04/08/2017

DIZERES ÍNTIMOS ( Florbela Espanca )


É tão triste morrer na minha idade!
E vou ver os meus olhos, penitentes
Vestidinhos de roxo, como crentes
Do soturno convento da saudade!

E logo vou olhar (com que ansiedade!)
As minhas mãos esguias, languescentes,
De brancos dedos, uns bebés doentes
Que hão-de morrer em plena mocidade!

E ser-se novo é ter-se o paraíso,
É ter-se a estrada larga, ao sol, florida,
Aonde tudo é luz, graça e riso!

E os meus vinte e três anos. (Sou tão nova!)
Dizem baixinho a rir: "Que linda a vida!"
Responde a minha dor: "Que linda a cova!"

DESDÉM ( Florbela Espanca )


Andas dum lado pro outro
Pela rua passeando;
Finges que não queres ver
Mas sempre me vais olhando.

É um olhar fugidio,
Olhar que dura um instante,
Mas deixa um rasto de estrelas
O doce olhar saltitante.

É esse rasto bendito
Que atraiçoa o teu olhar,
Pois é tão leve e fugaz
Que eu nem o sinto passar!

Quem tem uns olhos assim
E quer fingir o desdém,
Não pode nem um instante
Olhar os olhos d′alguém.

Por isso vai caminhando.
E se queres a muita gente
Demonstrar que me desprezas
Olha os meus olhos de frente!

CREPÚSCULO ( Florbela Espanca )


Teus olhos, borboletas de oiro, ardentes
Batendo as asas leves, irisadas,
Poisam nos meus, suaves e cansadas
Como em dois lírios roxos e dolentes.

E os lírios fecham. Meu Amor, não sentes?
Minha boca tem rosas desmaiadas,
E as minhas pobres mãos são maceradas
Como vagas saudades de doentes.

O Silencio abre as mãos, entorna rosas.
Andam no ar carícias vaporosas
Como pálidas sedas, arrastando.

E a tua boca rubra ao pé da minha
É na suavidade da tardinha
Um coração ardente palpitando.


03/08/2017

PARTO COM OS VENTOS ( Lília Tavares )


O logo é já amanhã.
Não controlo este vazio
de te amar
como quem parte
outra vez com os ventos.
Sedenta estou
da água dos teus lábios
da frescura calmante
das tuas mãos
nestes dias de setembro.
Tão longe estou do teu olhar
daquela noite
em que todas as estrelas,
como pétalas,
se voltaram para nós.
Vazio, vazio, este gesto
de prender entre os meus dedos,
branca e húmida a tua pele.
Desejo o mar.
Que venha cingir as nossas vozes,
meu amor.

02/08/2017

FRUTÍFERA (Conceição Evaristo) in “Poemas da Recordação e Outros Movimentos”.BH: Nandyala, 2008.

– Da solidão do fruto –
De meu corpo ofereço
as minhas frutescências,
casca, polpa, semente.
E vazada de mim mesma
com desmesurada gula
apalpo-me em oferta
a fruta que sou.
Mastigo-me
e encontro o coração
de meu próprio fruto,
caroço aliciado,
a entupir os vazios
de meus entrededos.
– Da partilha do fruto –
De meu corpo ofereço
as minhas frutescências,
e ao leve desejo-roçar
de quem me acolhe,
entrego-me aos suados,
suaves e úmidos gestos
de indistintas mãos e
de indistintos punhos,
pois na maturação da fruta,
em sua casca quase-quase
rompida,
boca proibida não há.

01/08/2017

OLHOS NUNS OLHOS ( Gilka Machado )

De onde vêm,
aonde vão teus olhos,
criança,
tão cansados assim
de caminhar?
Dessa tua existência
nova e mansa
como pode provir
um tal pesar?

A alma de fantasia
não se cansa!
Nunca existiu tristeza
nesse olhar;
é que a minha mortal
desesperança te olha
e nos olhos teus
vai-se espelhar.

Com toda a vista
em tua vista presa,
penso: uma dor
tão dolorosa assim
só há na minha
interna profundeza.

Não me olhes mais,
formoso querubim!
que vejo nos teus olhos
a tristeza
dos meus olhos
olhando pra mim. 
DESPIR-SE (Bruna  Escaleira)
escrever é o ato público
mais íntimo
porque as letras tocam apenas
quando a pele se faz eu lírico
só o poeta nu
escuta as flores

entranhamento
uma pele bem tocada
é superfície de entranhas.
O MAR POR DENTRO (Maria Rezende)
Eu pus as mãos no seu cabelo sem pedir
eu te toquei e só então vi: te invadi.

Todo corpo é uma casa
cada corpo é um frasco onde se lê: frágil
onde se lê: força
onde se lê: entre sem bater.

Há entre nós silêncios confortáveis
e conversas transparentes
palavras feitas de dedo e vapor
palavras que só acordam com o calor.

Moça de duas bocas que sou
eu te devoro
de devolvo
te leio com as mãos
durmo nos teus braços
não te prendo
eu te passo, passarinho
e agradeço pelo ninho de sonho entre meus frutos
pela seta apontada pro presente
pelo afeto direto e sem rodeios
por tudo que a gente não disse.

Você só seria mais bonito, moço
se não existisse.
POEMA SEM TÍTULO (Maria Rezende)
Adoro pau mole.
Assim mesmo.
Não bebo mate
não gosto de água de coco
não ando de bicicleta
não vi  ET
e adoro pau mole.

Adoro pau mole
pelo que ele expõe de vulnerável
e pelo que encerra de possibilidade.

Adoro pau mole
porque tocar um pressupõe a existência
de uma intimidade e uma liberdade
que eu prezo e quero, sempre.

Porque ele é ícone do pós-sexo
(que é intrínseca e automaticamente
– ainda que talvez um pouco antecipadamente)
sempre um pré-sexo também.

Um pau mole é uma promessa de felicidade
sussurrada baixinho ao pé do ouvido.

É dentro dele,
em toda a sua moleza sacudinte de massa de modelar,
que mora o pau duro e firme com que meu homem me come.
PULSO ABERTO (Maria Rezende)
Somos porta de entrada
e de saída
somos deusas e escravas
há mil gerações.

Dentes afiados
no escuro de entre as pernas
veneno na ponta da cauda
bruxas putas loucas santas.

Somos as que sangram sem ferida
donas do prazer
donas da dor
as invisíveis
as perigosas
as pecadoras
as predadoras.

Insaciáveis e geradoras
os corpos secretas casas
somos seres de unhas e tetas
caminhando aos milhares as estradas.

Somos a terra e a semente
carne de aluguel em alma de rainha
as submissas as bacantes
as que procriam e as que não.

Somos as que evitam o desastre
as que inventam a vida
as que adiam o fim
mulher
multidão.

METAMORFOSE EM AGOSTO ( Nuno Júdice )


O verão solta os cabelos como a mulher
que se ergueu do leito e avança para o espelho,
com as mãos da manhã a viajarem pela sua pele. O
que ela vê é o reflexo dos sonhos que as suas
pálpebras fecharam para que o dia se não apoderasse
de imagens que ela própria já esqueceu; e
quando despe a túnica da noite, olha
para os seios como se neles corresse o leite
que alimenta o desejo, e entrelaça nos seus
cumes os gestos trânsfugas do amor.
.
O verão, que subiu às açoteias do litoral
como o grito dos amantes que incendiou
a tarde e atravessou a terra com um calafrio
de nortada, transformou-se no carreiro
de formigas que se perderam da sua cova. Sigo-as
num caos de vagabundagem, como se elas me levassem
ao encontro de uma recordação de madrugadas
de ócio, ouvindo a voz que ficou da insónia
emergir de uma dobra de lençóis, com
as sílabas exaustas de um imenso abraço.
.
E saúdo o verão que as trepadeiras possuíram
nos quintais anónimos de ruínas imprecisas, esse
que fez cair sobre nós o seu relâmpago de seda,
um sumo de palavras húmidas e a última ressonância
de uma sombra de corpos.
A GAROTA DO HÍMEN ½ ROMPIDO (Bruna  Escaleira)
lá vai a garota do hímen meio rompido
abalado, mas resistente
resquício de honra confuso

– você é virgem?
– mais ou menos.
– ?

lá vai ela, vontade errante
metade, rompeu com um
a outra, perdeu com outro
o restinho, foi-se com um terceiro

– quem tirou sua virgindade?
– ninguém.
– então ainda é donzela?
– ?

lá vai a garota, agora sem hímen
foi-se a película, nasceu a pele
de corpos em corpos, conhece seu próprio
amarras alheias já não lhe seguram

– afinal, você perdeu a virgindade?
– não, ganhei a liberdade.
– e foi com quem?
– comigo.

lá vai ela, mundo afora
nem tente acompanhá-la
hímen rompido
integridade intacta.

DO AMOR CONTENTE E MUITO DESCONTENTE – IV ( Hilda Hilst )

Falemos do amor, senhores,
Sem rodeios.
[Assim como quem fala
Dos inúmeros roteiros
De um passeio].
Tens amado? Claro.
Olhos e tato
Ou assim como tu és
Neste momento exato.
Frio, lúcido, compacto
Como me lês
Ou frágil e inexato
Como te vês.
Falemos do amor
Que é o que preocupa
Às gentes.
Anseio, perdição, paixão,
Tormento, tudo isso
Meus senhores
Vem de dentro.
E de dentro vem também
A náusea. E o desalento.
Amas o pássaro? O amor?
O cacto? Ou amas a mulher
De um amigo pacato.
Amas, te sentindo invasor
E sorrindo
Ou te sentindo invadido
E pedindo amor. (Sim?
Então não amas, meu senhor)
Mas falemos do amor
Que é o que preocupa
Às gentes: nasce de dentro
E nasce de repente.
Clamores e cuidados
Memórias e presença
Tudo isso tem raiz, senhor,
Na benquerença.
E é o amor ainda
A chama que consome
O peito dos heróis.
E é o amor, senhores,
Que enriquece, clarifica
E atormenta a vida.
E que se fale do amor
Tão sem rodeios
Assim como quem fala
Dos inúmeros roteiros
De um passeio.

O MUNDO NECESSITA DE POESIA (Gilka Machado)

O mundo necessita de poesia,
cantemos, poetas, para a humanidade;
que nossa voz suba aos arranha-céus,
e desça aos subterrâneos,
acompanhando ricos e pobres
nos atropelos
das carreiras
de ambição
e na luta pelo pão!

Lavemo-nos das máscaras histriônicas,
tenhamos a coragem
de propalar a existência eterna
do sentimento;
ponhamos termo
a esses malabarismos
de palhaços
falsos
da modernidade,
permanecendo diferentes,
diante da multidão
insensibilizada,
enferma.

A humanidade quer rir de tudo,
porém é alvar sua gargalhada;
foge das tristezas,
mas paira ausente
em meio aos prazeres,
desligada em toda parte,
perdida em si mesma.

O homem anda esquecido
do caminho da fé
que a poesia sempre lhe ensinou.
O homem está inquieto
porque lhe falta a posse das distâncias
que só a poesia proporciona.
O homem se sente miserável
porque a poesia já não lhe enche a alma
daquele ouro inesgotável
do sonho.

O mundo necessita de poesia,
(não importem assuadas)
cantemos alto, poetas, cantemos!
Que seja nossa voz
um sino de cristal,
um sino-guia de perdidos rumos,
vibrando do nevoeiro da inconsciência
do momento angustioso!

Nosso destino, poetas, é o destino
das cigarras e dos pássaros:
- cantar diante da vida,
cantar
para animar o labor do Universo,
cantar para acordar
ideias e emoções;
porque no nosso canto
há um trigo louro,
um pão estranho que impulsiona
o braço humano,
e os cérebros orienta,
uma hóstia
em que os espíritos encontram,
na comunhão da beleza,
a sublimação da existência.
O mundo necessita de poesia,
cantemos alto, poetas, cantemos.
Gilka Machado, em "Sublimação", no livro "Poesias Completas". Léo Christiano Editorial; Funarj, 1992.   
 

SONETO ( Chico Buarque de Holanda )


Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono.

Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo.

Por que não me deixaste adormecida
E me indicaste o mar com que navio
E me deixaste só, com que saída.

Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morta de frio.

O MAR NOS TEUS OLHOS (Maria Teresa Horta)


I
É o mar, meu amor,
na febre dos teus olhos

é o manso fascínio
da onda que se inventa

É o mar, meu amor,
mestiço nos teus olhos

é o mirto, o queixume
a mansidão tão lenta.

II
É o mar, meu amor,
o lastro dos sentidos
que afogas nos olhos
sem nunca te afundares

É o mar, meu amor,
que transportas nos olhos
e onde eu nado o tempo
sem nunca me encontrar.