sentir o medo
De te poder pisar
Numa aragem de vento
Com o peito a colar
O folgo a soltar
E os lábios a cremar

Numa reviravolta
Não dar

Por tempo passar
E o mundo acabar.

FANTASIAS ( Luisa Demétrio Raposo )

 Em noites de muita paixão fui tua!

Cadência de soluços e de gritos.
Os teus braços... Infinitos!
Minha boca te beijou, nua 
Fogueira a esbrasear que me consome
De ti tenho sede... De ti tenho Fome!


Eu que por ti andei muitos caminhos.
Meu olhar, faminto, de amante!
Um dia vou crucificar-me nos espinhos.
Quando meus olhos forem, de novo, teu mirante


Corpus unnis se desejam .
Hei-de dar-te esta boca, que é só minha!
Lábios de rosa te beijam
No mesmo Luar que um dia te beijou
Onde as minhas garras de poetisa, te prenderão
Num longo mas apaixonante voo

POEMA CARBURANTE ( Luisa Demétrio Raposo )

 Aqui estou eu em silêncio entre o golpe e a translação, interrompida pela metáfora num sentido puramente enigmático, onde o olhar é pensamento.

Reflexos nos longos largos, nos sítios onde o ouvir soa no escuro quando se toca. Entoação.
Oblícula a vista em mim sentida da coisa de torso fechado. Luas vermelhas entre a boca e o ânus onde o nosso tesão fez laços. Entre o meu e o teu e o teu e o meu as chamas explodem.
Bafo no rosto , boca com boca numa frase cheia de àgua no doce acre na testa negra. Abafos lentos nos interiores transmitem as formas. Queimadas no olhar, em pensamento, no ar que interrompe e atravessa as menbranas no quarto. Negras as colinas dos teus braços, que me cortam a órbita, num consumir em pedaços.
A labialdade é gramática, entre o teu folego e a minha escrita se desbravam cavernas de fundo...

ESVAIA ( Luisa Demétrio Raposo )

 Fúlgida,

Fausta,
minha franca flor
Repleta de sol,
Cheira a amor

O fogo que dela floresce,
Nela, tua rocha se acende

Aquele, que de nós mais compreende,
menos obedece

SALIÊNCIAS ( Luisa Demétrio Raposo )

Os sentidos, qual é o sentido?
Dois são pendentes, e um sentido

Estava alto e tenso, o órgão vivo,
O estimulo inflecte nas minhas mãos!

Havia a boca que o tinha... Devastador
Todo o organismo, neutro vago tremor !

Em ti há chamas em... Num estrídulo duro.
Tumefacção da boca, que tem na boca, tem, na língua da boca


Latente, que bate, na fronte, em frente , tua frente louca!
É na boca, á atraz, é na língua, é atraz, voz que suspira, rouca

Torrente impetusoa, incandescente , extrema tensão!
Na exausta haste erecta... Secreta fascinação


EROSÃO DO SENTIDO ( Luisa Demétrio Raposo )

 Com olhar a direito, quotidianamente vivo

Em gestos foitos
Tudo meço,
Tudo sorvo,
Uno, metido, eu peço!
Ânsia de indagar,
Analisar,
Revoluteo, adunca!
Negar!?
É aço de arrasar!
Ardente que eu vogo,
Quando se apagará?


Frémito na coxa, neblina a trilhar-me
Greda a latejar Ah ... La..te...jar

Aridez,
erguida
Teimosa
Desejável
Arqueja,
violenta

Brusco o sopro, o vento!
Vigoroso!
Maduro!
Lá do fundo,
 é o eco.


Àlacre, eu peco!
Macio, o vermelho do canhão
A ti me entrego ou em ti me atordoo


Bisonho
Espasmo... (dor que punja ou obside o nojo)

IRISDESCENTE ( Luisa Demétrio Raposo )

 Odor espesso

Forte!
Suspenso!
No baixo âmbito, no estar
Atraindo a saliência,
Tropegamente,
Tropeças, nas nuas luas
Caiu-me... Aqui... Nas tuas!
Mar adentro, indo;

Está escuro e está denso.
Uma esfera te espera,
Tumulto adentro
Reentrâncias nos teus dentes
A língua, entrando quente.
Profunda , madura, na cavidade
Para fundamente penetrar,
Assim... de...va...gar
Trôpega tensão,
Veloz, em força voluptuosamente,
Ah! Por fora e,
Torrencialmente!
Apelo vago e mudo ,
Ora subindo ora descendo,
Intenso,
Tenso ,
Distenso,
Curvo,
Vertical,
Inclinado,
Horizontal
Dentro!
Erva quente... Na revelação salgada,
No almejo ardente,
Cardial !
Distende-se repressiva energia,
Obscura e grave, na côncava clitorial 

OPACA ( Luisa Demétrio Raposo )

 E,

Ágil é em (ti) infinito.
Na mais ampla imaginação,
(Ah...)
Sussurante (de) fecunda seiva!
De (suas) dunas exilado!

Poisando (como) gaivota num mastro!
É (tua) sorte, morfina de macho
(Na)
Concha irizada,
Caudelosa,
De musgo (és ) consumido
(Re)nasces na vulva
Como Homem!

(E)
Tudo é ardendemente t(meu)!
Numa levada, que me acende e me consome,
Num largo freixo que é m(teu)!

QUATRO ... ( Luisa Demétrio Raposo )

 Este meu prazer,

No querer (tudo) arrasar!

Dúvida crua , no sentar
Ânsia a indigar
Analisar de,
Negar de,
Propor de,
Imaginar... O aço!
Fecundo a trilhar
Vermelho estilhaço,
No meu sentar

Reverdeço,
Reverdeço-me,
Alta, arrogante
Dor do (re)pouso!
Em, mim, perante
Por ti, tudo (eu) ouso
Não em ti obstante ... Humedeço!
Desatino a direito ... No estreito leito

No rosseo, de
Quatro opresso, sem ar
Consolo e sentar,
Sentar e consolo

Tu, prazer e arrasar
recomeçar,
(Pele, osso no osso)
Boca tua suga,
(o pescoço)

Urze irrequieta
Caberá, (a consolação,)
Última,
Alactruze secreta

ELEGIA RECOLHIDA ( Luisa Demétrio Raposo )

 Agitação...

esquecer da agitação
Necessidade insatisfeita?

A luta,
no canal se deita
Numa sesta vertical,
Acre fúria, na horizontal
Relanceio (na rota sorvida)
Pastosa, no lamber fundida

Arde-me o olhar,
do que no teu brilha
Ri-me na boca,
O riso,
que enche a virilha!

Prazer que apazigua
penhor de uma explosão
Ardência nua!
Abjecto determinação

Beijo-te
o fruto transporta
Abraço-te num vórtice
Minaz, de ponta a ponta
(aponta)

Abre-se lenta
Como uma boceta,
A vieira secreta
Capricho começa
Ao ardor, de querer, se continua
Numa fincada de charrua
Rompe a centelha,
Ardente,
A fornalha vermelha

Na ânsia,
muda-se a promessa
Fausto,
o balanço tropeça
Jorra no oculto
(Mestiça)

Afoga-se, no vulto

NITIDEZ ( Luisa Demétrio Raposo )

 Nupcial,

É ser sexual.

Esplendoroso,
É o gozo.

Ogival,
É um anal.

Louca,
É a boca.

Pecado,
É um trago.

Impuro,
É o mais puro.

SENTIMENTOS NUM MAR DORAVANTE ( Luisa Demétrio Raposo )

 Nitidez perturbante , somovente e vesperina,

Queima-me como um desvario em chama!
Fogo alto e violento,
Suor precepitado na explosão germinal.
Estrangulamento!
Deflagra no momento! Concentram-se!
Expande-se! O nó cego!
No membro o brilho lento... Arde!
Em óleo transparente, numa transparência vegetal.
Flexão das articulações, aperta-me com força contra as paredes da respiração
Ansiosa... Ofegante
Vibração dos nervos,
Densa espessura,
Começa aí... Por dentro!
Corda de servos... Obsessão centrípeta.
Escura!
Avidez correndo apressada
Exaltação devastada
Nas hastes vivas centrais
Intensas! Extensas!  Intensas!
É cegueira, múltipla, inúmera, imensa
Trabalho-te nas entranhas, os sextos sentidos
De dentro para fora: de mim em ti
Tu ergues-te e... Estás cego! Na fronte, a tremer, a vibrar!

NA PENUMBRA PULSA ( Luisa Demétrio Raposo )

 Desnuda a voz,

Funda suspensão
Transparências
- A elas me entreabro.
Num holocausto prazer,
Transparências
- Sopeso milhafre grosso,
(A ele completamente me abro)

Rebenta-me um fulvo potro,
De junco leve e esguio,
(Mudo)
De canavial macio,
Bem dentro,
(Em mim relincha, galopa)
Em pino prumo!

Calor onde tudo amadurece,
Numa mútua posse
Avanço recuo. O riso fruo.

Fundido por nossa vontade,
Fundido seminal, em aço duro

Salubremente ,
Rompe-se a água fecundante,
E...
Em mim,
Tu te vens do futuro

CONFESSA - ME UMA ORGIA ( Luisa Demétrio Raposo )

 Orgia,

da cútis a queimar,
De seios e ostra, ao ar
Na noite ardente, vaginal!
Voga louca, a fenda ogival.
Domínio!
Espraio!
Duro, talo.
Lento, falo.
Confessa.
Confessa-me , uma orgia
Entrou-me (um pénis queria)
Confessa-me essa tua raça,
Na vírgula da tua ereção!
Boca com boca, na sucção
Gesto obsceno,
O fruto aberto
Poeta,
Relincho, no veio secreto
Confessa-te!
Às minhas pernas,
de meias pretas,
Equador,
no meio das duas gavetas
Nua e amarela,
pinga pelos canais,
Afundas penadas ogivais,
Confessa
A tua língua
Em mim... proxeneta!
Na oratória, trombeta 

NÃO PRECISAS DE ME PROCURAR ( José Jorge Letria )

 Aqui não precisas de me procurar

para me encontrares, que eu estou,
omnipresente, em todo o chão que pisas,
duplicando a tua sombra,
deixando um rasto de brisa,
um aroma de urze na marca dos teus passos.
Com esta roupa visitaremos os pátios,
os átrios de dança e do encantamento.
As nuvens aninhadas atrás da lua,
na olorosa paz da madrugada,
são o mapa das errâncias da fala
enquanto o coração, indefeso, capitula.

ODE AO GATO ( José Jorge Letria )

 Tu e eu temos de permeio

a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte,
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.


 


 

HEI DE TRAZER -TE AQUI ( José Jorge Letria )

 Hei-de trazer-te aqui para te mostrar

os pequenos barcos brancos
que levam o Verão desenhado nas velas
e trazem no bojo a alegria dos arquipélagos
onde se ama sem azedume nem pressa.
Aqui, temos a ilusão breve
de que os dias sabem a pólen
e esvoaçam nas asas das abelhas
como cartas eternamente sem resposta.

A SOFREGUIDÃO DE UM INSTANTE ( José Jorge Letria )

 Tudo renegarei menos o afecto,

e trago um ceptro e uma coroa,
o primeiro de ferro, a segunda de urze,
para ser o rei efémero
desse amor único e breve
que se dilui em partidas
e se fragmenta em perguntas
iguais às das amantes
que a claridade atordoa e converte.
Deixa-me reinar em ti
o tempo apenas de um relâmpago
a incendiar a erva seca dos cumes.
E se tiver que montar guarda,
que seja em redor do teu sono,
num êxtase de lábios sobre a relva,
num delírio de beijos sobre o ventre,
num assombro de dedos sob a roupa.
Eu estava morto e não sabia, sabes,
que há um tempo dentro deste tempo
para renascermos com os corais
e sermos eternos na sofreguidão de um instante.
in VARIANTES DE OIRO (1ª ed., Lisboa: Hugin, 1998)

BALADA DA BÓSNIA (Joseph Brodsky)

 Enquanto te serves de um uísque,

esmagas uma barata, olhas para o relógio,
enquanto compões a gravata,
há pessoas a morrer.

Em cidades com nomes curiosos,
atingidas por balas, apanhadas pelas chamas,
em regra sem saberem porquê,
as pessoas morrem.

Em pequenas localidades desconhecidas,
porém vastas, que não deixam hipótese
de gritar ou dizer adeus,
há pessoas a morrer.

As pessoas morrem enquanto eleges
novos apóstolos da incúria,
do autodomínio, etc. — pelos quais
as pessoas morrem.

Demasiado longe para o amor
pelo vizinho/irmão eslavo,
onde os querubins temem voar,
há pessoas a morrer.

Enquanto observas a pontuação dos atletas,
verificas o último extrato, ou
cantas uma canção de embalar ao teu filho,
há pessoas a morrer.

O tempo, cuja cortante sede de sangue separa
os mortos daqueles que matam,
anunciará a tribo derradeira
como o teu grupo sanguíneo.
(Tradução: Lauro Machado Coelho)