05/10/2025

REFLEXÃO ( Gilka Machado ) Do livro "Sublimação", Typ. Baptista de Souza, 1938.

Há certas almas

como as borboletas,

cuja fragilidade de asas

não resiste ao mais leve contato,

que deixam ficar pedaços

pelos dedos que as tocam.

Em seu vôo de ideal,

deslumbram olhos,

atraem as vistas:

perseguem-nas,

alcançam-nas,

detêm-nas,

mas, quase sempre,

por saciedade

ou piedade,

libertam-nas outra vez.

Elas, porém, não voam como dantes,

ficam vazias de si mesmas,

cheias de desalento...

Almas e borboletas,

não fosse a tentação das cousas rasas;

- o amor de néctar,

- o néctar do amor,

e pairaríamos nos cimos

seduzindo do alto,

admirando de longe!

JUÍZO FINAL ( Gilka Machado )

 Aqui me tens horrivelmente nua,

liberta e levitante,
sem atitudes, sem mentiras, sem disfarces,
ante o infinito da bondade tua.

Perdoa-me Senhor
o sonho de outro mundo
(meu pobre mundo tão efêmero e inferior)
desdenhosa do teu perfeito e eterno!

Perdoa-me  Senhor
por meus excessos
de timidez e de audácia,
de ódio e de paixão,
de acolhimento e de repúdio!

Perdoa-me Senhor
pelos ímpetos que não refreei,
pelas lágrimas que provoquei,
pelas chagas que não curei,
pela fome que não matei,
pelas faltas que condenei,
pelas ideias que transviei.

Perdoa-me Senhor 
por ter amado tanto o amor
com toda a sua falsidade,
com todo o seu infernal encanto
que ainda perdura
nesta saudade!

Perdoa-me Senhor
pelo que sou sem que o tivesse desejado,
pelo que desejei  e não fui nunca,
pelo que já não mais poderei ser!

Perdoa-me Senhor
os pecados conscientes
que te trago de cor!

Perdoa-me Senhor
porque não te perdôo
o não me haveres feito
um ser perfeito,
uma criatura melhor!

INCENSO ( Gilka Machado ) A Olavo Bilac

 Quando dentro de um templo, a corola de prata

do turíbulo oscila e tôdo o ambiente incensa,
fica  pairando no ar, intangível e densa,
uma escada espiral que aos poucos se desata.

Emquanto bamboleia essa escada e suspensa
paira, uma ânsia de céus o meu ser arrebata
e por ela a subir numa fuga insensata,
vai  minha alma ganhando o rumo azul da crença.

O turíbulo é uma ave a esvoaçar, quando em quando...
arde o incenso... um rumor ondula, no ar se espalma...
sinto no meu  asas brancas roçando...

E, sempre que de um templo o largo humbral transponho,
logo o incenso me enleva e transporta minha alma
à presença de Deus na atmosfera do sonho.

IRONIA DO MAR ( Gilka Machado )

 Soam gritos de dor! e o detono de uma onda

sinistramente vai repercutindo pelos
longes do ar. De onde veio a voz o ouvido sonda,
no anseio de atender os aflitos apelos.

E o truculento mar sinistramente estronda,
ruge, regouga, rola, espuma em rodopelos;
talvez porque nesta hora algum tesouro esconda,
cada vez mais feroz se arrepia de zelos.

Para a prêsa reter muralhas de esmeralda
ergue e num riso atroz de satisfeito gôzo
veste-a de rendas mil, de flores a engrinalda.

Move o crânio disforme, as longas cãs balança,
e, alçando a larga mão, num gesto vitorioso, 
mostra cìnicamente um cadáver de criança.

BAÚ DE GUARDADOS ( Gilka Machado )

 Pelos caminhos da vida

fechei os olhos às coisas feias,
porém as belas tranquei-as
no meu baú de guardados.

Por certo ninguém pressente,
vendo sempre vazios meus braços,
o que conduzem meus passos
neste baú de guardados.

E vou resgatando em penas
ai! como venho pagando em choros,
os pequeninos tesouros
do meu baú de guardados!

CHUVA DE CINZAS ( Gilka Machado ) No livro "Velha Poesia", Rio de Janeiro: Editora Baptista de Souza, 1968.

na estática mudez da Terra triste e viúva;
e, da tarde ao cair, sinto, minha alma, agora,
embuça-se na cisma e no torpor se enluva.

Hora crepuscular, hora de névoas, hora
em que de bem ignoto o humano ser enviúva;
e, enquanto em cinza todo o espaço se colora,
o tédio, em nós, é como uma cinérea chuva.

Hora crepuscular - concepção e agonia,
hora em que tudo sente uma incerteza imensa,
sem saber se desponta ou se fenece o dia;

hora em que a alma, a pensar na inconstância da sorte,
fica dentro de nós oscilando, suspensa
entre o ser e o não ser, entre a existência e a morte.

AUSÊNCIA ( Gilka Machado )

 A ausência tua é uma presença estranha,

a ausência tua a solidão me alinda,
o silêncio parece-me que é, ainda,
a tua voz que, em sono, me acompanha.

A ausência tua tona-se tamanha
que  se me faz uma presença infinda,
pois ,  na tristeza que meus nervos ganha
sinto, de instante a instante a tua vinda.

De ti todo meu ser está tão cheio
que me amo, que me afago, que me enleio,
numa indizível ilusão sensória.

E abro à tua saudade braços de ânsia,
desafiando o infinito da distância
com teus beijos mordendo-me a memória.

SYMBOLOS ( Gilka Machado ) in "Estados da Alma: poesias". Revista dos Tribunaes, 1917. (ortografia original)

 Eu e ti, ante a noute e o amplo desdobramento

do mar fero, a estourar de encontro á rocha nua.,
Um symbolo descubro aqui, neste momento;
esta rocha e este mar... a minha vida e a tua...

O mar vem... o mar vae.... nelle ha o gesto violento
de quem maltrata e, após, se arrepende e recúa...
Como eu comprehendo bem da rocha o sentimento!
são bem eguaes, por certo, a minha magua e a sua!

Symbolisa este quadro a nossa própria vida:
tu és esse mar bravio, inconstante e inclemente,
com carinhos de amante e fúrias de demente;

eu sou a dôr parada, a dor empedernida,
eu sou aquella rocha encravada na areia,
alheia ao mar que a punge, ao mar que a afaga alheia.

VOLUPIA ( Gilka Machado ) in "Estados da Alma: poesias". Revista dos Tribunaes, 1917. (ortografia original)

Tenho-te, do meu sangue alongada nos veios;
á tua sensação me alheio a todo o ambiente;
os meus versos estão completamente cheios
do teu veneno forte, invencível e fluente.

Por te trazer em mim, adquiri-os, tomei-os,
o teu modo subtil, o teu gesto indolente.
Por te trazer em mim moldei-me aos teus colleios,
minha intima, nervosa e rubida serpente.

Teu veneno lethal torna-me os olhos baços,
e a alma pura que trago e que te repudia,
inutilmente anceia esquivar-me aos teus laços.

Teu veneno lethal torna-me o corpo langue,
numa circulação longa, lenta, macia,
a subir e a descer, no curso do meu sangue.

VIBRAÇÕES DO SOL ( Gilka Machado )

 Dias em que fremindo os meus nervos estão,

em que estranho meu ser passivo e scismarento;
dias em que meu corpo é uma palpitação
de azas, da natureza ante o deslumbramento!

Num. dia, assim, como este, os meus tédios se vão,
e ao céo de escampo azul e ao Sol, de ardôr violento,
eu só quero sentir a forte vibração
da vida, num prazer ou mesmo num tormento.

Saem dos lábios meus as expressões em trovas;
quero viver, gosar emoções muito novas,
amo quanto me cerca, amo o bem, amo o mal.

E, numa agitação de anceios incontidos,
nestes dias de Sol, os meus cinco sentidos
são aves ensaiando o vôo para o Ideal.

TEDIO ( Gilka Machado ) (A José Oiticica)

 Principia o verão. Toda a matta tresua.

Quedam-se as aves, a água, as frondes. Calmaria...
Não tem raios, parece uma febrenta lua
o Sol. Brumoso véo o infinito ennuvia.

Creio que grande mal na Natureza actua:
um pleno desalento, um sopôr de agonia.
Muda e immovel, assim, tem a Terra, na sua
attitude, a expressão de quem a Morte espia.

Nem risos de prazer nem ais de angustia: nada.
Dia para o sabôr do Tédio, tão somente.
A atmosphera recorda agua morna e estagnada.

A minha alma, vencida, em meio a tantas maguas,
paira na vastidão tristíssima do ambiente,
como uma enorme náo encalhada nas fraguas.

SENSUAL (Gilka Machado )

 Quando, longe de ti, solitária, medito

este, affecto pagão que envergonhada occulto,
vem-me ás narinas, logo, o perfume exquisito
que  o teu corpo desprende e ha no teu próprio vulto.

A febril confissão deste affecto infinito
ha muito que, medrosa, em meus labios sepulto,
pois teu lascivo olhar em mim pregado, fito,
á minha castidade é como que um insulto.

Si acaso te achas longe, a collossal barreira
dos protestos que, outr'ora, eu fizera a mim mesma
de orgulhosa virtude, erige-se altaneira.

Mas, si estás ao meu lado, a barreira desaba,
e sinto da volúpia a ascosa e fria lêsma
minha carne polluir com repugnante baba.

BEIJO ( Gilka Machado )

 Beijo, beijo de amor — ave em cuja aza crêspa

o espirito se eleva a paragens ethereas,
ignivoma, nervosa e zumbidora vêspa,
que infiltra nas arterias,
da volúpia o fervente e orgiaco veneno;
som que ao festivo som de um guiso se assemelha,
que, a um só tempo é gemido, é gargalhada e é threno;
semente, que a vermelha
flôr da luxuria vem plantar sobre o maninho
solo da alma; licôr que se contem da bocca
na amphora coralina; espiritual carinho;
bala rubra que espôca
no lábio; arredondada e rútila e sonora
phrase que vem narrar do amor todo o áureo poema,
e que entender só pôde o ente que ama, que adora.
Beijo de amor — suprêma
delicia, original pomo da arvore da alma,
cujo galho, a subir, vae pender sobre a ameia
do lábio, pomo que ora excita e que ora acalma.

Dentro, em nós, mais se ateia,
ao contacto febril do lábio amado e amante,
das ancias a fogueira, e dos beijos o ruido
sêr julgo o crepitar dessa fogueira estuante.
Beijo de amôr — olvido
para os males da ausência; astro canoro e rubro
que no horizonte arcoal do lábio humano aponta;
flôr que adorna do affecto o sumptuoso delubro;
aurifulgente conta
que, ó Alma! vaes enfiar no collar dos prazeres
rumor que, em si, contem scintillas polycores,
sonora confusão das boccas e dos sêres;
mixto de sons e odores,
beijo, beijo de amôr — escandalosa  lôa,
que, na festa pagan do luxuriante gôso,
em louvor á Cupido a humana bocca entôa;
elixir delicioso,
que ao paladar nos traz dia saudade os resabios;
remedio com que, ó Ancia! esse teu mal ensalmas;
beijo, beijo de amôr — matrimônio dos lábios
— concubito das almas.

DENTRO DA NOUTE ( Gilka Machado )A Annibal Cardozo de Castro

 As laranjeiras estão floridas

e, sob o yéo alvo do luar,
de branco assim todas vestidas
parecem virgens a caminho para o altar.

A alma nos fica inteiramente preza
de um mystico languor,
ao perfume que exhalam na deveza
os laranjaes em flor.

Ha um ruido de oração, de longe em longe,
anda o hyssope da Lua aspergindo todo o ar,
e o Vento reza como um velho monge,
para no altar da sombra as arvores casar.

Enquanto a noute fulge toda accesa
para a festa do Amôr,
vão desfolhando as flôres da pureza
os laranjaes em flor...

E, fecundando as viçosas vidas,
as laranjeiras, par a par,
assim se casam nas ermidas,
nas ermidas lyriaes, lactescentes do luar.

Um pollen branco, de etheral leveza,
— porphyrisado amôr,
distribuem por toda a natureza
os laranjaes em flôr.

E, aos laranjaes que andam noivando, vêde:
a alma goza um prazer secreto e salutar,
adormecendo, como numa rêde,
neste perfume que anda a oscillar... a oscillar.

Julgo absorver a essência da Pureza
no vosso meigo odôr,
ó virgens laranjeiras da deveza!
ó laranjaes em flôr!

SANDALO (Gilka Machado) A Antonio Egas Moniz B. de Aragão

 Quente, esdruxulo, activo, emocional, intenso,

o sandalo espirala, o espaço ganha, berra...
e eu, que soffrêga o sôrvo em longos haustos, penso
sêr elle a emanação da volupia da Terra.

Odor que o sangue inflamma e que ujm desejo immenso
de prazeres sensuaes em nossas almas ferra,
quer perfume o brancor de um rendilhado lenço,
quer percorra, a cantar, as brenhas, o êrmo, a serra.

Quando o aspiro a embriaguez em mim se manifesta,
e ebria do amôr transponho a virential floresta,
onde a Luxuria, como uma serpente, assoma...

Ha rumores marciaes, sangrentos, aggressores,
de trompas, de clarins, cornêtas e tambores,
na fórte exhalação deste infernal arôma.

PERFUME ( Gilka Machado) (A Alberto de Oliveira)

 Vaga revelação das sensações secretas,

das mudas sensações dos mudos vegetaes;
arco abstracto que afina as emoções dos poetas
e que ao violino da alma arranca sons iriaes.

O' perfume que a dôr das plantas interpretas
e encerras, muita vez, desesperos mortaes!
busco sempre sentir-te errar, nas noutes quietas,
quando teu floreo corpo em somno immerso jaz.

E's um espiritual desprendimento ao luar,
si á noute sonha a flor do calice no leito,
e és a transpiração da planta á luz solar.

Mas, si acaso te extrahe o homem — sêr destruidor,
perfume! — decomposto, inane, liquifeito,
és a essência, és a vida, és o sangue da flôr.

LUZ ( Gilka Machado )

 Luz — concepção primeira e cósmica da Treva!

por esse teu fulgor lançares, dispenderes.
a belleza da Forma o olhar attrahe e enleva,
gosa a vista os da Côr emotivos prazeres.

Por ti fluctua no ar dos perfumes a leva,
és o verbo de Deus, o poder dos poderes,
o alimento vital que as cousas todas ceva,
o calor que impulsiona a machina dos sêres.

És o semen do Sol, que a Mãe-Terra fecunda,
que na treva germina e varias formas toma,
de cuja producção a humanidade é oriunda.

Possa eu sempre te vêr por tudo distribuída,
luz que és som, luz que és cor, que és sangue, força, arôma,
que és idéa a medrar no cérebro da Vida.

SILENCIO ( Gilka Machado ) (A Antonio Corrêa d’Oliveira) in "Crystaes Partidos: poesias".

Mysteriosa expressão da alma das cousas mudas,
Silencio – pallio immenso aos enigmas aberto,
espelho onde a tristeza universal se estampa.
Silencio – gestação das dôres crueis, agudas,
solenne imperador da Treva e do Deserto,
estagnação dos sons, berço, refugio e campa.

Silencio – tenebroso e insondavel oceano,
tudo quanto nos teus abysmos vive immerso,
tem a secreta voz dos rochedos, das lousas.
És a concentração do sêr pensante, humano,
a vida espiritual e occulta do universo,
a communicação invisivel das cousas.

Um intimo pezar toda tua alma invade,
ó meu velho eremita! ó monge amargurado!
Dentro da cathedral da verde natureza,
ouço-te celebrar a missa da Saudade
e invocar a remota effigie do Passado,
dando-me a communhão sublime da tristeza.

Seja engano, talvez, do meu cerebro enfermo,
mas eu comprehendo os teus sentimentos profundos,
eu te sinto cantar olentes melopéas...
Foste o inicio de tudo e de tudo és o termo.
Silencio – concepção primitiva dos mundos,
cosmopéa etheral de todas as idéas.

Silencio – solidão de symptomas medonhos,
pantano onde do mal desenvolvem-se os vermes,
fonte da inspiração, rio do esquecimento,
lagôa em cujo fundo os sapos dos meus sonhos,
postos alheiamente, inanimes, inermes,
fitam de estranho ideal o fulgor opulento.

Ó Silencio! Ó visão subjectiva da Morte!
- refúgio passional que eu sempre busco e anceio,
gôso de recordar... torturas e confortas,
pois fazes com que ao teu influxo eu me transporte
ao seio da Saudade, a esse funereo seio
- esquife onde revejo as illusões já mortas.

Da scisma na minha alma o triste cunho imprimes,
és o somno, o desmaio, o natural mysterio,
trazes-me a sensação dos gélidos tormentos;
e si nesse teu ventre hão germinado os crimes,
no teu cérebro enorme, universal, ethereo,
têm-se desenvolvido os grandes pensamentos.
In "Crystaes Partidos: poesias". Rio de Janeiro: Revista dos Tribunaes, 1915. (ortografia original)

CANÇÃO V ( Hilda Hilst ) in Poesia: 1959-1979/ São Paulo: Quíron; Brasília: INL, 1980.

Quando Beatriz e Caiana te perguntarem, Dionísio
Se me amas, podes dizer que não
Pouco me importa ser nada à tua volta
Sombra, coisa esgarçada
No entendimento de tua mãe e irmã

A mim me importa, Dionísio
O que dizes deitado, ao meu ouvido
E o que tu dizes nem pode ser cantado
Porque é palavra de luta e despudor
E no meu verso se faria injúria

E no meu quarto se faz verbo de amor

04/10/2025

ODES MAIORES AO PAI - I (Hilda Hilst) in “Exercícios”. São Paulo: Editora Globo, 2001.

Uns ventos te guardaram. Outros guardam-me a mim. E aparentemente separados
Guardamo-nos os dois, enquanto os homens no tempo se devoram.
Será lícito guardarmo-nos assim?
Pai, este é um tempo de espera. Ouço que é preciso esperar
Uns nítidos dragões de primavera, mas à minha porta eles viveram sempre,
Claros gigantes, líquida semente no meu pouco de terra.

Este é um tempo de silêncio. Tocam-te apenas. E no gesto
Te empobrecem de afeto. No gesto te consomem.

Tocaram-te nas tardes, assim como tocaste
Adolescente, a superfície parada de umas águas? Tens ainda nas mãos
A pequena raiz, a fibra delicada que a si se construía em solidão?
Pai, assim somos tocados sempre.
Este é um tempo de cegueira. Os homens não se veem. Sob as vestes
Um suor invisível toma corpo e na morte nosso corpo de medo
É que floresce.

Mortos nos vemos. Mortos amamos. E de olhos fechados
Uns espaços de luz rompem a treva. Meu pai: Este é um tempo de treva.

ODES MAIORES AO PAI - V ( Hilda Hilst ) in “Exercícios”. São Paulo: Editora Globo, 2001.

Sobrevivi à morte sucessiva das coisas do teu quarto.
Vi pela primeira vez a inútil simetria dos tapetes e o azul diluído
Azul-branco das paredes. E uma fissura de um verde anoitecido
Na moldura de prata. E nela o meu retrato adolescente e gasto.
E as gavetas fechadas. Dentro delas aquele todo silencioso e raro
Como um barco de asas. Que fome de tocar-te nos papéis antigos!
Que amor se fez em mim, multiforme e calado!
Que faces infinitas eu amei para guardar teu rosto primitivo!

Desce da noite um torpor singular, água sob o casco de um velho veleiro
Calcinado. Em mim, o grane limbo de lamento, de dor, e o medo de esquecer-te
De soltar estas âncoras e depois florir sem ao menos guardar tua ressonância.
Abraça-me. Um quase nada de luz pousou na tua mesa

E expandiu-se na cor, como um pequeno prisma.

CINCO ELEGIAS - QUARTA (Hilda Hilst) in “Exercícios”. São Paulo: Editora Globo, 2001.

Não te espantes da vontade
Do poeta
Em transmudar-se:
Quero e queria ser boi
Ser flor
Ser paisagem.
Sentir a brisa da tarde
Olhar os céus, ver às tardes
Meus irmãos, bezerros, hastes,
Amar o verde, pascer,
Nascer
Junto à terra
(À noite amar as estrelas)
Ter olhos claros, ausentes,
Sem o saber ser contente
De ser boi, ser flor, paisagem.
Não te espantes. E reserva
Teu sorriso para ops homens
Que a todo custo hão de ser
Oradores, eruditos,
Doutos doutores
Fronte e cerne endurecido.
Quero e queria ser boi
Antes de querer ser flor.
E na planície, no monte,
Movendo com igual compasso
A carcaça e os leves cascos
(Olhando além do horizonte)
Um pensamento eu teria:
Mais vale a mente vazia.

E sendo boi, sou ternura.
Aunque pueda parecer
Que del poeta
Es locura.