10/10/2025

LOUCA E VADIA ( Vanessa Alves )

 Você nem pensa que eu

Louca e vadia – apesar de tudo –

molhei meu clítoris com a saliva do nosso último beijo?

 

Eu sei.

Saí quase voando da sua casa. Gostaria de ter tido asas. Mas antes te dei um beijo gelado. Você enfiou teus excrementos dentro da minha boca, tão macia e inchada

Incluindo, a eles, os verbos

Assassinos

Ora, pois

"você é um lixo humano"

Por que não fechar com

Chave de merda?

Não é mesmo, querido?

 

Tudo isso

Amargando meu paladar

Em múltiplas náuseas e quedas

Quis acreditar que era "luxo", enquanto corria torta pelas ruas sinuosas do Leblon, como quem tem a garganta presa pelas tuas mãos impiedosas e cruéis e velhas – sem

Poder gritar "socorro"

Ou "adeus"

Ou qualquer palavra que valha a pena

Ou valha a "vida"

 

Mas

 

Você nem pensa que eu –

Louca e vadia – apesar de tudo

 

mesmo assim,

Agora

Ainda toquei uma pra você

E gozei

De ódio.

Por Isabella Ingra

 tudo já te disse

agora um silêncio

tudo já te disse em

gemidos e esturros

agora um silêncio

de quem já disse muito.


Por Isabella Ingra

 quando no sofá

no carro

na entrada do quarto

no aeroporto

no teatro

quando no jardim

nas calçadas em obra

no solavanco do trânsito

no respirar na minha nuca

em cada canto e quando

na cafeteria

na biblioteca

no museu queria ser

as esculturas entrelaçadas em você

congeladas em desejo concreto

quando na escada rolante

quando na distância

no silêncio

em cada canto e quando

quis abrir as pernas pra você.

SELVA ( Daniel Rodas )

 Leões

Dentro do teu

Sexo

 

Panteras

No plexo solar.

UMBIGO ( Daniel Rodas )

 Na pele

Antessala do

Gozo


No poço

Pra baixo do

Fosso

 

Nos lábios

Planícies em

Chamas.

PODOLATRIA ( Daniel Rodas )

 teus pés esticados no sofá

os dedos finos

como raízes antigas

lentamente balançando sobre

o tempo

são eles que me dizem que

a vida

vibra em vermelho carmesim

Célia Moura, in "No Hálito de Afrodite"

 Que a mais bela flor de lótus se desvende

e resplandeça
tal como se desvenda perante tua cegueira
essa bela mulher,
promessa de divindade entre o teu corpo,
livro branco ultrajado entre as mãos
como se nos penhascos entre chorões
lhe colocasses no véu estrelas
assim se tornando farpas
como uma cama vazia.
Tanto mar,
tanto céu, tanto azul
e não poder ser somente liberdade
entre os cabelos!
Que a mais bela flor de lótus se desvende
pois eu nunca soube dela e ela tanto soube de mim,
ó inóspito deserto que parte sou eu de ti?!
Ó poema por completar, dá-me um pedaço do teu odor!
Sou esta cama vazia.
Raios parta o amor que se invoca e jura,
fui instantes!
Que te masturbes eternamente meu amor jurado,
sim, para sempre imaginando fêmeas
com o rosto daquela mulher
a quem colocaste estrelas nos olhos
safiras e esmeraldas caindo do seu véu de núpcias
como se colocasses farpas
em dorso de bestas.
Somos esta cama vazia! 

09/10/2025

by Joyce Mansour (tradução: Eclair Antonio Almeida Filho)

 Venham mulheres de seios febris

Escutar em silêncio o grito da víbora
E sondar comigo o baixo nevoeiro ruivo
Que infla de súbito a voz do amigo
O rio é fresco em torno do corpo dele
Sua camisa flutua branca como o fim de um discurso
No ar substancial avaro de conchas
Inclinem-se moças intempestivas
Abandonem seus pensamentos de chapeuzinho
Suas imbecis molhadelas suas botas rápidas
Um redemoinho se produziu na vegetação
E o homem se afogou no licor

by Joyce Mansour

 Sonho com as tuas mãos silenciosas

Que vogam sobre as ondas
Rugas caprichosas
E que reinam sobre meu corpo sem procurar ser justas
Estremeço e acabo por murchar
Pensando nas lagostas
De antenas ambulantes e ávidas
Que raspam o sémen dos barcos adormecidos
Para estendê-lo tão-logo sobre as cristas do horizonte
As cristas espreguiçando polvilhadas de peixes
Nas quais eu me vou saciando todas as noites
A boca cheia as mãos cobertas
Sonâmbula de mar salgada de lua

by Joyce Mansour ( tradução: Floriano Martins)

 Silenciosamente os navios passam

Pela água lamacenta e rosa do sol
Rosa de sangue de bois dignos
Rosa de sangue de crianças gravemente afogadas
Rosa talvez como teu sangue opaco.
Silenciosamente os barbilhos deslizam
Pela água suave suave de fluir lento
E teu corpo assim é carregado pelo mar ao longe
Quebrado pelos juncos sugado pela lama
Liberto para o esquecimento.

by Joyce Mansour ( tradução: Floriano Martins)

 Na praia prateada dos suspiros intuídos

Perto dos pinheiros crucificados contra um céu ausente,
Te espero.
As pegadas de teus pés se sucedem na areia perfumada
Como eu loucamente perdidas
Lambidas por um mar ansioso.
Na praia nos deixaste ao meio-dia
Dormindo
E esta noite a noite toda nós te esperamos impacientes
Sentindo em nossos corações assombrados por tua presença
Que a praia a partir de agora ficará vazia.

by Joyce Mansour ( tradução: Floriano Martins)

 Tua respiração em minha boca

Tuas mãos secas com suas unhas pontiagudas
Não podem libertar minha garganta carmesim
Carmesim de vergonha de dor de prazer.
Teus lábios roxos sugam meu sangue
E minha carne cerosa sempre te tentará
Porém meus olhos permanecerão fechados.

O SONHO CICIA NOS SEIOS DE MANSOUR (Anna Apolinário)

 Mulher onírica com mãos de esmeralda

Ela sussurra em meus olhos
Com sua língua pontiaguda de sílex
Os cabelos, perfumados por Sekhmet
Esvoaçam vórtices e víboras
Meu sanguíneo amuleto de lápis-lazúli
Corre pelo deserto e grita no abismo
Minha enigmática deusa egípcia
Joyce, com lábios incendiados de jaspe
E o sexo dourado nas mãos do Diabo

Felina, desliza pelos telhados estrelados
Ela paira e gargalha no espelho
Ela conhece a arte do ana-suromai
Ardilosa e lírica, deliciosamente louca
Ela iça as saias para mim
O furor de Eros me devora
A lança de Tânatos me dilacera
Sismograficamente, o gozo
Entre guizos e ganidos, os signos
Sonhando, em convulsão.

ATRAÇÃO (Líria Porto)

são joão tão bonito
naquela bandeira
e eu tão aflita
entrei na fogueira

a vida era boa
tirei tal aproveito
subi no seu colo
deitei no seu leito

queria um beijo
primeiro da fila
dos seus olhos verdes
bebi clorofila

agora meu santo
não sei de mais nada
paixão é veneno
caixão e mortalha


AMOR AO PRIMEIRO ECLIPSE ( Líria Porto)

 entre mim e o sol

parou um ovni

piscou o farol

 

pensei comigo

não tenho íntimos

no paraíso

 

desceu um verde

beijou-me a boca

falou julieta

 

tremi-me inteira

mordi-lhe a orelha

gemi r-o-m-e-u

 

e desvesti-me

ORIGAMI (Valéria Tarelho)

 numa tarde qualquer

o amei

fui o papel espelho

que ele vincou

 

[virou para cá

volveu para lá

usou de mágicos dedos]

 

enquanto fui

só amor para dar

[e medo]

ele apenas brincou

de me dobrar


MITO, LÓGICO (Valéria Tarelho)

 prometeu

céus e mundos

deu-me a lua

sem disfarces

jurou alianças

em anéis de saturno

 

dei-lhe tudo

solo teto

frente fundos

vista paradisíaca

 

um dia foi ali

no rabo de um cometa

buscar outro souvenir

 

fiquei a ver ovnis

DELÍRIO DE REDE ( Sônia Viana )

 na infância escutei

quem cai na rede é peixe

nem todos, pensei

na juventude me embalava na rede

pra fabricar sonhos

cresci fazendo redes de amigos

aprendi fazer network

importante rede pros negócios

os índios só dormem na rede

os nordestinos amam a rede

na sociedade do espetáculo

todos se exibem na rede

as imagens se eternizam na rede cibernética

pra Vinicius o amor é eterno enquanto dura

meu avô tecia rede de pesca

comia camarão cru

FLOR EXTEMPORÂNEA ( Nanda Prietto )

Adolescida em maio,

Eu queria ser rosa,

Uma princesa rosa.

Mas Rimbaud me privou,

Me salvou

De ser uma ninfeta em voo.

  

II

Julho foi morto

Por um agosto

A me seduzir

Com buquês de ipês

Só para curar meu cio

Com os seus cachorros loucos

Que estavam a solta.

  

III

Outubro ainda chove

Os restos de setembro, agosto.

E agora que o espelho me vê

Um pouco Rimbaud,

Um pouco Adélia,

Os ipês de outrora

(amarelos, brancos, roxos),

Ainda há pouco mortos,

Florescem rosa,

Me deixam um pouco

Mais princesa,

Embora ainda muito peçonhenta.


A MÃO ( Wislawa Szymborska )

 Vinte e sete ossos,

trinta e cinco músculos,
cerca de duas mil células nervosas
em cada uma das pontas dos cinco dedos.
É quanto basta
para escrever Mein Kampf
ou A Casinha do Ursinho Puff.


 

08/10/2025

PEDRA DE ANIL ( Emília Souza )

 eu vou levar essa dor pra lavar no rio

vou passar anil e botar pra quarar

vou estender em cima da pedra

vou deixar alvejando

e ir me banhar

POLÍTICA ( Emília Souza )

 a mulher é política

 

ainda que não se filie a nenhum partido

que tenha sido ensinada a se afastar da política

ela apenas o é

 

é político levantar os olhos acima do chão

andar de mamilo duro

sob o fino tecido da liberdade

 

pra além do voto

há política no pulsar da vulva

na cutícula desfeita

na marcha de cara lavada

 

não se engane mulher

 

pra nós

que sangramos

não morrer é um ato político

TODAS AS ÁGUAS ( Emília Souza )

 eu vim da água

e com água fui recebida

oxum banhou meu corpo

em água doce

iemanjá minha face

em água salgada

carrego em mim

a água que anuncia

o gozo

a dor

o nascimento

a água que abre caminhos

extrapola as margens

ignora as barreiras

a água que não pode ser contida

se represada morre

e morta só rebenta o que mata

a água que corre

sob a pele e sobre a pele

vida e febre manifestadas

a água que sacia

inebria

envenena

o desabar dos céus

o choro do firmamento

a água desejada

promessa dada

maldizida

a água límpida de rio sereno

enxurrada barrenta

em dias de tempestade

a água benta

mãe violenta

arrastando raízes

apodrecendo galhos

que outrora nutriu

água leve

vapor de sol

em pedaço de vidro esquecido

fervura de caldeirão

em fogueira santa

água morna

sobre o corpo cansado

lava incendiando o mar

água em gelo

escorrendo em arrepios

ferida purulenta

empapando as gazes

água de nascente

infiltração em casa de encosta

chuva de verão

goteira em morada velha

água pesada esmagando

o peito nas profundezas

eu sou todas as águas

NUDEZ ( Emília Souza )

 sinto falta das nossas conversas

sobre política arte traumas

ainda despidos

 

naquela época

fazíamos bastante isso

ficarmos nus diante do outro