22/11/2025

SÁBIAS DE SAIAS RODADAS ( Maria Rita da Costa Souza )

Na fogueira da inquisição

Não queimaram bruxas

Queimaram mulheres

Em cenas terrivelmente esdrúxulas.

 

Eram sábias de saias rodadas

Que ousaram teimar, questionar, transgredir

Regras impostas, criadas para amedrontar e punir

Pelo tal pecado de Eva

É Verdade! Somos todas EVAS

ERVAS crescendo no jardim

Como plantas daninhas

Quem vai exterminar nosso existir?

 

Amarradas, atadas

Torturadas, em praça pública

Humilhadas, trancafiadas, enforcadas

Assassinadas

Jamais caladas!

 

Ouçam as vozes que ecoam

O paradoxo anormal

Em nome de Deus

Atrocidade brutal.

 

Que o fogo arda em mim

Como a fé no novo

A esperança do porvir.

 

Queime, arda em brasa

Pó e cinza

Não sinta pena de mim

O amanhã é da fênix sagrada

A mulher subjugada

Condenada pelo fato de existir

Não se cala, não dobra

Não se enverga

É a mesma mulher Eva

Do começo e do fim.

METODOLOGIAS DA VIGÍLIA E O SANGUE-FORTE(Zizele Ferreira)

Eu fico como

a ferida aberta,

desdobrando a força dos saberes que nos fundam,

estendendo pulsos e braços,

a pele esticada como um campo de memória,

Olhando as veias, o mapa de resiliência a pulsar,

viva,

aberta,

exposta.

A fonte que burila a sobrevida.

 

Vem, decifra o fado, colete seus dados,

você, que se atreve a se aproximar

daquilo que o arquivo não guarda.

Vá, rasure o silêncio e escreva sobre seus achados,

porque aqui não se enterra o açoite.

“O que elas rimam?

Escrevem sobre o que sentem,

furiosas e sinceras.”

 

Elas não buscam o lírico,

não conhecem os ornamentos,

mas calamidades do sistema-mundo,

ecos de suas vivências em um grito.

 

“O que é poesia para quem vive?

O que é poesia para quem sobrevive?”

Chamam de poesia a batalha da existência em estado de vigília.

Seu sangue é o dado,

o sangue que é o nosso ouro negro,

cada gota, um verso,

cada dor, uma linha,

cada risada, um estalo de libertação.

 

Pesquisadora, atenção,

essa coleta quantiquali:

é um ritual, uma dança com o que dói,

um pulso de outro tempo na pele esticada

Um sangue vermelho pulsando como sua saia evasê, nos joelhos

 

Cada entrevista, uma declaração de guerra taciturna.

Não tem espaço de revolução,

O que nos escreve é a costura da ferida

O que nos funda é a tese que o pulso não cede

E a obra é feita do que a vida exige.

“Elas chamam isso de poesia!”

O verso é o que te salva do aço

O compromisso brutal com o não-silêncio.

REBENTO ( Gilberto Gil )

 Rebento

Subtantivo abstrato
O ato, a criação, o seu momento
Como uma estrela nova e o seu barato
Que só Deus sabe, lá no firmamento
Rebento
Tudo o que nasce é rebento
Tudo que brota, que vinga, que medra
Rebento raro como flor na pedra,
Rebento farto como trigo ao vento
Outras vezes rebento simplesmente
No presente do indicativo
Como a corrente de um cão furioso,
Ou as mãos de um lavrador ativo
Às vezes mesmo perigosamente
Como acidente em forno radioativo
Às vezes, só porque fico nervoso, rebento
Às vezes, somente porque estou vivo!
Rebento, a reação imediata
A cada sensação de abatimento
Rebento, o coração dizendo: Bata!
A cada bofetão do sofrimento
Rebento, esse trovão dentro da mata
E a imensidão do som nesse momento

RELÓGIO (Ana Martins Marques)

 De que nos serviria

um relógio?

se lavamos as roupas brancas:
é dia

as roupas escuras:
é noite

se partes com a faca uma laranja
em duas:
dia

se abres com os dedos um figo
maduro:
noite

se derramamos água:
dia

se entornamos vinho:
noite

quando ouvimos o alarme da torradeira
ou a chaleira como um pequeno animal
que tentasse cantar:
dia

quando abrimos certos livros lentos
e os mantemos acesos
à custa de álcool, cigarros, silêncio:
noite

se adoçamos o chá:
dia

se não o adoçamos:
noite

se varremos a casa ou a enceramos:
dia

se nela passamos panos úmidos:
noite

se temos enxaquecas, eczemas, alergias:
dia

se temos febre, eólicas, inflamações:
noite

aspirinas, raio X, exame de urina:
dia

ataduras, compressas, unguentos:
noite

se esquento em banho-maria o mel que cristalizou
ou uso limões para limpar os vidros:
dia

se depois de comer maçãs
guardo por capricho o papel roxo-escuro:
noite

se bato claras em neve:
dia

se cozinho beterrabas grandes:
noite

se escrevemos a lápis em papel pautado:
dia

se dobramos as folhas ou as amassamos:
noite

(extensões e cimos:
dia

camadas e dobras:
noite)

se esqueces no forno um bolo
amarelo:
dia

se deixas a água fervendo
sozinha:
noite

se pela janela o mar está quieto
lerdo e engordurado
como uma poça de óleo:
dia

se está raivoso
espumando
como um cachorro hidrófobo:
noite

se um pingüim chega a Ipanema
e deitando-se na areia quente sente ferver
seu coração gelado:
dia

se uma baleia encalha na maré baixa
e morre pesada, escura,
como numa ópera, cantando:
noite

se desabotoas lentamente
tua camisa branca:
dia

se nos despimos com ânsia
criando em torno de nós um ardente círculo de panos:
noite

se um besouro verde brilhante bate repetidamente
contra o vidro:
dia

se uma abelha ronda a sala
desorientada pelo sexo:
noite

de que nos serviria
um relógio?

OFÉLIA (Arthur Rimbaud) tradução: Jorge Wanderley.

I.

Na onda calma e negra, entre os astros e os céus,
A branca Ofélia, como um grande lírio, passa;
Flutua lentamente e dorme em longos véus.
- Longe, no bosque, o caçador chamando a caça.

Mais de mil anos faz que a triste Ofélia abraça,
Fantasma branco, o rio negro em que perdura.
Mais de mil anos: toda noite ela repassa
À brisa a romança que em delírio murmura.

Beija-lhe o seio o vento e liberta em corola
Os grandes véus nas águas acalentadoras;
Sobre os seus ombros o salgueiro se desola,
Reclina-se o caniço à fronte sonhadora.

Nenúfares feridos suspiram por perto;
Às vezes ela acorda, em vidoeiro ocioso
Um ninho de onde vem tremor de um vôo incerto.
- De astros dourados desce um canto misterioso.

II.
Morreste sim, menina que um rio carrega,
Ó pálida Ofélia, tão bela como a neve!
- É que algum vento montanhês da Noruega
Contou que a liberdade é rude, mas é leve;

- É que um sopro, liberta a cabeleira presa,
Em teu espírito estranhos sons fez nascer
E em teu coração logo ouviste a Natureza
No queixume da árvore e do anoitecer.

- É que a voz do mar furioso, tumulto impávido,
Rasgou teu seio de menina, humano e doce;
- E em manhã de abril, certo cavalheiro pálido,
Um belo e pobre louco, aos teus pés ajoelhou-se.

E aí o céu, o amor: - que sonho, pobre louca!
Ante ele eras a neve, desmaiando à luz;
Visões estrangulavam-te a fala na boca,
O Infinito aterrava os teus olhos azuis!

III.
- E o Poeta diz que sob os raios das estrelas
Procuras toda noite as flores em delírio
E diz que viu na água, entre véus, a colhê-las
Vogar a branca Ofélia como um grande lírio.

SONETO DE OFÉLIA ( Alphonsus de Guimaraens )

 Lírio do val perdido na corrente,

Sigo formosa e fria entre outros lírios.
Na cabeça, uma c’roa de martírios;
Nos olhos virginais, a paz silente.

As estrelas virão acender círios
No fundo deste leito, suavemente:
E a lua beijar-me-á, calma e dolente,
– A lua que abençoou os meus delírios.
 
Que venha o vago luar que anda nas covas
Atorçalar-me a fronte, onde vagueia
O beijo etéreo e trágico de Hamleto.

Formosa como vou, com flores novas
Beijando a minha cor de lua-cheia,
O Príncipe ter-me-á Eterno Afeto.

21/11/2025

BACO ( Alexandra Vieira de Almeida )

 O vinho tinto da noite sã

atirava seres para a glória do mundo
No erotismo ácido das estrelas
colho o sumo da terra negra

Os cabelos soltos pressagiam um naufrágio
As páginas ainda estão molhadas de sono
É necessário o subterfúgio do prazer
que coloca a dor no seu verdadeiro
lugar mundano

A aventura da escrita
é percorrer as pupilas negras da noite
e acobertar os corpos
no abrasamento das chamas

Baco, diga-me
se nesta noite vaga
vaga a lua em meu peito inerte
se a cor noturna engrandece
os poetas na sua viagem rumo ao mistério.

Por Geruza Zelnys

 das contenções

todo o passado contido na fotografia
toda a história contida no monóculo
toda a felicidade contida na moldura
todo futuro contido na palma da mão

o teu fogo contido na chama da vela
a minha água contida nas bordas da piscina
a música impossível contida no piano
a alma das árvores contida no bonsai
o desejo contido na mensagem cifrada

o corpo contido na abstração do nome
teu nome contido num sussurro solitá-

rio contido na rede azulada da nuvem

chove a conta-gotas
capsulas de lamento:

uma deusa ciborgue sufocada no meu
chacra interior

vê: não é privilégio os versos a prisão
do poema

fiéis à liberdade, só lágrimas revolucionárias
transbordam
Se do meu púbis nascessem asas & outros poemas

COMO? ( Geruza Zelnys )

 como saber se me ama

se não se debruça mais sobre meu corpo cotidiano de palavras

se não me toma pela cintura como fazia nos tempos de guerra

[das nossas guerras

empatadas pela fome que nunca nos deu trégua]

como saber

se não me verga sob o peso de seus inéditos versos seculares

se não introduz sua língua fria e báltica no fogo da minha rima

se não traz suas beldades longilíneas pra pisotearem minha cama

se não derruba o punho fechado sobre minha crença e profissão

se não me queima mais com a chama do seu cigarro infinito

se não visita meu quarto na cidade mexicana onde me guardo

se não beija meus lábios e unhas encarnadas no vermelho

se não escreve meu nome em segredo no silêncio da sua respiração

 

onde você mora

agora que vive em outra vida?

 

onde você mora

assim tão longe de casa?

VII ( Geruza Zelnys )

é no meu corpo

que você hesita

na ponta da língua balança
um gemido
rabiscado ao meio

tínhamos um acordo e quando acordei
você já não estava lá

O TEMPO DO SUSSURO ( Geruza Zelnys )

III

 chovo

com a chuva que já começa a cair

uma cama flutua
e meus olhos dançantes no delírio
do horizonte

pista de gelo quente

miopias e mirações
nossos pés entrelaçados
no estranho caminho
que nem caminhávamos

O TEMPO DO AMOR ( Geruza Zelnys )

I

caranguejo-violinista: teu braço longo apertando meu pescoço

 

por que não enfia mais fundo tua mão na minha vida
e toca essas pedras adormecidas nos bolsos
do meu paletó?

O TEMPO DA VIAGEM ( Geruza Zelnys )

IX. 

é nessa cama. onde? de areia. que te espero. nossa cama. onde

tua viagem
termina. e a minha.
recomeça.

então recomeçamos. do meio.
pra frente:

viagem
todo movimento que sempre e
ainda
é.

SEMANÁRIO OU O TEMPO DA DELÍCIA ( Geruza Zelnys )

 folheio teus cabelos nesta manha de segunda-feira

 

folheio teus cabelos pela manhã
e um sonho colado à corda de sete linhas mais
uma orelha
pendurada na língua a palavra
estremeço

meus olhos abertos no escuro

todas as páginas escritas começam a queimar
pelas beiradas
depois o centro
estremece

a cidade e seus chakras encobertos pela luz

um poema escapa
dos teus pelos
e eu não posso perdê-lo

fodam-se os livros

fodam-se os livros
e todas bibliotecas itinerantes

teu nome é incêndio
e morde

REFUGEE (Giselle Vianna)

 em casa

em teus braços
num maço de rosas
e no espinhaço sideral
sinto em meu encalço
a fragrância acre
de minha carne
de caça

VENEZA ( Giselle Vianna )

 deflora

meu medo
com o sal
dos navegantes
depõe
sobre os canais
abertos
e os varais
atentos
o sol
do instante
deserta
minhas veias
com a deriva
de tuas vias
com tua noite
naturalmente
fria
deflagra em mim
teu ciclo
e despista
o fatalismo
de meu vício tropical