08/10/2025

SABÁ ( Emília Souza ) De "Vem Segura a Minha Mão"; Patuá, 2023

 vem

segura a minha mão
temos um sabá esta noite
mas deixemos em paz
as árvores e florestas
empilhemos sobre as pedras das praças
bem no meio das cidades
corpos de abusadores
ateemos fogo
dancemos em volta da fogueira
brindemos a morte
não há pecado ou feiura em desejá-la
comemorá-la
não há pecado no alívio
que só a morte deles
concede às mulheres
à carne podre que queima
não restará oportunidade
de contaminar a terra
e quando o dia raiar
ao menos algumas de nós
estaremos mais seguras

07/10/2025

MÃE ( Caetano Veloso )

 Palavras, calas, nada fiz

Estou tão infeliz
Falasses, desses, visses não
Imensa solidão
Eu sou um Rei que não tem fim
E brilhas dentro aqui
Guitarras, salas, vento, chão
Que dor no coração
Cidades, mares, povo, Rio
Ninguém me tem amor
Cigarra, camas, colos, ninhos
Um pouco de calor
Eu sou um homem tão sozinho
Mas brilhas no que sou
E o meu caminho e o teu caminho
É um nem vais nem vou
Meninos, ondas, becos, mãe
E só porque não estais
És para mim que nada mais
Na boca das manhãs
Sou triste, quase um bicho triste
E brilhas mesmo assim
Eu canto, grito, corro, rio
e nunca chego a ti

CARPE DIEM ( Walt Whitman )

 Aproveita o dia!

Não deixes que termine sem teres crescido um pouco.

Sem teres sido feliz, sem teres alimentado teus sonhos.

Não te deixes vencer pelo desalento.

Não permitas que alguém te negue o direito de expressar-te, que é quase um dever.

Não abandones tua ânsia de fazer de tua vida algo extraordinário.

Não deixes de crer que as palavras e as poesias, sim, podem mudar o mundo.

Porque passe o que passar, nossa essência continuará intacta.

Somos seres humanos cheios de paixão.

A vida é deserto e oásis.

Ela nos derruba, nos lastima, nos ensina, nos converte em protagonistas de nossa própria história.

Ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua, tu podes trocar uma estrofe.

Não deixes nunca de sonhar, porque só nos sonhos pode ser livre o homem.

Não caias no pior dos erros: o silêncio.

A maioria vive num silêncio espantoso. Não te resignes, nem fujas.

Valorize a beleza das coisas simples, se pode fazer poesia bela, sobre as pequenas coisas.

Não atraiçoes tuas crenças.

Todos necessitamos de aceitação, mas não podemos remar contra nós mesmos.

Isso transforma a vida em um inferno.

Desfruta o pânico que provoca ter a vida toda adiante.

Procures vivê-la intensamente sem mediocridades.

Pensa que em ti está o futuro, e encara a tarefa com orgulho e sem medo.

Aprendes com quem pode ensinar-te as experiências daqueles que nos precederam.

Não permitas que a vida se passe sem teres vivido!

06/10/2025

BEIJO PARTIDO ( Toninho Horta )

 Sabe, eu não faço fé nessa minha loucura

E digo
Eu não gosto de quem me arruína em pedaços
E Deus é quem sabe de ti
E eu não mereço um beijo partido

Hoje não passa de um dia perdido no tempo
E fico longe de tudo que sei
Não se fala mais nisso, eu sei
Eu serei pra você o que não me importa saber

Hoje não passa de um vaso quebrado no peito
E grito
Olha o beijo partido
Onde estará a rainha que a lucidez escondeu? Escondeu

Hoje não passa de um vaso quebrado no peito
E grito
Olha o beijo partido
Onde estará a rainha que a lucidez escondeu? Escondeu

PORQUE ERA ELA, PORQUE ERA EU ( Chico Buarque de Holanda )

 Eu não sabia explicar nós dois

Ela mais eu
Porque eu e ela
Não conhecia poemas
Nem muitas palavras belas
Mas ela foi me levando pela mão
Íamos todos os dois
Assim ao léu
Ríamos, chorávamos sem razão
Hoje lembrando-me dela
Me vendo nos olhos dela
Sei que o que tinha de ser se deu
Porque era ela
Porque era eu

DIFERENTEMENTE ( Caetano Veloso )

 Acho que ouvi numa canção de Madonna

"When you look at me, I don't know who I am"
E desentendi
Pois comigo, é você quem me olhando, detona
A explosão de eu saber
Quem eu sou
Eu nunca imaginei que nesse mundo alguma vez alguém soubesse quem é
Mas se você me vê, seus olhos são mais do que meus
Pois amo
E você ama
Então o indizível se divisa
E a luz de tantos céus inunda a mente
E, no entanto, diferentemente de Osama e Condoleezza, eu não acredito em Deus

05/10/2025

A UMA LAVADEIRA ( Gilka Machado ) Mulher Nua (1922)

 Minha vizinha lavadeira,

mal nasce o sol, põe-se a cantar,
canta a manhã, a tarde inteira,
mais me parece uma rendeira
uivosos sons desfiando no ar.

De suas mãos o alvor é tanto
que, às vezes tenho a convicção
de que, talvez por um encanto
alvo se torne tudo quanto
os dedos seus tocando vão.

Quando ela vai ao coradouro
finas cambraias estender,
olhos azuis, cabelo louro,
tudo em seu corpo canta em coro
pela alegria de viver.

Se a lua sobre os silenciados
campos do luar abre os lençóis,
não mais, então, lhe ouço os trinados,
mas cuido ver, por sobre os prados,
dormir, sonhar a sua voz.

Debalde o espírito perscruta
de onde lhe vem esse poder
de sem possuir força bruta,
assim tornar clara, impoluta
roupa que às mãos lhe venha ter.

Não poderei, por mais que queira,
dado me fosse e dos desvãos
da minha dor tirara inteira
esta alma, ó linda lavadeira,
para o crisol de tuas mãos.

Ao teu labor, que assim perdura,
tenho este anseio singular:
pudesses tu, leda criatura,
lavar minha alma da amargura
e pô-la ao sol para secar.

REFLEXÃO ( Gilka Machado ) Do livro "Sublimação", Typ. Baptista de Souza, 1938.

Há certas almas

como as borboletas,

cuja fragilidade de asas

não resiste ao mais leve contato,

que deixam ficar pedaços

pelos dedos que as tocam.

Em seu vôo de ideal,

deslumbram olhos,

atraem as vistas:

perseguem-nas,

alcançam-nas,

detêm-nas,

mas, quase sempre,

por saciedade

ou piedade,

libertam-nas outra vez.

Elas, porém, não voam como dantes,

ficam vazias de si mesmas,

cheias de desalento...

Almas e borboletas,

não fosse a tentação das cousas rasas;

- o amor de néctar,

- o néctar do amor,

e pairaríamos nos cimos

seduzindo do alto,

admirando de longe!

JUÍZO FINAL ( Gilka Machado )

 Aqui me tens horrivelmente nua,

liberta e levitante,
sem atitudes, sem mentiras, sem disfarces,
ante o infinito da bondade tua.

Perdoa-me Senhor
o sonho de outro mundo
(meu pobre mundo tão efêmero e inferior)
desdenhosa do teu perfeito e eterno!

Perdoa-me  Senhor
por meus excessos
de timidez e de audácia,
de ódio e de paixão,
de acolhimento e de repúdio!

Perdoa-me Senhor
pelos ímpetos que não refreei,
pelas lágrimas que provoquei,
pelas chagas que não curei,
pela fome que não matei,
pelas faltas que condenei,
pelas ideias que transviei.

Perdoa-me Senhor 
por ter amado tanto o amor
com toda a sua falsidade,
com todo o seu infernal encanto
que ainda perdura
nesta saudade!

Perdoa-me Senhor
pelo que sou sem que o tivesse desejado,
pelo que desejei  e não fui nunca,
pelo que já não mais poderei ser!

Perdoa-me Senhor
os pecados conscientes
que te trago de cor!

Perdoa-me Senhor
porque não te perdôo
o não me haveres feito
um ser perfeito,
uma criatura melhor!

INCENSO ( Gilka Machado ) A Olavo Bilac

 Quando dentro de um templo, a corola de prata

do turíbulo oscila e tôdo o ambiente incensa,
fica  pairando no ar, intangível e densa,
uma escada espiral que aos poucos se desata.

Emquanto bamboleia essa escada e suspensa
paira, uma ânsia de céus o meu ser arrebata
e por ela a subir numa fuga insensata,
vai  minha alma ganhando o rumo azul da crença.

O turíbulo é uma ave a esvoaçar, quando em quando...
arde o incenso... um rumor ondula, no ar se espalma...
sinto no meu  asas brancas roçando...

E, sempre que de um templo o largo humbral transponho,
logo o incenso me enleva e transporta minha alma
à presença de Deus na atmosfera do sonho.

IRONIA DO MAR ( Gilka Machado )

 Soam gritos de dor! e o detono de uma onda

sinistramente vai repercutindo pelos
longes do ar. De onde veio a voz o ouvido sonda,
no anseio de atender os aflitos apelos.

E o truculento mar sinistramente estronda,
ruge, regouga, rola, espuma em rodopelos;
talvez porque nesta hora algum tesouro esconda,
cada vez mais feroz se arrepia de zelos.

Para a prêsa reter muralhas de esmeralda
ergue e num riso atroz de satisfeito gôzo
veste-a de rendas mil, de flores a engrinalda.

Move o crânio disforme, as longas cãs balança,
e, alçando a larga mão, num gesto vitorioso, 
mostra cìnicamente um cadáver de criança.

BAÚ DE GUARDADOS ( Gilka Machado )

 Pelos caminhos da vida

fechei os olhos às coisas feias,
porém as belas tranquei-as
no meu baú de guardados.

Por certo ninguém pressente,
vendo sempre vazios meus braços,
o que conduzem meus passos
neste baú de guardados.

E vou resgatando em penas
ai! como venho pagando em choros,
os pequeninos tesouros
do meu baú de guardados!

CHUVA DE CINZAS ( Gilka Machado ) No livro "Velha Poesia", Rio de Janeiro: Editora Baptista de Souza, 1968.

na estática mudez da Terra triste e viúva;
e, da tarde ao cair, sinto, minha alma, agora,
embuça-se na cisma e no torpor se enluva.

Hora crepuscular, hora de névoas, hora
em que de bem ignoto o humano ser enviúva;
e, enquanto em cinza todo o espaço se colora,
o tédio, em nós, é como uma cinérea chuva.

Hora crepuscular - concepção e agonia,
hora em que tudo sente uma incerteza imensa,
sem saber se desponta ou se fenece o dia;

hora em que a alma, a pensar na inconstância da sorte,
fica dentro de nós oscilando, suspensa
entre o ser e o não ser, entre a existência e a morte.

AUSÊNCIA ( Gilka Machado )

 A ausência tua é uma presença estranha,

a ausência tua a solidão me alinda,
o silêncio parece-me que é, ainda,
a tua voz que, em sono, me acompanha.

A ausência tua tona-se tamanha
que  se me faz uma presença infinda,
pois ,  na tristeza que meus nervos ganha
sinto, de instante a instante a tua vinda.

De ti todo meu ser está tão cheio
que me amo, que me afago, que me enleio,
numa indizível ilusão sensória.

E abro à tua saudade braços de ânsia,
desafiando o infinito da distância
com teus beijos mordendo-me a memória.

SYMBOLOS ( Gilka Machado ) in "Estados da Alma: poesias". Revista dos Tribunaes, 1917. (ortografia original)

 Eu e ti, ante a noute e o amplo desdobramento

do mar fero, a estourar de encontro á rocha nua.,
Um symbolo descubro aqui, neste momento;
esta rocha e este mar... a minha vida e a tua...

O mar vem... o mar vae.... nelle ha o gesto violento
de quem maltrata e, após, se arrepende e recúa...
Como eu comprehendo bem da rocha o sentimento!
são bem eguaes, por certo, a minha magua e a sua!

Symbolisa este quadro a nossa própria vida:
tu és esse mar bravio, inconstante e inclemente,
com carinhos de amante e fúrias de demente;

eu sou a dôr parada, a dor empedernida,
eu sou aquella rocha encravada na areia,
alheia ao mar que a punge, ao mar que a afaga alheia.

VOLUPIA ( Gilka Machado ) in "Estados da Alma: poesias". Revista dos Tribunaes, 1917. (ortografia original)

Tenho-te, do meu sangue alongada nos veios;
á tua sensação me alheio a todo o ambiente;
os meus versos estão completamente cheios
do teu veneno forte, invencível e fluente.

Por te trazer em mim, adquiri-os, tomei-os,
o teu modo subtil, o teu gesto indolente.
Por te trazer em mim moldei-me aos teus colleios,
minha intima, nervosa e rubida serpente.

Teu veneno lethal torna-me os olhos baços,
e a alma pura que trago e que te repudia,
inutilmente anceia esquivar-me aos teus laços.

Teu veneno lethal torna-me o corpo langue,
numa circulação longa, lenta, macia,
a subir e a descer, no curso do meu sangue.

VIBRAÇÕES DO SOL ( Gilka Machado )

 Dias em que fremindo os meus nervos estão,

em que estranho meu ser passivo e scismarento;
dias em que meu corpo é uma palpitação
de azas, da natureza ante o deslumbramento!

Num. dia, assim, como este, os meus tédios se vão,
e ao céo de escampo azul e ao Sol, de ardôr violento,
eu só quero sentir a forte vibração
da vida, num prazer ou mesmo num tormento.

Saem dos lábios meus as expressões em trovas;
quero viver, gosar emoções muito novas,
amo quanto me cerca, amo o bem, amo o mal.

E, numa agitação de anceios incontidos,
nestes dias de Sol, os meus cinco sentidos
são aves ensaiando o vôo para o Ideal.

TEDIO ( Gilka Machado ) (A José Oiticica)

 Principia o verão. Toda a matta tresua.

Quedam-se as aves, a água, as frondes. Calmaria...
Não tem raios, parece uma febrenta lua
o Sol. Brumoso véo o infinito ennuvia.

Creio que grande mal na Natureza actua:
um pleno desalento, um sopôr de agonia.
Muda e immovel, assim, tem a Terra, na sua
attitude, a expressão de quem a Morte espia.

Nem risos de prazer nem ais de angustia: nada.
Dia para o sabôr do Tédio, tão somente.
A atmosphera recorda agua morna e estagnada.

A minha alma, vencida, em meio a tantas maguas,
paira na vastidão tristíssima do ambiente,
como uma enorme náo encalhada nas fraguas.

SENSUAL (Gilka Machado )

 Quando, longe de ti, solitária, medito

este, affecto pagão que envergonhada occulto,
vem-me ás narinas, logo, o perfume exquisito
que  o teu corpo desprende e ha no teu próprio vulto.

A febril confissão deste affecto infinito
ha muito que, medrosa, em meus labios sepulto,
pois teu lascivo olhar em mim pregado, fito,
á minha castidade é como que um insulto.

Si acaso te achas longe, a collossal barreira
dos protestos que, outr'ora, eu fizera a mim mesma
de orgulhosa virtude, erige-se altaneira.

Mas, si estás ao meu lado, a barreira desaba,
e sinto da volúpia a ascosa e fria lêsma
minha carne polluir com repugnante baba.