04/09/2025

ENCOMENDA ( Cecília Meireles )

 Desejo uma fotografia

como esta — o senhor vê? — como esta:
em que para sempre me ria
com um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia.
Não... Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.

VIVER VERÁ ( Nic Cardeal )

 Dizem que viver é verbo intransitivo,

autossuficiente,
não pede qualquer complemento,
mas em mim se esvazia
— sozinho não sobrevive —
pede água, casa, comida,
amor, amigos, poesia,
loucura, sonhos, contrastes,
primaveras acesas,
réstias de outonos,
chuvas passageiras,
algumas lágrimas,
alegrias inteiras,
muitos versos,
objetos diretos, indiretos,
controversos.

Viver é verbo imperativo,
hiperativo,
de fazer profundidades na alma da gente
— até que finalmente
seja gasta a carne,
seja fraca a mente,
nossos corpos sejam depostos,
devolvidos como sementes
ao canteiro de obras
de um mundo quase indecente.
Quem viver
verá
— transitivamente.

LINGUAGEM ( Nic Cardeal )

 Se queres fazer alguma alteração 

na palavra dita,
canta-a,
faz dela uma fotografia
em sépia,
recorta-a com a tesoura da tua voz,
estende-a qual fio condutor
de saudades nunca esquecidas.

Porém, não te esqueças:
depois de pronunciada,
uma palavra
vira abismo
— de um lado,
o que se disse,
do outro,
talvez perto ou distante,
quase longínquo,
um mundo inteiro traduzido
em olhos de espanto,
céu noturno esburacado de estrelas,
compreensões tão tardias.

CHUVA LENTA (Gabriela Mistral) Tradução de Ruth Sylvia de M. Salles

Esta água medrosa e triste,

como criança que padece,

antes de tocar a tierra,

desfalece.

Quietos a árvore e o vento,

e no silêncio estupendo,

este fino pranto amargo,

vertendo!

Todo o céu é um coração

aberto em agro tormento.

Não chove: é um sangrar longo

e lento.

Dentro das casas, os homens

não sentem esta amargura,

este envio de água triste

da altura;

este longo e fatigante

descer de água vencida,

por sobre a terra que jaz

transida.

Em baixando a água inerte,

calada como eu suponho

que sejam os vultos leves

de um sonho.

Chove… e como chacal lento

a noite espreita na serra.

Que irá surgir na sombra

da Terra?

Dormireis, quando lá foram

sofrendo, esta água inerte

e letal, irmã da Morte

se verte?

PUDESSE EU ( Sophia de Mello Breyner Andresen )

 Pudesse eu não ter laços nem limites

Ó vida de mil faces transbordantes
Pra poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes.

Célia Moura, in "Terra De Lavra"

 Aguardo-te amada minha

enquanto possuir a bênção de Osíris entre a púbis e o umbigo.
Esta herança pobre de ninguém que eventualmente irá perpetuar toda a dor,
todas as cerejas e o licor,
num local onde nunca me dei.
Perfídia minha,
esta alma infinitamente sozinha.
Doem-me todas as vozes que ouço e os silêncios mais ainda!
Se escrevo é por esta tristeza de ser.
Se existo e escrevo, apelo unicamente à salvação de mim.
Mas tudo o que sinto é este cansaço
maior ainda que todos os fardos, angústias ou paixões longínquas.
Tudo o que possa escrever é maçã assada no forno
ou mais uma taça de espumante refasteladamente bebida por qualquer um!
Tudo tão repetido até à exaustão
e eu irremediavelmente perdida, desmemoriada como um abacate sem caroço
ou água de coco em lata de supermercado.
Se ainda canto é tentativa de libertação dessa louca que tomou posse do meu cérebro revestido a jasmim
enquanto te vejo chegar suave,
e de um só gole me bebes a alma pela raiz.
Eis-me liberta!
Finalmente liberta de toda a miserável matéria e deste corpo.
Olho para baixo e contemplo a alegria da planície prenhe de verde e papoilas.
Uma criança gargalha em seu baloiço,
rebola com um pequeno rafeiro preto,
mancha branca no peito
naquele local mágico
onde tudo não passa de um ciclo demasiado perfeito.
A liberdade é um hino que rodopia nos meus cabelos.
Estremeço só de olhar o mundo.

03/09/2025

ORGASMO ( Alberto da Cunha Melo )

 Todo corpo, em seu esplendor,

divide em duas esta vida,
mas este êxtase existe mesmo
para ocultar uma descida

da carne, no único momento
em que do cosmo é instrumento;

truque do eterno é todo amor:
toca por baixo o fogo alto
que aquece o sonho ao sol se pôr,

porque logo devolve aos dois
o nada de antes e depois.


 

FRUTAL( Arabella Salaverry Pardo )Tradução: Elys Regina Zils

 Nasci nos trópicos

sou frutal sem estações
Me torno verão pela pura vontade dos meus sentidos.
O corpo
se impregna com o cheiro da tangerina.
Pressinto em cada peito
um sabor diferente: o direito é maracujá
e o esquerdo uma leve lembrança de carambola

Nos braços
e principalmente nas axilas
se esconde
um aroma de manga colapsada.
Na curva das nádegas
há um sabor residual de graviola madura.

O mamão se acomoda
na suavidade redonda do ventre.
Pelas minhas coxas sobe apressada
a presença indiscutível do caimito
e remata no ponto exato do meu sexo
onde creio que convergem todos os sabores

Mas é só nos entardeceres no mar
com som de conchas
onde recobro a festa frutal
da minha presença.

02/09/2025

CANÇÃO DE GAROTA AFRICANA ( Arabella Salaverry Pardo )

 Eu tinha uma canção

tinha uma flor esplêndida
eu tinha uma anêmona
que também era flor da paixão

Eu tinha uma flor de suculentas pétalas
tinha uma delicada borboleta
dormindo entre as coxas

Eu tinha uma andorinha
tinha um grilo cantando
uma abelha
tinha uma pombinha
sonhando entre as coxas

Mas um dia
Me acertou um pássaro
de desconsolado voo

A tradição era navalha.
de um turbulento golpe
silenciou meu grilo
a borboleta abortou seu voo
desapareceu a fruta
a canção se inundou em meu sangue

Agora tenho um pouco de nada
morrendo entre minhas coxas
Tradução: Elys Regina Zils


 

MAPA ( Rebeca Bolaños ) tradução: Floriano Martins

 Destilo meus líquidos

quando entras em meu território,
lua seca,
astro humano,
maná.
Me exploras bem dentro
e na terceira hora
acabas em meus lábios.
Teu beijo em minha boca,
tua mão em meu peito,
teu corpo em meu atlas.

ANGÚSTIA ( Rebeca Bolaños ) tradução: Floriano Martins

 Há dias como hoje,

que tenho urgência de sexo
em lençóis limpos.
Me dá vontade
de abrir em duas as portas
e de repente entrar na casa
em que vivem meus desejos
quando sais em turnê
em seus velhos caminhões.
Mas hoje eu ficarei
como em outras vezes,
detrás da porta fechada,
sem poder inundar minha urgência,
fora da festa
e da vida.

TRAVESSEIRO ( Laís Chaffe )

 Em ti repouso o que em mim mais pesa

e segues leve.
 
Como levas?
 
Confio-te sono e ânsias.
Entrego a nuca à tua calma de lavanda.
 
De onde a trazes?
 
Enfronhado em linho, acolhes exaustão,
fantasmas.
Pergunto-me e não respondes:
que queres deles
e dos murmúrios e gemidos
que ouves sem susto?
 
A quem pertence essa saliva?
 
Quem se molda a quem
nos mil silêncios de uma noite?

LIÇÃO ( Geir Campos )

 Sai desse livro, meu filho, e dá um pulo cá fora:

olha esta rua
onde boiada não passa
                            nem passa boi
mas moreninha do cabelo cacheado
passa e passa moreno e passa preta
e passa preto e passa branca e passa branco
numa lição de cores brasileira
humanizando o azul da tarde franca.
Agora vai naquele muro e caligrafa este exercício:

"Abaixo o Homem Sanguessuga do Homem!"

Depois, querendo, volta a ler teu livro.

CENA LEGISLATIVA ( José Paulo Paes )

 Primeiramente, condenou-se a pomba

Por amar uma paz entorpecente
Onde o leão perde a juba e a hiena os dentes.

Depois, condenou-se no cordeiro
A perigosa dúvida que o anima.
O rio dos lobos corre sempre para cima.

Condenou-se a cigarra, finalmente,
Pelo crime de cantar nas horas vagas
Que a faina das formigas não tem paga.

Consolidada a ordem, festejou-se.
E o leão rugindo, a hiena rindo,
Os trabalhos foram dados por bem findos.

VEM DE LONGE ESTE RITMO ( Adalcinda Camarão )

 Ouves aquela música rolando alvoroçada e crespa?

Parece um olho dágua brilhando, tremendo,
escorrendo pelas pedras polidas dos barrancos
Água morena, morna, idílica, marchando pelos caminhos,
molhando os pés dos viajores,
fecundando as terras enxutas,
tateando ao pé dos troncos idosos
pela preguiça das noites mudas que não vivem?
ouves aqueles sons?
Aquelas vozes que vêm sofrendo na meditação dos séculos,
que vêm sonhando no ascetismo do tempo e das horas,
que vêm brincando na corda de luz dos dias?
Ouves aquela música? Tu não te lembras de nada?
Tu não te lembras de mim quando fui ela
e tu foste o entusiasmo creador de quem a escreveu?
Tu não te lembras, depois desse cântico de beduíno,
que fizeram de mim, que me tornei mulher,
que fizeram de ti pra seres o meu destino?

PAISAGEM MARAJOARA (Adalcinda Camarão)

 Da migração úmida e mansa do crepúsculo

ficou um olor de maresia brava,
lambendo o limo lodoso das raízes.
A lua, ciumenta e oca,
encolhida e acuada,
espia desconfiada,
pelas frestas da mata,
a terra grávida de sombras e silêncios
O vento é um passarão agourento
voando por sobre os contornos ondulantes
da grande ilha supersticiosa
de litorais iluminados
pelos olhos da boiúna.

SARAVÁ, POETINHA ( Flora Figueiredo )

 Porque a terra está úmida

Porque o céu está limpo
Porque o óvulo vinga
Porque o fruto é vermelho
Porque o favo respinga
Porque a mata respira
Porque o mar espreguiça
Porque a lua é castiça
Porque o barco navega
Porque o vento não nega
Porque o corpo está ávido
Porque o sonho está crédulo
Porque o beijo está cúpido
Porque o mágico é lúdico.
E olha que hoje nem é sábado…

01/09/2025

DO QUE SE FALA ( Olga Savary )

 Em minha poesia

não é só natureza a natureza.
Ao dizer mar
não é só de mar que estou falando.
Falo do falo; o mais, pretexto
quando é à água que me rendo
no mais alto ponto do orgasmo,
no auge mais auge a que chegar se eu pude
em honra da água — mas água do corpo —
quando é à água a se alude.


 

PELE ( Olga Savary )

 Um favo de mel na boca,

um torrão de sal na anca

roubam para a pele

o calor de animais

simples e vorazes, soltos

como numa catedral,

 

pele de asno,

pele de mel,

pele de água.



 

ODE DA PELE ( Ana Salomé )

 arrepia

só de pensar que respiras


29/08/2025

NÓS VOLÁTEIS ( Lia Vieira )

 Billie Holliday e aquela solidão arretada,

numa noite de sábado.
O feriadão levara as pessoas.
Para disfarçar o tempo, queimou um comercial
e ligou a tevê sem o som.
Para ocupar suas idéias,
um variação de literatura esotérica.
Nesta digressão filosófica, o teto começou a vibrar.
Atentou para o ruído e
percebeu que a libido no apartamento de cima começara.

Estavam literalmente fodendo na sua cabeça.
Aqueles rangidos e gemidos ritmados
lhe despertavam desejos adormecidos até então.
Seu corpo retesou-se e arqueou-se em ondas, enquanto a
dupla alienígena
contemplava a encenação.

Lá fora, a vida fervilhava, e ela
solitariamente pegava uma carona
nesse trem de fantasias.

TESÃO ( Regina Amaral )

 Teu falo é um facho

Fascinante.
Eu me encrespo
Sempre...
Teu facho é um fato
irreversível!

27/08/2025

E AGORA? ( Flora Figueiredo )

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PREFERÍVEL ( J. G. de Araújo Jorge )

 Por que depois

se lastimar?

É preferível amar
e arrepender-se,

que se arrepender
de não amar.

TEU NOME MAIS SECRETO ( Waly Salomão )

 Só eu sei teu nome mais secreto

Só eu penetro em tua noite escura
Cavo e extraio estrelas nuas
De tuas constelações cruas

Abre-te Sésamo! – brado ladrão de Bagdá

Só meu sangue sabe tua seiva e senha
E irriga as margens cegas
De tuas elétricas ribeiras,
Sendas de tuas grutas ignotas

Não sei, não sei mais nada.
Só sei que canto de sede dos teus lábios
Não sei, não sei mais nada.

26/08/2025

NÓS ( Ana Martins Marques )

 E cá

estamos
eu
pronome
tu
pronome
no lugar de
nós

(Ardendo
procuro teu corpo
mas só encontro palavras:
estas)

A INVENÇÃO DE UM MODO ( Adélia Prado )

 Entre paciência e fama quero as duas,

pra envelhecer vergada de motivos.
Imito o andar das velhas de cadeiras duras
e se me surpreendem, explico cheia de verdade:
tô ensaiando. Ninguém acredita
e eu ganho uma hora de juventude.
Quis fazer uma saia longa pra ficar em casa,
a menina disse: ‘Ora, isso é pras mulheres de São Paulo’.
Fico entre montanhas,
entre guarda e vã,
entre branco e branco,
lentes pra proteger de reverberações.
Explicação é para o corpo do morto,
de sua alma eu sei.
Estátua na Igreja e Praça
quero extremada as duas.
Por isso é que eu prevarico e me apanham chorando,
vendo televisão,
ou tirando sorte com quem vou casar.
Porque tudo que invento já foi dito
nos dois livros que eu li:
as escrituras de Deus,
as escrituras de João.
Tudo é Bíblias. Tudo é Grande Sertão.

ENDECHA DAS TRÊS IRMÃS ( Adélia Prado )

 As três irmãs conversavam em binário lentíssimo.

A mais nova disse: tenho um abafamento aqui,
e pôs a mão no peito.
A do meio disse: sei fazer umas rosquinhas.
A mais velha disse: faço quarenta anos, já.
A mais nova tem a moda de ir chorar no quintal.
A do meio está grávida.
A mais cruel se enterneceu por plantas.
Nosso pai morreu, diz a primeira,
nossa mãe morreu, diz a segunda,
somos três órfãs, diz a terceira.
Vou recolher a roupa no quintal, fala a primeira.
Será que chove?, fala a segunda.
Já viram minhas sempre-vivas?, falou a terceira,
a de coração duro, e soluçou.
Quando a chuva caiu ninguém ouviu os três choros
dentro da casa fechada.

SUGESTÃO ( Thiago de Mello )

 Antes que venham ventos e te levem

do peito o amor — este tão belo amor,
que deu grandeza e graça à tua vida —,
faze dele, agora, enquanto é tempo,
uma cidade eterna — e nela habita.

Uma cidade, sim. Edificada
nas nuvens, não — no chão por onde vais,
e alicerçada, fundo, nos teus dias,
de jeito assim que dentro dela caiba
o mundo inteiro: as árvores, as crianças,
o mar e o sol, a noite e os passarinhos,
e sobretudo caibas tu, inteiro:
o que te suja, o que te transfigura,
teus pecados mortais, tuas bravuras,
tudo afinal o que te faz viver
e mais o tudo que, vivendo, fazes.

Ventos do mundo sopram; quando sopram,
ai, vão varrendo, vão, vão carregando
e desfazendo tudo o que de humano
existe erguido e porventura grande,
mas frágil, mas finito como as dores,
porque ainda não ficando — qual bandeira
feita de sangue, sonho, barro e cântico —
no próprio coração da eternidade.
Pois de cântico e barro, sonho e sangue,
faze de teu amor uma cidade,
agora, enquanto é tempo.

Uma cidade
onde possas cantar quando o teu peito
parecer, a ti mesmo, ermo de cânticos;
onde possas brincar sempre que as praças
que percorrias, dono de inocências,
já se mostrarem murchas, de gangorras
recobertas de musgo, ou quando as relvas
da vida, outrora suaves a teus pés,
brandas e verdes já não se vergarem
à brisa das manhãs.

Uma cidade
onde possas achar, rútila e doce,
a aurora que na treva dissipaste;
onde possas andar como uma criança
indiferente a rumos: os caminhos,
gêmeos todos ali, te levarão
a uma aventura só — macia, mansa —
e hás de ser sempre um homem caminhando
ao encontro da amada, a já bem-vinda
mas, porque amada, segue a cada instante
chegando — como noiva para as bodas.

Dono do amor, és servo. Pois é dele
que o teu destino flui, doce de mando:
A menos que este amor, conquanto grande,
seja incompleto. Falte-lhe talvez
um espaço, em teu chão, para cravar
os fundos alicerces da cidade.

Ai de um amor assim, vergado ao vínculo
de tão amargo fado: o de albatroz
nascido para inaugurar caminhos
no campo azul do céu e que, entretanto,
no momento de alçar-se para a viagem,
descobre, com terror, que não tem asas.

Ai de um pássaro assim, tão malfadado
a dissipar no campo exíguo e escuro
onde residem répteis: o que trouxe
no bico e na alma — para dar ao céu.

É tempo. Faze
tua cidade eterna, e nela habita:
antes que venham ventos, e te levem
do peito o amor — este tão belo amor
que dá grandeza e graça à tua vida.