08/08/2017

EU GOSTO DO MEU CORPO (E. E. Cummings)
eu gosto do meu corpo quando está com o seu
corpo. É uma coisa tão nova e viva.
Melhores músculos, nervos mais.
eu gosto do seu corpo e do que ele faz,
eu gosto dos seus comos. de tatear as vértebras
 do seu corpo, a sua treme
-lisa-firmeza e que eu quero
mais e mais e mais
beijar, gosto de beijar isso e aquilo de você,
gosto de, lentamente golpeando o choque
do seu velo elétrico e o-que-quer-que freme
sobre a carne bipartida. E olhos migalhas
de amor grandes e acho que gosto de ver sob mim
você vibrar tão viva e nova assim.
(Tradução de Augusto de Campos)

LATEJA-ME NOS DEDOS(Fátima Guimarães)


Lateja-me nos dedos cada prega do teu corpo
Na pele nua a maciez da tua pele
No corpo inunda-me a quentura da tua seiva
A lua está linda, resplandecente
mas para quê a lua se nos lábios
persiste a ternura de uma gota de orvalho
Deliciada fecho os olhos.
Deixo a minha mão escorregar
pelo teu corpo macio
Adormeço.

VOZES-MULHERES (Conceição Evaristo) in “Poemas da Recordação e Outros Movimentos”.BH:Nandyala,2008.


A voz de minha bisavó
ecoou criança
nos porões do navio.
ecoou lamentos
de uma infância perdida.
A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.
A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.
A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e
fome.
A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
o eco da vida-liberdade.

MEU GLORIOSO PECADO III ( Gilka Machado )


A que buscas em mim,
que vive em meio de nós,
e nos unindo nos separa,
não sei bem aonde vai,
de onde veio,
trago-a no sangue
assim como uma tara.
Dou-te a carne que sou
Mas teu anseio
fora possuí-la –
a espiritual, a rara,
essa que tem o olhar
ao mundo alheio,
essa que tão somente
astros encara.
Por que não sou
como as demais mulheres?
Sinto que, me possuindo,
em mim preferes
aquela que é
o meu íntimo avantesma.
E, o meu amor,
que ciúme dessa estranha,
dessa rival
que os dias
me acompanha,
para ruína gloriosa
de mim mesma!
TUDO (Joaquim Pessoa)
Tudo o que me vem às mãos faz parte de ti,
do teu sabor, do teu perfume, da tua teimosia
tão alta como as catedrais onde o vento vai rezar,
esses lugares edificados para o silêncio e para
mais silêncio ainda. E tudo tu és, e sabes, tudo
corre do teu sangue para o meu sangue, palavra
por palavra, palmo a palmo, gota a gota.
A tua beleza ensinou-me a cantar nestes dias
que já pouco sabem de mim, e de ti, e de ambos,
estes dias em que a tristeza entristece mais
entre os beijos e a boca, com a luz movendo-se
em territórios húmidos de sombra. E porque tudo
o que me dizes é tão extraordinário como os
peixes que sobem os rios e gostam de viver
contra a corrente, eu escrevo-te, eu canto-te,
eu quero-te, eu peço que me dês o que o amor
não pôde ou não quis dar-me antes de ti.






DESEJO (Fátima Guimarães)


Deseja-o
como já não
se lembrava
de o ter
o seu corpo
arde em silêncio
os lábios
latejam
pedindo
as pernas
tremem
o coração bate
descompassado
todo o corpo
num frémito
crescente
Hesita
insegura
Deseja-o
Enlaça-o
num ímpeto
esmaga-lhe
os lábios
húmidos
percorre-lhe
o corpo
tateando
todas as saliências
deita o seu
no dele
não hesita
toma posse
e
em movimentos
estonteantes
ritmados
vibrantes
amam-se
amam-se
sofregamente
como se
não houvesse
amanhã.
 

NO SACIAR DA PELE ( Ana Fonseca )


Mitiguei a minha sede
Em teus lábios
Saciei o corpo
Num abraço de ti
Ofereci-te meu corpo
Em doce embrulho de pele
Desataste o laço
De meus pudores
No aflorar dos lábios
Saboreou-se o néctar
Que nos alimenta
Nos sacia, sustenta
E o corpo ondulante
Em suaves vagas se sustém
Ao encontro do que preenche
Em doce vai e vem
E num gemido o êxtase
Se te me oferece.
Subliminarmente
Em suave folha de papel!

04/08/2017

VERTENTES (António Ramos Rosa)


As palavras esperam o sono 
e a música do sangue sobre as pedras corre 
a primeira treva surge 
o primeiro não a primeira quebra. 
A terra em teus braços é grande 
o teu centro desenvolve-se como um ouvido 
a noite cresce uma estrela vive 
uma respiração na sombra o calor das árvores. 
Há um olhar que entra pelas paredes da terra 
sem lâmpadas cresce esta luz de sombra 
começo a entender o silêncio sem tempo 
a torre extática que se alarga. 
A plenitude animal é o interior de uma boca 
um grande orvalho puro como um olhar. 
Deslizo no teu dorso sou a mão do teu seio 
sou o teu lábio e a coxa da tua coxa 
sou nos teus dedos toda a redondez do meu corpo 
sou a sombra que conhece a luz que a submerge. 
A luz que sobe entre 
as gargantas agrestes 
deste cair na treva 
abre as vertentes onde 
a água cai sem tempo.

DIZERES ÍNTIMOS ( Florbela Espanca )


É tão triste morrer na minha idade!
E vou ver os meus olhos, penitentes
Vestidinhos de roxo, como crentes
Do soturno convento da saudade!

E logo vou olhar (com que ansiedade!)
As minhas mãos esguias, languescentes,
De brancos dedos, uns bebés doentes
Que hão-de morrer em plena mocidade!

E ser-se novo é ter-se o paraíso,
É ter-se a estrada larga, ao sol, florida,
Aonde tudo é luz, graça e riso!

E os meus vinte e três anos. (Sou tão nova!)
Dizem baixinho a rir: "Que linda a vida!"
Responde a minha dor: "Que linda a cova!"

DESDÉM ( Florbela Espanca )


Andas dum lado pro outro
Pela rua passeando;
Finges que não queres ver
Mas sempre me vais olhando.

É um olhar fugidio,
Olhar que dura um instante,
Mas deixa um rasto de estrelas
O doce olhar saltitante.

É esse rasto bendito
Que atraiçoa o teu olhar,
Pois é tão leve e fugaz
Que eu nem o sinto passar!

Quem tem uns olhos assim
E quer fingir o desdém,
Não pode nem um instante
Olhar os olhos d′alguém.

Por isso vai caminhando.
E se queres a muita gente
Demonstrar que me desprezas
Olha os meus olhos de frente!

CREPÚSCULO ( Florbela Espanca )


Teus olhos, borboletas de oiro, ardentes
Batendo as asas leves, irisadas,
Poisam nos meus, suaves e cansadas
Como em dois lírios roxos e dolentes.

E os lírios fecham. Meu Amor, não sentes?
Minha boca tem rosas desmaiadas,
E as minhas pobres mãos são maceradas
Como vagas saudades de doentes.

O Silencio abre as mãos, entorna rosas.
Andam no ar carícias vaporosas
Como pálidas sedas, arrastando.

E a tua boca rubra ao pé da minha
É na suavidade da tardinha
Um coração ardente palpitando.


03/08/2017

PARTO COM OS VENTOS ( Lília Tavares )


O logo é já amanhã.
Não controlo este vazio
de te amar
como quem parte
outra vez com os ventos.
Sedenta estou
da água dos teus lábios
da frescura calmante
das tuas mãos
nestes dias de setembro.
Tão longe estou do teu olhar
daquela noite
em que todas as estrelas,
como pétalas,
se voltaram para nós.
Vazio, vazio, este gesto
de prender entre os meus dedos,
branca e húmida a tua pele.
Desejo o mar.
Que venha cingir as nossas vozes,
meu amor.

02/08/2017

FRUTÍFERA (Conceição Evaristo) in “Poemas da Recordação e Outros Movimentos”.BH: Nandyala, 2008.

– Da solidão do fruto –
De meu corpo ofereço
as minhas frutescências,
casca, polpa, semente.
E vazada de mim mesma
com desmesurada gula
apalpo-me em oferta
a fruta que sou.
Mastigo-me
e encontro o coração
de meu próprio fruto,
caroço aliciado,
a entupir os vazios
de meus entrededos.
– Da partilha do fruto –
De meu corpo ofereço
as minhas frutescências,
e ao leve desejo-roçar
de quem me acolhe,
entrego-me aos suados,
suaves e úmidos gestos
de indistintas mãos e
de indistintos punhos,
pois na maturação da fruta,
em sua casca quase-quase
rompida,
boca proibida não há.

01/08/2017

OLHOS NUNS OLHOS ( Gilka Machado )

De onde vêm,
aonde vão teus olhos,
criança,
tão cansados assim
de caminhar?
Dessa tua existência
nova e mansa
como pode provir
um tal pesar?

A alma de fantasia
não se cansa!
Nunca existiu tristeza
nesse olhar;
é que a minha mortal
desesperança te olha
e nos olhos teus
vai-se espelhar.

Com toda a vista
em tua vista presa,
penso: uma dor
tão dolorosa assim
só há na minha
interna profundeza.

Não me olhes mais,
formoso querubim!
que vejo nos teus olhos
a tristeza
dos meus olhos
olhando pra mim. 
DESPIR-SE (Bruna  Escaleira)
escrever é o ato público
mais íntimo
porque as letras tocam apenas
quando a pele se faz eu lírico
só o poeta nu
escuta as flores

entranhamento
uma pele bem tocada
é superfície de entranhas.
O MAR POR DENTRO (Maria Rezende)
Eu pus as mãos no seu cabelo sem pedir
eu te toquei e só então vi: te invadi.

Todo corpo é uma casa
cada corpo é um frasco onde se lê: frágil
onde se lê: força
onde se lê: entre sem bater.

Há entre nós silêncios confortáveis
e conversas transparentes
palavras feitas de dedo e vapor
palavras que só acordam com o calor.

Moça de duas bocas que sou
eu te devoro
de devolvo
te leio com as mãos
durmo nos teus braços
não te prendo
eu te passo, passarinho
e agradeço pelo ninho de sonho entre meus frutos
pela seta apontada pro presente
pelo afeto direto e sem rodeios
por tudo que a gente não disse.

Você só seria mais bonito, moço
se não existisse.
POEMA SEM TÍTULO (Maria Rezende)
Adoro pau mole.
Assim mesmo.
Não bebo mate
não gosto de água de coco
não ando de bicicleta
não vi  ET
e adoro pau mole.

Adoro pau mole
pelo que ele expõe de vulnerável
e pelo que encerra de possibilidade.

Adoro pau mole
porque tocar um pressupõe a existência
de uma intimidade e uma liberdade
que eu prezo e quero, sempre.

Porque ele é ícone do pós-sexo
(que é intrínseca e automaticamente
– ainda que talvez um pouco antecipadamente)
sempre um pré-sexo também.

Um pau mole é uma promessa de felicidade
sussurrada baixinho ao pé do ouvido.

É dentro dele,
em toda a sua moleza sacudinte de massa de modelar,
que mora o pau duro e firme com que meu homem me come.
PULSO ABERTO (Maria Rezende)
Somos porta de entrada
e de saída
somos deusas e escravas
há mil gerações.

Dentes afiados
no escuro de entre as pernas
veneno na ponta da cauda
bruxas putas loucas santas.

Somos as que sangram sem ferida
donas do prazer
donas da dor
as invisíveis
as perigosas
as pecadoras
as predadoras.

Insaciáveis e geradoras
os corpos secretas casas
somos seres de unhas e tetas
caminhando aos milhares as estradas.

Somos a terra e a semente
carne de aluguel em alma de rainha
as submissas as bacantes
as que procriam e as que não.

Somos as que evitam o desastre
as que inventam a vida
as que adiam o fim
mulher
multidão.

METAMORFOSE EM AGOSTO ( Nuno Júdice )


O verão solta os cabelos como a mulher
que se ergueu do leito e avança para o espelho,
com as mãos da manhã a viajarem pela sua pele. O
que ela vê é o reflexo dos sonhos que as suas
pálpebras fecharam para que o dia se não apoderasse
de imagens que ela própria já esqueceu; e
quando despe a túnica da noite, olha
para os seios como se neles corresse o leite
que alimenta o desejo, e entrelaça nos seus
cumes os gestos trânsfugas do amor.
.
O verão, que subiu às açoteias do litoral
como o grito dos amantes que incendiou
a tarde e atravessou a terra com um calafrio
de nortada, transformou-se no carreiro
de formigas que se perderam da sua cova. Sigo-as
num caos de vagabundagem, como se elas me levassem
ao encontro de uma recordação de madrugadas
de ócio, ouvindo a voz que ficou da insónia
emergir de uma dobra de lençóis, com
as sílabas exaustas de um imenso abraço.
.
E saúdo o verão que as trepadeiras possuíram
nos quintais anónimos de ruínas imprecisas, esse
que fez cair sobre nós o seu relâmpago de seda,
um sumo de palavras húmidas e a última ressonância
de uma sombra de corpos.
A GAROTA DO HÍMEN ½ ROMPIDO (Bruna  Escaleira)
lá vai a garota do hímen meio rompido
abalado, mas resistente
resquício de honra confuso

– você é virgem?
– mais ou menos.
– ?

lá vai ela, vontade errante
metade, rompeu com um
a outra, perdeu com outro
o restinho, foi-se com um terceiro

– quem tirou sua virgindade?
– ninguém.
– então ainda é donzela?
– ?

lá vai a garota, agora sem hímen
foi-se a película, nasceu a pele
de corpos em corpos, conhece seu próprio
amarras alheias já não lhe seguram

– afinal, você perdeu a virgindade?
– não, ganhei a liberdade.
– e foi com quem?
– comigo.

lá vai ela, mundo afora
nem tente acompanhá-la
hímen rompido
integridade intacta.