27/06/2025

INOCÊNCIA ( Cibele Camargo )

 O veredicto ?

Sou essa mulher que no quarto as escuras
deixa provas da mais pura inocência
que ela tanto desejou.
E como sempre acontece, envolveu-me toda a alma
e eu não não renunciei a nada.
Foi este momento que escolhi para roubar-lhe a calma.

AZUL (Cibele Camargo, in "A Vida Além da Sua)

 Mistura-se em mim

sobre todos os tons,
azul com azul.
Acidentalmente e em toda direção,
caminha pleno e compassadamente
para mais completa transformação.

LIMITE ( Edgardo Xavier, in "Corpo de Abrigo" )

 Salga-me a boca

na maresia dos teus lábios
túmidos
e despe-me

O amor não se esgota
na lisura das sedes
e antes permanece vivo
de sangue

Doces são os teus dedos
quando me esventram
na pressa de beber-me

26/06/2025

NÃO QUERO TER VOCÊ ( Rupi Kaur )

não quero ter você
para preencher minhas partes
vazias
quero ser plena sozinha
quero ser tão completa
que poderia iluminar a cidade
e só aí
quero ter você
porque nós dois juntos
botamos fogo em tudo


24/06/2025

GAZELA DO AMOR IMPREVISTO ( Frederico García Lorca )

 Ninguém compreendia o aroma

da escura magnólia do teu ventre.
Ninguém sabia que martirizavas
um colibri de amor entre os teus dentes.
Mil potros persas adormeciam
na praça lunar da tua fronte,
enquanto eu enlaçava quatro noites
a tua cintura, hostil à neve.
Entre gesso e jasmins, o teu olhar
era um pálido ramo de sementes.
Procurarei, para te dar, no meu peito
as letras de marfim que dizem sempre.
Sempre, sempre: jardim desta agonia,
teu corpo fugitivo para sempre,
teu sangue arterial na minha boca,
tua boca já sem luz para esta morte.
traduzido por Eugénio de Andrade


I (Mayra Oyuela )

 Toda nudez é medíocre se se está só,

medíocre a alegria,
insuficiente se não é no corpo amado.
Humilhante é toda paixão
se não há mãos para beijar
nem memórias para roer.
Sofrer por amor é paz,
aturdir-se nas frestas de um amor
como a memória primária,
como a necessidade primária
e afogar-se pela inocuidade de um desejo.
Proeminente é o amor,
camafeu sob a pele que não se deixa ver.
A raiva é a parte mais febril dos amantes,
terrível é o amor, terrível
e cada vez é como se fosse a primeira.
Amar é deixar-se devorar,
é toda ausência de sigilo,
amar não é para amantes,
amar é para astronautas
e para pessoas com os pés na terra
e a cabeça no espaço que as dúvidas ocupam.
Mais uma vez como queda em desgraça,
ardente a pálida luz das palavras que convoco,
o bom senso não há de ser meu melhor aliado,
pronta a tudo o que foi dito
alimento com alfabetos as esperanças
que morrem na minha casa
estou perdida!
Retorno,
o amor foi o maior dos meus vícios.

23/06/2025

TODO O MEU DESEJO ( Rosalía Rodríguez Pombo )

 Um espaço livre. Preencho-o de palavras. Piscadas. Chuva. Filmes.

Metástases: o coração estende-se além das pernas da rua.
Meus passos vão com esta música, versos e tambores.
Ressoam as minhas imagens. O corpo não me pesa. E o ar não me faz falta.

Faço amor com os sonhos. E não os conheço de nada. Travessa, cruzo sem olhar, apita-me um carro e volto à terra. Agarro-me por um momento aqui em baixo: impureza controlada.
Olhadas, fujo delas, pego nelas, me matam, me salvam. Transcendo luzes de néon ruídos matemáticos, chego mais abaixo, toco minhas raízes. Cresci como uma alga clorofílica e mais ninguém estava lá, porventura agora sim? Até às ruínas do fundo do mar ninguém pode chegar, e as borbulhas me coroaram rainha de um paraíso indescritível. É incrível mas aqui não se ouve nada. Dissolvo-me, sou líquido, água pura, e a lua me maneja. Não falo, não minto, não quero.
Ouve-se qualquer coisa ao longe, e quando olho já não o vejo. Uma seta cruza meu oxigénio: Uns olhos que olham sem dizer uma palavra. Acompanham-me, as algas se afastam. Nossos corpos movem-se por um impulso que vem de acima, a maré nos eleva. Não percebemos nada.
Nada. O tempo não passa. Ou sim, aqui em baixo não se ouve nada. Ondas submergem-nos mais abaixo. Dentro do fundo e tocamos a areia branca que ninguém pisou. Virgens explorando, movemo-nos pela inércia dos corpos que sobem e baixam. Acima passam furiosas, mais ondas.
Uma espuma choca contra outra, o golpe empurra o meu corpo meu olhar a uma espiral obscura que me trespassa. Não vejo nada. Agito meus braços para acima, a água está viva, me enlaça, solto as minhas pernas, levanto a minha cabeça, para acima, já vamos, chegamos.

Onde estás? Não te vejo.

Fora, longe de casa. Meu outro corpo perdido no oceano.
Acima, o ar seca a minha pele, pesa-me a saliva ancorada na minha garganta. Necessito água.
Volto, revolvo tudo, procuro-o, não o encontro. Agora estou outra vez aqui, onde te perdi. Ruínas azuis. Mas já não há marcas na água. Nadadora, agora, com meta. Perco a minha coroa, navego, agora, num mar vermelho.

Um ruído aparece, quando olho não ouço nada, e chega outra vez, o mesmo olhar.
Não há corpo, não há saída. Seus olhos, me crucificam numa cruz de borbulhas. E  eu só procurava a minha coroa, meu corpo, e me cravas contra isso, contra todoomeudesejo. Dias, passam tantos dias. Estou prestes a afogar, trouxeste-me à terra. Estou nela? E luto, agora luto contra ela ou contra ti que me cravaste a ela, mas primeiro hei de soltar-me para logo agarrar-te. Enfureço a minha vontade, sangro. Não funciona. Quieta, tranquila, fico paralisada. E dissolvo-me, afundo-me no mais infinito do oceano. Transparente, puro mar. Liberdade. Nado para ti. Não podemos tocar-nos, misturamo-nos, não tens corpo, só duas asas, e a minha alma.
Tradução do castelhano: Alfredo Ferreiro Salgueiro

22/06/2025

ARREITADA DONZELA EM FOFO LEITO (Manuel Maria Barbosa du Bocage)

 Arreitada donzela em fofo leito

Deixando erguer a virginal camisa,

Sobre as roliças coxas se divisa
Entre sombras subtis pachocho estreito.

De louro pêlo um círculo imperfeito
Os papudos beicinhos lhe matiza;
E a branda crica nacarada e lisa,
Em pingos verte alvo licor desfeito.

A voraz porra, as guelras encrespando,
Arruma a focinheira, e entre gemidos
A moça treme, os olhos requebrando.

Como é inda boçal, perder os sentidos;
Porém vai com tal ânsia trabalhando,
Que os homens é que vêm a ser fodidos.

20/06/2025

PROTUBERÂNCIA ( Ana Cristina Cesar) in “Poética“. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

 Este sorriso que muitos chamam de boca

É antes um chafariz, uma coisa louca
Sou amativa antes de tudo
Embora o mundo me condene
Devo falar em nariz(as pontas rimam por dentro)
Se nos determos amanhã
Pelo menos não haverá necessidades frugais nos espreitando
Quem me emprestar seu peito ma madrugada
E me consolar, talvez tal vez me ensine um assobio
Não sei se me querem, escondo-me sem impasses
E repitamos a amadora sou
Armadora decerto atrás das portas
Não abro para ninguém, e se a pena é lépida, nada me detém
É sem dúvida inútil o chuvisco de meus olhos
O círculo se abre em circunferências concêntricas que se
Fecham sobre si mesmas
No ano 2001 terei (2001-1952=) 49 anos e serei uma rainha
Rainha de quem, quê, não importa
E se eu morrer antes disso
Não verei a lua mais de perto
Talvez me irrite pisar no impisável
E a morte deve ser muito mais gostosa
Recheada com marchemélou
Uma lâmpada queimada me contempla
Eu dentro do templo chuto o tempo
Um palavra me delineia
VORAZ
E em breve a sombra se dilui,
Se perde o anjo.

INSCRIÇÃO ESTIVAL( David Mourão Ferreira )

 Ó grande plenitude!


E a tudo
a tudo alheio,
saboreio.

Absorto
sorvo
este cacho de uvas
tão maduras...

Este cacho de curvas que é o teu corpo.

FLORBELA EM CANTO ( Renata Bomfim )

Para a Soror Saudade 

No claustro, o silêncio ensurdece.

Fado? A alma resiste e canta.

Da mouraria chegam ecos de vozes distantes.

Torres de marfim e vitrais formam

paços adornados com lágrimas e cristais,

gotas brilhantes que correm pela face das monjas

e são, caprichosamente, colhidas

pelas mulheres e por homens que versejam em Portugal.

 

Ouço dizer de Princesas ornadas.

De virgens pálidas e febris

refletidas em vitrais espetaculares.

Seus sexos são cobertos por violetas maceradas

que perfumam e inebriam os pensamentos,

desviando os caminhos de quem passa.

 

Seus sonhos sensuais aquecem o frio das celas de ouro.

A simplicidade de seus gestos contrasta com

o tesouro: pérolas e jades que saem de suas bocas

rosadas.

- Oh! Roseirais e lírios que perfumam os campos!

- Oh! Árvores que guardam os ninhos dos rouxinóis,

levem este canto, espalhem este odor e retornem plenos.

Tudo o que vejo é santo, é vivo, causa espanto:

O universo, o caos, a beleza...

- Astros dispersos iluminam verbos e letras e inquietam

amantes que nunca se tocaram, e despertam na

memória
imagens que insistem em ir para além de mim.

 

ADÃO E EVA (José Régio )

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VIVA O AMOR ( Renata Bomfim )

 E em que furor sagrado

Os nossos corpos nus e desejosos
Como serpentes brancas se enroscaram,
Tentando ser um só!
(José Régio)

celebremos o amor!

 

amo-te, sim,

e não é de hoje.

amor insólito,

estrambótico,

enviesado, esse meu.

ele faz com que eu veja coisas

que não existem,

imagine realidades loucas.

amor doente.

(sim, o amor pode ter febres),

amor ardente,

as vezes al dente,

pois, te devoro

até não sobrar haveres.

amor estropiado

pirado, maltratado,

as vezes, o último na lista.

mas, não culpemos o amor

(essa coisa lindinha)
pelos nossos tropeços,
desmedidas, fins e recomeços,
o amor precisa ser poupado
do ódio, das intrigas,
do tédio cotidiano.

 

viva o amor de casca fina,

verde e azedinho como um kiwi.

viva o amor cantado em verso e prosa

que adoça a minha boca

e amarga da garganta aos rins.

viva o amor!

viva, viva,

sempre!


 


 

EUS (Renata Bomfim )

Meus duplos

querem tudo!

O doce e o azedo

o prazer e a dor.
Me querem toda

devorada

reduzida.

Eus de mim que não

se entendem e se deixam possuir.

Camadas de peles nuas

peles por sobre os pêlos

suores e agonias.

Saudades da unidade perdida

Eu, ovo,

Ova

guardada no saco

do escroto,

balizada n'água da bacia,

purificada

dos pecados dos outros! 



O PRAZER DE SALOMÉ ( Renata Bomfim )

 Ao poeta Antônio Miranda

A pureza, que coisa mais obscena!

 

Depois de dançar

Ao som da lira negra,

A réptil inviolada

Fez amor pela primeira vez.

Seu corpo era todo um jardim

Recém- nascido da paleta de Moreau.

Dos seus seios fatais brotavam

Safiras, ágatas, pérolas e rubis.

Salomé trazia no sangue a fúria

De Herodíade,

E a morte nos olhos de prata.

Naquela noite

Feita de angústias estéreis

(e solitárias),

Dois homens perderam

A cabeça.



 

SANHAS DE DEUSAS ( Nazaré Machado )

 Quero ser tua

quando a água da chuva
molhar meu corpo inteiro.
E quero nua e fresca
rescendendo a frutos
amadurecidos
escorrendo gotas de êxtase
primeiro
enxugar-me loucamente
no mormaço do teu corpo
enfebrecido.

SITIADA ( Carmen Borda )

 por milhares de palavras

                   que rondam minha cama

                                      meu quarto

                                               minha casa

me espreitam

                   com milhares de olhos brilhantes

                                               no meio da noite

                   se alinham escrevendo poemas

tentando conquistar-me

 

                   mas sei

                            que me aprisionam

                                      com suaves correntes

                                               impossíveis de romper

e pelas noites

                   acorrentada

                            me arrasto até a janela

e comprovo

                   que desde o infinito

                            também

                                      despencam palavras



 

 

19/06/2025

REENTRÂNCIAS ( Zainne Lima da Silva )

 amar as mãos e os pés do homem negro

saber quantas de suas canelas
fugiram de polícias milícias
quantas vezes seus ombros caíram
em mãos atrás da cabeça
amar suas impressões digitais
debaixo dos calos de trabalho
e música
amar suas cicatrizes
de skate cerol e bala perdida
amar seu sobrenome
sem pai
amar seu corpo estirado no chão
vivo ou morto (sempre morto)
amar seus traumas suas neuroses
amar suas contradições
amar sua ejaculação precoce
sua ejaculação retardada
sua impotência
diante dos absurdos da vida
amar as canções que ele ama
amar os poemas que ele odeia
escrever sobre sua percepção de mundo
respeitar seu silêncio
exercitar sua paciência
despertar sua delicadeza
perceber a minúcia
atrás da couraça protetora
saber arrancá-lo à força de seu pesadelo
pôr-se à beira do precipício
que é amar um homem negro
ser gentil na queda
esquecer a colisão.