18/06/2025

BÁRBARA, BÁRBARA ( Florisvaldo Mattos )

 És, em teus dias tu mesma,

no teu olhar para dentro.
Uma porção de infinito
em ti se descobre enigma.

Semelhas uma flor de aço,
que se dissolve em cristais,
redesenhando o jardim,
que te rodeia em convívio.

Um malmequer em pessoa,
num semblante que ressoa
olho e boca, sempre mudos:

estrela esbelta em tez bárbara,
o silêncio é que te faz,
Bárbara, essência de mundos.

A MOÇA FERRADA ( Carlos Drummond de Andrade ) in Esquecer para Lembrar; Boitempo - III, 1979

 Falam tanto dessa moça. Ninguém viu,

todos juram.
Cada qual conta coisa diferente,
e todas concordantes.
Dizem que à noite, ela. Ela o quê?
E com quem? Com viajantes
que somem sem rastro
gabando no caminho
os espasmos secretos (tão públicos) da moça.

Sobe a moça
a ladeira da igreja
para a reza de todas as tardes.
De branco perfeitíssimo,
alta, superior, inabordável
(luxúria de mil-folhas sob o véu,
murmura alguém).
À noite é que acontecem coisas
no quarto escuro. Ganidos de prazer,
escutados por quem? se ninguém passa
na rua em altas horas-muro?
Pouco importa, a moça está marcada,
marca de rês na anca, ferro em brasa
de língua popular.

TUDO O QUE ME RESTA ( Mariana Botelho )

 tudo o que me resta é dizer de um corpo que chora à margem de

                                                        um rio
esperando a sede.

porque a palavra me pega de dois jeitos:
de um jeito que não basta sabê-la;
de um jeito que me come.

tudo o que me resta é dizer de um corpo que chora à margem
esperando a sede
enquanto ouve a palavra: água

OLHOS NEGROS ( Almeida Garrett )

 Por teus olhos negros, negros

Trago eu negro o coração,
De tanto pedir-lhe amores.
E eles a dizer que não.

E mais não quero outros olhos,
Negros, negros como são;
Que os azuis dão muita esp’rança,
Mas fiar-me eu neles, não.

Só negros, negros os quero;
Que, em lhes chegando a paixão,
Se um dia disserem sim.
Nunca mais dizem que não.

Célia Moura, in "No Hálito de Afrodite"

 Toma nota nas palavras que te não digo

Porque em todas elas
Há jasmim, girassóis
E descansam nas águas das fontes
As mãos que afagam gritos.
Toma nota nas palavras que te não digo
Porque em todas elas vibra um rio
E nos meus olhos há um mar
Que se enrosca
Na seda dos meus lençóis
E cântico de rouxinóis.

17/06/2025

FLORES QUE NASCEM DOS TEUS LÁBIOS ( Nuno Júdice )

 Olho os teus olhos fechados,

ouço a tua respiração breve.

E sei que sabes que te vejo,

como tu sabes que eu o sei.

Admiro, meu amor, o teu sonho.

Levas-me para fora da cidade,

às estradas ermas dos arredores,

onde voo sobre o teu corpo.

E um outro nos aparece:

ramos são os teus braços;

flores, as que nascem dos teus lábios;

corre um rio no vale entre os seios.

E volto a ser um camponês,

trabalhando a terra que me dás.




ALEGORIA FLORAL ( Nuno Júdice )

 Um dia em que a mulher nasça do caule da roseira

que cresce no quintal; ou um dia em que a nuvem
desça do céu para vestir de névoa os seus
seios de flor: seguirei o caminho da água nos
canteiros que me levam ao caule, e meter-me-ei
pela terra em busca da raíz.

Nesse dia em que os cabelos da mulher se
confundirem com os fios luminosos que o sol
faz passar pela folhagem; e em que um perfume
de pólen se derramar no ar liberto da névoa:
procurarei o fundo dos seus olhos, onde corre
uma transparência de ribeiro.

Um dia irei tirar essa mulher de dentro da flor,
despi-la das suas pétalas, e emprestar-lhe o véu
da madrugada. Então, vendo-a nascer com o dia,
desenharei nuvens com a cor dos seus lábios, e
empurrá-las-ei para o mar com o vento brando
da sua respiração.

Depois, cobrirei essa mulher que nasceu da roseira
com o lençol celeste; e vê-la-ei adormecer, como
um botão de rosa, esperando que a nuvem desça
do céu para a roubar ao sonho da flor.

A TUA MÃO ( Nuno Júdice, in O Estado Dos Campos )

 Tiro a mão que me esconde o triângulo,

e ela resiste à mão que a desvia: mas
procuro acertar no seu ângulo, e entre
-ver a fresta por onde o amor corria.

Beijo essa não e ela abre o caminho
para onde me encontro e me perco.
bebendo desse cálice o puro vinho
que me libera sem sair do cerco.

Amo a tua mão que me guia e prende,
a doce mão de tão finos dedos
a que o meu desejo se rende;

e ao procurá-la, sabendo o que me faz,
deixo que me ensine os seus segredos,
e guardo-a na minha, quando ma dás.

Casimiro de Brito, in Amar A Vida Inteira

 Quem toca na espuma

mergulha no mar.
Assim comecei a amar-te.
Primeiro uma gota
invisível. Agora
no sexo que me abres
na saliva que me sacia
a terra toda e todos
os seus rios.

CASIMIRO DE BRITO, in Opus Affeituoso, 1997

 Entro no teu corpo árvore

felina
como quem visita um templo
vegetal uma ilha impregnada
pelas especiarias mais raras
do sol e do mar. Ascendo em bocas
que bebem a minha seiva em dunas
que me lavam e queimam
humildes. Armas tão frágeis
as que temos: o mel a saliva o
sémen. Caminho
na luz obscura
com as mãos vazias
de quem nasce de novo

133 ( Casimiro de Brito, in Livro dos Haiku )

 Outrar-me contigo,

que mais posso desejar?
A vida é um pássaro

132 ( Casimiro de Brito, in Livro dos Haiku )

 Eis como te quero:

nua, inclinada sobre
meu corpo em chamas

131 ( Casimiro de Brito, in Livro dos Haiku )

 No mar tão deitada!

Apetece-me despir-te
com língua e dentes

16/06/2025

PRENDA ( Alê Magalhães )

 talvez alguém me prenda

por causa deste decreto-poema

talvez alguma mulher

ainda a prenda da casa

na poesia por decreto

eu decreto

não passarei mais roupa

nem passarei mais pano

quantos livros poderiam ser lidos

enquanto engomavam camisas?

quantos poemas poderiam ser escritos

enquanto passavam vestidos?

quanta literatura foi gasta

em roupas bem passadas?

talvez me prendam

os olhos julgadores

das regras impostas

na amurada noturna

quando ainda não sabíamos que

não

não era amor

era trabalho não remunerado


25 DE ABRIL É CARNE VIVA ( Sara F. Costa )

 rasgou-se a parede com as unhas.

não foi flor -
foi unha,
foi nervo.
o sangue seco nas bocas
ainda sabe a quartel.

diziam:
calem-se.
baixem a saia.
cortem a rádio.
rezem ao retrato.
morram de mansinho.

mas alguém trepou o medo.
alguém cuspiu no chão do patrão.
alguém gritou tão alto
que a palavra liberdade
abriu as coxas da madrugada.

e não foi bonito.

teve cheiro de suor e de pólvora,
teve homens com medo a chorar
no meio da multidão,
teve mulheres com cravos no útero
a parir o país outra vez.

os tanques eram mães
com dentes cerrados.
a cidade, um útero sujo
cheio de gente a nascer
fora do prazo.

não me venham com discursos.
abril não é palco -
é ferida aberta,
é língua mordida,
é orgasmo interrompido,
é a sujidade que fica nas mãos
de quem tocou o impossível.

 

CATEDRAL AO NÍVEL DO CHÃO ( Sara F. Costa )

 o quarto arde em silêncio:

os lençóis são a pele de um animal antigo
que sonha contigo à deriva, em Braga.

lá fora,
a montanha sustém a catedral
como um osso exposto à eternidade —
mas o sagrado
estava quando o teu filho te lançou um ramo de vento,
e tu disseste
“olha, amor, estamos vivos.”

nesse instante,
um deus pequeníssimo pousou-te nos cílios,
feito de terra e brinquedo e saliva,
e reconheceu-te:
a mãe que abortou a culpa.
a mulher que escreveu o fogo em vez do evangelho.

o altar está abaixo da torre,
na memória da areia.

teu corpo sabe.
teu corpo lembra.

há uma árvore invisível a crescer entre o teu peito e o vidro
e cada vez que a olhas,
uma nova palavra
nasce sem boca.

Por Sara F. Costa

 Dizem que escrevo como um homem.

Como um músculo que morde,
como um punho fechado em sílabas.
Como um homem.
Dizem que escrevo como um homem,
mas esquecem-se de perguntar
se a frase tem útero,
se a metáfora menstrua,
se a vírgula rasga a garganta
antes de nascer.
Dizem que escrevo como um homem.
Mas eu escrevo como um corpo,
como um dente cravado na folha,
como um berro que não se desculpa.
Escrevo como um trovão sem género.
E que se foda o pronome.

15/06/2025

TERNURA ( Adalgisa Nery )

 Antes que eu me transforme em água

E corra com os rios
Cantando para as florestas escuras
A canção sublime
Deixa-me contemplar tua face amada
Para que a canção se eternize.
Antes que os meus olhos se transformem
nos minúsculos vermes
Que movimentam o solo
Deixa-me receber a luz de tua boca
Para que eu me ilumine como as estrelas
No infinito da noite.
Antes que minhas mãos se mudem nas pedras das montanhas
Por onde caminharão os jovens pastores
Deixa-me afagar teus cabelos
Para que meu carinho se transforme na brisa
Que beija os grandes trigais.
Antes que minha forma sirva junto às raízes
Para amadurecer os frutos
Guarda-me na música de teu corpo
Para que o mistério do amor
Baixe sobre o universo
E banhe os espíritos perturbados.
Adalgisa Nery, no livro "Mundos Oscilantes", José Olympio Editora, 1962

POEMA DE AMOR ( Adalgisa Nery )

 Ouve-me com teus olhos

Porque minha queixa é muda.
Acaricia-me com teu pensamento
Porque meu corpo está imóvel.
Beija-me com tuas mãos
Porque minha boca te espera.
Fala-me com o silêncio dos momentos de amor
Porque os ouvidos da minha vida
Se abrirão como as flores

Na úmida e infinita madrugada.
Adalgisa Nery, no livro "Mundos Oscilantes", José Olympio Editora, 1962.

TRAGEDIAZINHA ( Astrid Cabral )

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CASARÕES ( Bruna Beber )

 o coração é o povoado da memória;

aparentado com o fígado é o sentimento:

a indignação ocupa o estômago

    mas o desejo faz do pulmão um pomar.

 

a cabeça é inquilina

ou proprietária do corpo,

e quem morre primeiro?

BARRAGEM ( Bruna Beber )

 deve ser perigoso

esse gosto recorrente
de incêndio na boca

mas não há saliva pra apagar
e não há saliva que apague
por isso falo pouco

não sei o que de fato queima
fecho a boca e o fogo sai
pelo nariz

respiro mal, meu ar é qualquer fumaça
queria um gosto bom, queria pernas
pra sair correndo.
Bruna Beber, no livro "Balés". Rio de Janeiro: Língua Geral, 2009.

A VIOLÊNCIA ( Bruna Beber )

 vontade constante

de dizer te quero tanto
dela me distraio
mas você me abraça
e de repente todo
o mundo não tem
membros superiores
e então me beija
eu poderia matar
todas as plantas
tenho muito ar
até que sinto
na ponta dos dedos
a coragem de dizê-la.
 Bruna Beber, no livro "Rua da Padaria". Rio de Janeiro: Editora Record, 2013.

ORIGEM ( Anilda Leão )

 Quando a noite desce sobre a terra,

as sombras do mundo inteiro se procuram,
e se encontram e se amam.
Mais tarde, ventres pejados
despejam luzes sobre o corpo do céu.
(Luzes que foram geradas num instante de amor)
...........................................................
E assim nascem as estrelas.
Anilda Leão, em "Chão de Pedras". Maceió: Caetés, 1961.

PROMESSAS ( Anilda Leão )

 Eu farei do meu corpo

o arrimo suave para a tua canseira.
Eu darei um pouco da minha tranquilidade,
para amenizar as asperezas da tua vida.
Eu te embalarei nos meus braços
e reclinarei tua fronte cansada
de encontro ao meu peito.
As minhas mãos serão feitas de carícias
e repousarão de leve sobre tua cabeça.
Eu serei para ti, aquela que custou a chegar,
mas que surgiu no momento preciso,
em que procuravas uma sombra amiga,
para repousar o corpo cansado.
Dar-te-ei tudo quanto te foi negado na vida,
se me deres em troca o teu amor,

e as lições que aprendestes do mundo.

DESEJO ( Isa Corgosinho )

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BONUM DIFFUSIVUM SUI ( Júlia Peccini )

dêdiprosa

é o transpassar

que você executa

fere

pulsa

e eu chamo pelo

ar que me

transborda incerteza

destas palavras não

tão soltas da minha

cabeça

cadeia

o toque e a costura

se agridem

as soluções verbais me

procuram

escalam as escadas

insistem

penetram

decifram o bem

que se difunde por si

mesmo do meu

não corpo

enciclopédico

é a história mais

velha do mundo

disse tim bernardes

querem aproximar

fanopeias

esquecem que eu sou

à prova de sonhos

consulto o dicionário

leio essas palavras

como se a falta da

vírgula

mudasse o ser do

meu

teu

verbo selecionado

a costura não encontra

mais o toque e a

rima que pausa

um

verso

do

outro

deixa

a minha mão

áspera.

Mergulhar na Pele, Desoxidar a Língua (p.39)


MUKAI (I) ( Ana Paula Tavares )

 Corpo já lavrado

equidistante da semente
             é trigo
             é joio
             milho híbrido
             massambala
resiste ao tempo
        dobrado
        exausto

sob o sol
que lhe espiga

 a cabeleira. 
Ana Paula Tavares, em "O lago da lua". Lisboa: Editorial Caminho, 1999, p. 30.

É SEMPRE À NOITE ( Ana Paula Tavares )

 É sempre à noite que mais dói

Dizia-me o amigo
Chega a febre
O cheiro ácido do pântano
O silêncio gelado dos nossos mortos
A presença inquieta dos outros
O lento movimento das dunas
Ana Paula Tavares, em "Como Veias finas Na Terra". Lisboa: Editorial Caminho, 2010.