14/07/2025

OBSCURO DOMÍNIO ( Eugénio de Andrade )

 Amar-te assim desvelado 

entre barro fresco e ardor. 
Sorver entre lábios fendidos 
o ardor da luz orvalhada. 

Deslizar pela vertente 
da garganta, ser música 
onde o silêncio flui 
e se concentra. 

Irreprimível queimadura 
ou vertigem desdobrada 
beijo a beijo, 
brancura dilacerada. 

Penetrar na doçura da areia 
ou do lume, 
na luz queimada 
da pupila mais azul, 

no oiro anoitecido 
entre pétalas cerradas, 
no alto e navegável 
golfo do desejo, 

onde o furor habita 
crispado de agulhas, 
onde faça sangrar 
as tuas águas nuas.
 Eugénio de Andrade, em "Obscuro Domínio". 1972.

10/07/2025

NUDEZ ( Alexandre Bonafim )

 Uma nudez

capaz de clarificar
os objetos
adensando-os
em pura fantasia
concretude selvagem
intensa presença

Uma nudez
de ângulos precisos
perfeita
como prisma
peixe esguio
talhado em pedra
em sêmen

Um corpo
de contornos
em êxtase
jorro pleno do real
geometria
em vertiginosa
febre

Uma nudez
irmã gêmea
da sede
mãe de todo
o existente
pupila do fogo
espelho estilhaçado
pela luz das flores

Um corpo
despido até a ausência
capaz de purificar
o pensamento
concentrando-o
em maciça precisão
correnteza fixa
cortante delírio

PERCURSO DA AUSÊNCIA - V ( Gilberto Nable )

 Chove lá fora sobre as serranias de Aiuruoca.

Chove lá fora sobre o gado em aboio.
Chove lá fora sobre os bambuais e o rio.
Chove lá fora sobre antigos caminhos da minha infância,
com arapucas armadas e rolinhas,
e folhas úmidas nos pés descalços,
e lírios já orvalhados.
Chove sobre os pirilampos no escuro
em verde fosforescência.
Chove sobre o corpo de minha mãe doente,
exposto ao tempo e à febre.
Chove dentro do meu peito.

Chove uma chuva miúda e triste.
Chove, afinal, sobre os telhados do mundo.
Chove nos escombros do World Trade Center,
no Marco Zero da Grande América divinizada.
Chove sobre as mulheres iraquianas orando e balindo.
Chove sobre os campos de refugiados no Afeganistão,
em suas barracas esfarrapadas ventando;
assim como antes chovera nos campos de Sabra e Shatila,
e no Gueto de Varsóvia.

Chove na piazza de São Pedro, deserta,
e sobre os ombros encarquilhados do Papa.
Ouço a chuva caindo sobre minaretes e sinagogas
com seu ruído monótono.

Vejo a chuva molhando o corpo dilacerado de um
menino palestino,
com as mãos agarradas a uma pedra.
Chove nos capacetes metálicos dos soldados de Israel,
nas suas viseiras de aço e miras telescópicas.

Chove ainda hoje sobre mim,
bêbado, sozinho e urinando na chuva,
com um miserável soluço na garganta.
Eu sei que chove hoje e choverá para sempre,
em lento e definitivo dilúvio,
sem intervalo, nem instante,
até que tudo esteja submerso sob as águas,
e na superfície nada,
nada respire sobre as ondas.

O CORPO ( Sônia Barros ) in Tempo de Dentro; Prêmio Paraná 2017. Biblioteca Pública do Paraná, Curitiba, 2018

 Nenhum dos dois

nunca soube explicar
— mesmo dez anos depois,
não sabem.
Tampouco tiveram
coragem de olhar
para baixo e ver
        o corpo
        estatelado
        em meio
        aos estilhaços.

Ele se mudou, ela ficou
no apartamento-trampolim
conservando por algum tempo
janelas e olhos fechados.

Nas raras vezes
em que se encontram,
quase sempre por acaso,
evitam palavras
ou mesmo olhares
que possam trazer
a dor à tona.

De vez em quando
ainda se lembram,
mas cada vez com menos
nitidez,
daquela tarde
de chuva
em que viram, perplexos,
saltando da janela
para o abismo:
a taça de vinho tinto,
onde boiava,
já morto,
o amor.

A ARTE DOS VERSOS ( Eugénio de Andrade ) in Rente ao Dizer (1992)

 Toda a ciência está aqui,

na maneira como esta mulher
dos arredores de Cantão,
ou dos campos de Alpedrinha,
rega quatro ou cinco leiras
de couves: mão certeira
com a água,
intimidade com a terra,
empenho do coração.
Assim se faz o poema.

XVII ( Eugénio de Andrade )

 Ignoro o que seja a flor da água

mas conheço o seu aroma:
depois das primeiras chuvas
sobe ao terraço,

entra nu pela varanda,
o corpo inda molhado
procura o nosso corpo e começa a tremer:
então é como se na sua boca

um resto de imortalidade
nos fosse dado a beber,
e toda a música da terra,
toda a música do céu fosse nossa,

até ao fim do mundo,
até amanhecer.

DANCEI DESCALÇA POR TODOS OS LUGARES ( Graça Pires )

 E dancei descalça por todos os lugares,

imitando os rituais aos deuses
das límpidas manhãs,
ou aos anjos das trevas,
na euforia do enlevo.

Cúmplice fui de bacantes e de bichos.
De árvores e de chuvas fui irmã.

Concebi-me a usar a máscara das tragédias
gregas até escutar vozes divinas.

Bailarina imperfeita e persistente
fiz do meu perfil a promessa inequívoca
de um cerimonial dos sentidos,
um salto mortal do meu próprio começo.

IMPIEDOSAMENTE ( Graça Pires )

A minha solidariedade para com os habitantes de Petrópolis.
    O meu abraço para todos os meus Amigos do Brasil

 Impiedosamente, um rio de lama desceu o morro.

Arrastou casas, carros, pessoas em aflição e dor,
na vertigem de uma morte inesperada.
Eram mulheres, homens, crianças.
Todos amavam a vida.
Mas o rio de lama que desceu o morro
despenhou-os impiedosamente.
Os que ficaram choram agora a família,
os amigos e tudo o que o rio de lama
lhes roubou. Impiedosamente.

AS MÃOS DAS MULHERES ( Graça Pires )

 Tão atarefadas sempre, as mãos das mulheres

ficam por vezes vazias de afagos,
quase ausentes e indecisas
no esboço de desejos sem retorno.
É então que aprendem a atear o fogo
com a benevolência debaixo da língua
e inventam um alfabeto transparente
para descreverem com detalhe
as madrugadas silenciosas.
Aquelas que colocam no olhar
um estremecimento sagrado
e permitem adivinhar a perfeita simetria de aves
a rasarem a silhueta das casas.
Por isso esperam, ansiosas, de olhos colados na janela,
o regresso dos bandos de estorninhos no fim do verão.
De "Antígona Passou Por Aqui" (2021)

08/07/2025

OUTONO ( Djavan )

 Um olhar, uma luz, ou um par de pérolas

Mesmo sendo azuis, sou teu e te devo
Por essa riqueza

Uma boca que eu sei
Não porque me fala lindo
E sim, beija bem
Tudo é viável pra quem faz com prazer

Sedução, frenesi
Sinto você assim, sensual, árvore
Espécie escolhida pra ser a mão do ouro
O outono traduzir, viver o esplendor em si

Tua pele, um bourbon
Me aquece como eu quero
Sweet home, gostar é atual
Além de ser tão bom

AZUL ( Célia Moura )

Nos búzios que deixaste na enseada qual lembrança

Ensaio valsas.
Nos beijos que não deixaste
Invento amor.
Nos estilhaços do meu corpo feito ventre de mulher
Imagino o meu filho.
Na enseada do meu corpo
Tudo corria devagar.
Nesse tempo eu cantava para o mar
E ainda beijava o firmamento de todas as pequenas dádivas
Que a poesia sempre me ensinava.
Entre búzios e conchas, simplesmente te contemplava
E tentava descobrir outras conchas mais
Sendo feliz até nos temporais.
Mas, na praia onde tudo ainda corre devagar,
Eu queria ver-me com fôlego e coragem de chegar plena de mim
Quiçá cantando de novo para o mar
Quiçá orando pela minha impotente condição humana
Agradecendo o amor que tive em plena Primavera de nós.
Inventar um filho e com ele construir castelos de areia,
Brincar com as ondas, apanhando búzios e voltar a descobrir
Conchas novas.
Ensaiar um poema maior feito de beijos e palavras sábias
Para te emoldurar o rosto e a memória, meu amor
Num hino feito de luz e de azul.

 


 


 


 

07/07/2025

MANHÃ - XII ( Pablo Neruda )

 Plena mulher, maçã carnal, lua quente,

espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas colunas?
Que antiga noite o homem toca com seus sentidos?

Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos
e dois corpos por um só mel derrotados.


Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia

corre pelos tênues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo noturno,
até ser e não ser senão na sombra um raio.

06/07/2025

AVE MARIA QUE PASSEIA NA AVENIDA SETE ( Simone Bacelar )

 Maria passou por mim

na calçada da farmácia.
Estava com uma sacola de plástico
e o salto quebrado.
Andava com pressa,
mas dava pra ver:
rezava alguma coisa baixinho.
Era onze e meia.
Sol de rachar pensamento.
Um homem gritou “vagabunda!”
pra uma moça de vestido justo.
Ela parou,
olhou pra ele como quem examina um cisco na janela
e respondeu, sem pressa:
“Se soubesse onde dói em você,
não tentava doer em mim.”
O silêncio caiu como prato no chão.
Ele engoliu em seco
e ficou olhando o nada,
como quem esqueceu o caminho de casa.
Maria, que vinha logo atrás,
sorriu com o canto da boca,
ajeitou o pano invisível na cabeça
e seguiu com o mesmo passo de sempre.
Mas agora
havia um lume no asfalto.
Na padaria da esquina,
ela pediu fiado.
O padeiro fez cara feia,
mas deu o pão.
“É pra um menino doente”, ela disse.
Eu não sei se era.
Mas achei tão bonito acreditar
que paguei a conta sem ela saber.
Ave Maria
cheia de graça no camelô,
cheia de cheiro de queijo coalho,
cheia de saudade da mãe que morreu sem aviso.
O Senhor é convosco,
ainda que pareça ausente,
ainda que só apareça no fim da fila do SUS.
Cheia de boletos vencidos,
que pega dois ônibus para trabalhar
e ainda volta com leite,
pão e esperança na bolsa rasgada.
Bendita sois vós entre as mulheres,
que andam com o útero ferido
e, mesmo assim, dão colo.
E bendito é o fruto do vosso ventre,
o menino que dorme com fome
mas ainda sonha com bola e nuvem.
Santa Maria, Mãe de Deus, do centro da cidade,
que um dia também teve medo,
que lavou roupa em pedra dura,
que chorou em silêncio no canto da casa,
rogai por nós, os pecadores:
os que acordam atrasados,
os que falam sozinhos no ponto de ônibus,
os que juram que ainda creem,
mas vivem pedindo sinal.
Agora,
na hora em que a carne duvida,
na hora em que a lâmpada queima
e não tem dinheiro pra outra.
Na hora da nossa morte,
e na hora do aluguel.
Na hora em que o filho desvia,
na hora em que o amor vai embora
sem deixar bilhete.
Na hora em que tudo parece sem fé
e, mesmo assim, a gente reza.
Amém.

SILÊNCIO ( Célia Moura, in "Enquanto Sangram As Rosas..." )

 Como uma parede de hera

Adelgaço-me na tua mão
Ao poente do silêncio,
Saboreando o odor dos teus lábios
No meu ventre inquieto.

Firmámos laços de segredo
Na quimera dos sentidos
Como um refresco de limão
E maresia
Ao porão dos gestos imperfeitos
Traçados num beco
Do teu desvelo,
Meu corpo de liberdade revelado,
Meu vinho e minha essência...
parede de branco vestida por onde me adelgaço
Neste grito encantado
Suado dos nossos corpos.

Por Aline Velozo

 meus medos ainda estão aqui, andando pela sala

alguns grandes, outros pequenos, mas já não me olham mais nos olhos de tanto que cresci, meus medos foram se apequenando
e de longe, por qualquer brecha, há quem diga (ha)ver coragem

RITOS ( John Ferreira )

 Debaixo dos ipês amarelos do parque,

sob teu vestido rodado,

eu abria tuas pétalas de carne com meus dedos de guri

para beijar-te o clitóris

com a mesma deferência com que os católicos beijam os anéis dos bispos.


04/07/2025

O LAMENTO ME PERSEGUE ( Adalgisa Nery )

 Lamento eterno das minhas carnes

Que inebria de sons o meu espirito
Que torna incertos os meus passos
E que invade de torpor os meus sentidos.
Lamento que se estica nos meus braços
Se volteia em meu pescoço
Se prende á minha língua
E se plasma no meu torso.
Lamento eterno que tem percorrido caminhos sem fim
Que tem atravessado mares revoltos
Desertos pestilentos,
Sempre atrás de mim.
Lamento eterno que vem separando a minha Unidade,
Dilatando o meu ser com imperceptíveis movimentos,
Que domina, que lambe os meus contornos
E que me afoga em carícias como um amante sedento.

03/07/2025

AVE, LIBERDADE! ( Simone Bacelar ) 2015

Ave, liberdade!

Hoje eu varri a casa com ódio e
a vassoura parecia entender.
A liberdade passou por mim feito cão raivoso,
entrou sem pedir licença,
foi direto para cozinha
e bebeu água na cuia que era de Nossa Senhora.
Não pediu desculpa.
Liberdade não tem bons modos,
chega suada,
com a barra da saia molhada de orvalho sujo
e um cigarro aceso escondido no sutiã.
Pisa torto,
mas pisa firme.
Às vezes acho que é pecado gostar dela.
Dá um gosto de abismo no fundo da boca,
porque a gente se acostuma com a cerca,
com o sino das seis da tarde,
com o homem mandando,
com a missa dizendo amém por nós.
A gente se acostuma tanto a obedecer
que até a alma se encolhe pra caber no
vestido de costume.
Mas ela vem:
quando a gente tá mais cansada,
quando o arroz queima,
quando o filho dorme,
quando o corpo cansa de só servir.
A Liberdade, naquele dia, dançou comigo na sala.
Eu descalça, com o cabelo desgrenhado
e um pedaço de pão na mão,
que ela comeu sem vergonha, nem bênção.
Riu com a boca cheia.
Cuspia farelo e destino.
Depois me contou
que fugiu do altar,
que deu uma surra no medo,
que anda pegando carona com
mulher cansada de calar.
E que gosta mesmo é de dormir com a janela aberta,
pra ver se a vida entra de madrugada.
Ela me disse no ouvido:
"Liberdade é isso aqui, ó...
a vontade que você esconde no banho,
o grito que você dobra e guarda na gaveta das calcinhas."
E eu chorei.
Não por tristeza.
Por susto.
De perceber que ela me conhece mais
do que qualquer oração que já rezei calada.
Depois lavamos a louça em silêncio.
Ela me passou o pano
como quem entrega um mapa antigo.
Fiquei ali,
tentando entender que caminho era aquele,
feito de nada além de coragem e cansaço.
Aí fui dormir.
Com ela deitada ao meu lado,
cheirando a suor e milagre.
Roncando baixinho,
como quem não tem mais nada a temer.
E, pela primeira vez,
não pedi perdão.
Nem pra Deus,
nem pra mim,
nem por estar viva,
nem por querer mais.

 

01/07/2025

CORPO CONFINADO ( Natasha Sardzoska )

 Este corpo não é o meu corpo

outros corpos vivem em mim:

corpos que eu chamo os meus

porque me pertencem.

 

Eu tenho um pacto

com todos os microrganismos

que vivem em mim

e que procuram-me

que gritam por dentro

e queimam-me

e querem sair de mim:

mas eu nunca lhes vou dar

trégua.