04/02/2026

HABITADO ( Raquel Naveira )

 Tu me habitas

Como uma lâmpada acesa,
Um coração,
Um pássaro
E se ardo
Palpito
E canto
É porque estou em ti
E estás em mim.

Tu me habitas
Como um sopro,
Uma seiva,
Um segredo
E se arfo,
Floresço
E calo
É porque
Estás em mim
E estou em ti.

De tanto amá-lo
Transformo-me em ti
E em mim mesma,
Obedeço
A uma realidade
Que me habita
Rio subterrâneo
Que corre em minhas profundezas.

SOMENTE AMOR ( Valdenides Cabral de Araújo Dias )

 Deixa deitar-me em teu colo

E contar-te a minha saudade
Que voa de lá para cá
Sem rumo certo.
Atingindo cada ponto do meu corpo
Atravessando minha alma
Meus sentidos
Meus sonhos
Vencendo as distâncias
Vivendo em mim.

Deixa contar-te o meu desejo
Desdobrado em quilômetros
De retas e curvas
De subidas e descida
De frias madrugadas
Do desespero de tua sombra
Que se deita comigo na cama
E não me toca
Não me sente
Não me despe
Não me beija
Mas me tem
De corpo
E alma.

FLORAÇÃO ( Valdenides Cabral de Araújo Dias )

 Dentro de mim

Um anjo
Bate as asas
E se vai adentrando
Músculos, nervos,
Ossos, sangue,
Fincando a tal ponto,
Invisível,
Que o quê de mim,
Visível,
É lascivo,
Profano,
Puro gozo.

SEIOS ( Nathália de Sousa )

 Me fazem tanta vergonha

Esses meus seios safados.
Por qualquer rosto bonito
Eles ficam eriçados.
Quando se sentem soltinhos
Livres do meu sutiã,
Começam a ficar pontudos
Mas despertam na manhã.
Nas ruas, um olhar de homem
Olhar safado, guloso,
Deixa meus peitinhos doidos,
Sem sossego, sem repouso.
E na cama, nossa mãe!
Querem mil beijos, lambidas,
Não descasam um instante,
Me matam, feliz da vida.

CHANTILLY E FRAMBOESA ( Nathália de Sousa )

 O sabor do homem

Vai mais com chantilly.
Um pouco de creme no peito,
Outro no umbigo
E uma boa camada bem ali,
Onde as bocas femininas
Adoram festejar.
Já o corpo da mulher
Pede sabor de framboesa,
Calda vermelha escorrendo
Dos seios ao sexo em chamas.
São dois sabores fortes
Que me deixam insana.

PERDÃO ( Nathália de Sousa )

 Peço-te perdão, meu ex-marido,

Pelos adultérios que jamais confessei.
Mas quem resistiria?
O teu primo tinha os olhos verdes
E fazia descer rios de desejo
Que a barragem de minha calcinha
Não conseguia deter.
O oficial do Corpo de Bombeiros
Que me ofereceu uma carona
Do Centro a Copacabana,
Era lindo, lindo, e tinha um fogo
Capaz de incendiar a antiga Roma.
Houve outros deslizes, confesso,
Mas o melhor de todos, deslumbrante,
Foi com um fauno de 15 aninhos.
Divino. Belíssimo. Esbelto infante.

ODOR DE FÊMEA ( Nathália de Sousa )

 O homem pode me prender

Por pouco ou quase nada.
Se ele gosta do cheiro
De minha calcinha usada,
Pronto. Caio de quatro,
Apaixonada.

AURÉLIO ( Nathália de Sousa )

 Meu namorado Aurélio, lindo,

Que mexia muito bem com a língua
E com os meus pequenos lábios,
Dizia que cabaço era um fruto
Da família das bignoniáceas.
E que hímen, sem  nenhuma complacência,
– dizia ele, bem sacana, todo prosa –
Era o cabaço da irmandade religiosa.

AMOR NA TARDE ( Nathália de Sousa )

 Eu sinto uma atração especial,

Vaginal, por homens maduros.
Mais fantasiosos que concretos,
Mais maleáveis do que duros,
Eles me preenchem de palavras doces
Me fazem de menina sobre a cama,
Me querem com fardinha de colégio,
Me cercam de carinho e muitas tramas.
Não têm a pressa dos adolescentes,
Nem a arrogância do adulto macho.
Seus exercícios de língua são caminhos
Onde me perco, me procuro e me acho.

EU GOZO, SIM ( Nathália de Sousa )

 Gozo, sim, e digo sem medo.

Gozo no cinema, no metrô,
Onde eu estiver, aonde for.
Basta pensar no homem amado
Que enfiou em mim no sábado passado.
Gozo no pau, de virar o corpo, a alma
E a xota pelo avesso.
Se sou louca, não me lembro
Ou logo esqueço.
Gozo com os dedos há décadas,
Desde que uma menina
Chamada Nathália
Descobriu os rios de prazer
De sua genitália.

EXPLICAÇÃO ( Nathália de Sousa )

 Não, meu amor, não precisa

Explicar o que já sei.
Todo homem, algum dia,
Escravo, plebeu ou rei,
Não levanta, não esporra,
Não cumpre sua função
De derramar leite, gala,
Na visguenta escuridão
Que a mulher oferece
Depois de beijar, chupar.
Ah, o pior da broxada
É ouvir você explicar.

ÚLTIMO SONETO ( Graça Nascimento )

 Quando voei para longe de nós dois

Pra conjugar um “eu estou” sem “tu estás”
Eu decidi mesmo deixar tudo pra trás
Pois nosso amor com o meu sonho se indispôs

Acreditei que eras tão meu quanto era tua
Em poesia decantei todo teu ser
Vivi os sonhos que nunca sonhei viver
Me enchi de mar, de céu, estrelas e de lua

Mas ao sentir fragilidade no que davas
Quase morri vendo que pouco me amavas
E nos delírios dessa dor chorei por mim

Para curar então meu peito dolorido
Eu disse a ele que havia esquecido
E numa estória de amor escrevi FIM.

A ROLA DO MEU AMADO ( Graça Nascimento )

 Essa rola singular do meu amado

Tão igual e diferente das demais
Entra em mim com a sinfonia de alguns ais
Me mostrando o lado santo do pecado

Quando cresce no crescer da minha entrega
E endurece para entrar no paraíso
Abro as portas sem temor e sem juízo
E ao amor nada mais a vida nega

Sedutora e atrevida me domina
Dominada em meu poder que lhe fascina
Entra e sai até me ver cair vencida

No prazer de entregar e possuir
Num só ato a delicia de existir
Ao senti-la me regando com a vida

ROLANDO EM ROLAS ( Graça Nascimento )

 Cada uma com um quê particular

Todas foram num momento especiais
Nelas li as partituras colossais
De gemidos que espalhei por todo ar

Cada uma conseguiu me deflorar
Pois a todas dei momentos virginais
Umas menos, já outras tiveram mais
Conseguindo o que souberam conquistar

Uma a uma me levaram em viagens
Me mostrando nova cor novas paisagens
E deixando o meu caminho iluminado

Mas preciso confessar em poesia
Se eu pudesse todas elas trocaria
Pela rola singular do meu amado.

FUGA ( Graça Nascimento )

 Refugias em farsa o peito ardente

Te negando o direito à liberdade
O teu ser já conhece o que é verdade
Mas pra sobreviver ainda mente.

Quando fraco tu negas, teu semblante
Fica opaco, arredio, cruel e frio
Nada passa pra mim, ficas vazio
Desconheço o poeta, o sábio errante

Mas a dor de um parto é a mais sublime
É a vida na vida que ela exprime
E antecede a ventura do nascer.

Quando fores rasgado em poesia
No aborto da tua própria cria
Haverás de pensar em renascer.

AURA ( Violeta Formiga )

 Permita

Que meu corpo
Na intimidade essencial
De ser
Receba teu corpo
Fonte sensual de alegria
E prazer.

VIDA CAVA ( Maria Lúcia Dal Farra ) De Livro de Auras, 1994.

 Velho sofá de taquara da casa da Curuzu,

em cujas varas circula antiga emoção!
Lugar de aguardas o obscuro,
de acolhê-lo
nos túneis e nas veias.

Passeia nos seus ocos de bambu
(trafega em mim ainda)
a vida subterrânea,
a da saia de godê —
vincada de afagos do namoro vigiado,
engomada de pudor.

Ah que saudade desse assento
onde conheci
o meu primeiro prazer de baixo!

A MANGA ( Maria Lúcia Dal Farra ) Do Livro de Possuídos.

 Ela está sobre a mesa

nua
e fechada em si
como uma urna.
O elegante perfil convoca outras formas
para torna-la única:
pera, pêssego, abricó – o coração, afinal,
de onde irrigam a candura
e o aceno para afaga-la com duas mãos.

De modo que a boca quase treme
(hesitante entre beijá-la e mordê-la)
quando dela se achega
sem saber se se entrega ao domínio do cheiro
ou à volúpia de lambê-la
mesmo antes de (com unhas)
fender-lhe a pele vermelho-verde.

Ah, sulcar a carne macia com o arado dos dentes
deixando que neles se enrosquem os cabelos
que a fruta
(aflita)
não pode comer diante do torvelhinho dos sentidos
do cataclismo que o desejo enseja
no afã de conhecer-lhe o rosto!

Sôfrego, salivo abocanhando a polpa
(esse manancial de sucos que me lambuza,,
espirra, goteja e baba)
que chupo exaurindo a fonte dos deleites
dessa mulher que
por fim consentiu
(pudica e fogosa)
de a mim se entregar.

CONFISSÕES DE UM RABANETE ( Maria Lúcia Dal Farra ) De Livro de Auras, 1994.

 Embora me vista com a cor dos bispos

e seja crucífero -

nem por isso sou católico.

Mais para Confúcio fui nascido:

cabeça significativa,

longas barbas finas de meditação budista,

logo desmentida

pelo efémero do meu ciclo,

por certo oco que me habita.

Não desmereço (entretanto) a ciência que expando:

essa carência de miolos teu cérebro socorre -

ritmo metabolismos

heterodoxias pratico.

 

Do oriente que em mim trago
(oh inconsciente profundo!)
guardo robusto mandarim
mas (circunciso)
é na tradição judia que me filio.

 

Picante,

fui aperitivo no Antigo Egito
(como ainda sou de grilos)
e assim acalmo os deuses.
Que disso diga Apolo,
o luminoso,

de quem o equilíbrio imito

e a clássica simetria,

muito embora na entranhada terra

Eros

(com sua desmesura)
me tente.

SONETO ENCLAUSURADO ( Maria Lúcia Dal Farra ) De Livro de Auras, 1994.

 Se deu-me Amor a dor e tal sufoco,

do fino cravo a história e a vida breve,
secou a flor e a mim mantém-me em febre
sem fim que me sustenha por suposto.

 

Detém-me o passo, obscurece o rosto
desta que teve (em tempos) olhar leve!
De tudo que irradia a alma despede
pairando na vigília do sol posto.

 

0 que me espreita? Só ranço e desgosto!
Fechada nesta cela que a luz despe,
a voz confusa, o sentimento tonto,

 

fixo a memória que não desvanece,
percorro o dom inebriado e solto
que (mesmo morto) ainda não falece.

MAÇÃ ( Maria Lúcia Dal Farra ) De Livro de Auras, 1994.

 A maçã na mesa: pomo de discórdia.

Abuso da minha inteligência
porque quero conhecê-la com dentes,
escavá-la até a longínqua estrela.
Saliva a saliva
procurar-lhe nomes,

no afunilado umbigo aprofundar a língua.

 

A presença hierática pede respeito
mas profano-a:
tenho de escolher entre ser
boa ou má,

quebrar a dormência — que não
para bela adormecida fui nascida!

 

Ouso, caio,

começo de novo o mundo,

exilo da fruta o sabor do amor celeste —

sou (por fim) mortal.

Já agora quero a brilhante, a vermelha, a do poente,

e nem Ládon (o dragão) ma impede,

neste jardim de Efemérides -

se não é do pomo d'ouro que me socorro!

 

Debaixo da macieira

(ah dourada mediocridade!)

a sombra saboreio da vida ufana.

Não aguardo, com Arthur,

que os cavaleiros me livrem

do jugo estranho, e nem vou

(a pé, com Merlim)

aprender mágica no pomar.

Quero conhecer o mal e suas ramas!

03/02/2026

QUARTO ESCURO ( Farah Hallal ) ( tradução de Floriano Martins )

 A luz cega mais do que a sombra

seu mistério reduz a condição humana.
Não o vemos. Como não vemos o olho lançando seu vazio
porém ele o leva cuidadosamente a seu cansaço
e descerra a cortina para economizar luz
e já confiante no silêncio de sua sombra
como uma imagem carente de seu processo,
como uma amante de seu quarto escuro,
rouba a umidade do barro
abandona-se a um desejo líquido
corre sem dizer a ninguém o que roubou do orvalho.

ENQUANTO O FOGO DESCOBRE COMO CAMINHAR EM TEU DORSO ( Farah Hallal ) (Escrito a quatro mãos com Floriano Martins)

 A noite muda de lugar em tuas mãos.

Por vezes busco teu nome em minha pele.
Teu olhar travesso soletra outros sabores.
Uma quentura de ervas, uma possessão
de mitos nos manjares de tua cozinha.
O fogo se aproxima de meu armazém de pólvora.
Com um latejo veloz e uma respiração
cortada com as facas que guardo debaixo
dessa almofada úmida arqueada na palavra.
Como se o tempo fosse mais do que fumaça,
eu me aproximo da cidade sitiada de tuas coxas.
Muito além de tua lenda, eu te quero, muito além
do destino que os deuses confiam a teus pés.
Eu te quero muito além da notícia do jornal,
da mútua condição de humildes mortais.
Mesmo sem tempo para nos amarmos demasiado,
dúvida e certeza expiram em nosso calendário.
E eu te quero muito além do instante náufrago
onde algum dia vimos rendido nosso desejo.

HENRI MATISSE (Aída Cartagena Portalatín ) tradução de Floriano Martins

 Onde está Henri Matisse? As mãos das cores

nunca mais com novos rostos e linhas
compartilharão minha cela.
Onde? Compondo o enredo,
envolto na cor, onde o anjo desenha.
Sob o corpo do céu
seu rosto de pássaro torrado se contorce.
No sulco que ele arou com as mãos
a glória se incendeia,
sua glória eterna
acostumada a viver idades.
Agora eu o chamo de volta à tarde
em que deixou sem pousada a minha memória.
Eu o chamo com voz de suas verdades,
com uma voz de amante eu o chamo
para o meu jardim de bronzes.
De pé eu vigio a casa de seu nome.
Henri Matisse grande como o oceano,
Onde está carregamento?
Penso como estarão hoje os amigos
apegados a essa duvidosa vontade de lhe obedecer.
Deste a eles a chave? A chave que alcançaste
com teu corpo de fome,
com a vaidade de ser puro,
de lhes dar o teu perfil, expressamente.
Nada me perturba que desencadeies memórias,
que lhes ofereças outra máscara,
que dispares a funda no sino principal.
Onde está tua pele, tua cruz, as feras?
Em Vence, com todas as estações do ano.
Em Vence, com suas mãos que eram alimento renovado.
Em Vence, simplesmente, com sua esposa, seu filho
seu ouro e o atavio de seu nome,
Oh Montanhas de Vence, onde está Henri Matisse?