10/10/2025

MORDA - ME ( Lírio Valente )

 sem ter vergonha ou medo,

melaço da textura aos dedos,

encosta os lábios, suga-os

𝑚𝑒𝑢 𝑑𝑜𝑐𝑒 𝑣𝑎𝑚𝑝𝑖𝑟𝑜;

víbora-veneno-sangue-vivo.

Revirar dos olhos,

veloz-veloz-veloz;

a batizar meu nome:

P e r e c í v e l.

E, por quê?

Demora sobre a minha vulva; és

Sanguinária selva de lembrança, escorre;

voluptuosa [à]vida;

por guardar últimas e pequenas mortes.

Grita-te raivosa:

Te cavalgo. tento.

Fruta libidinosa.

Úmida-tênue.

Pegue minhas ancas,

Te prometo a vida de um poeta.

Palavras vivas, fonte h-éterea.

Ser poema que escorre a ponta d’língua;

Sós comigo.

Carrega-me da vertigem à fé.

Faz cruz aos braços enrolados aos cabelos;

Reza a prece baixo por meus seios.

Invada-me e te engulo, mulher-areia-movediça.

Sou convulsão do teu lobo-homem.

Urra feito lobo a chamar matilha;

Sou ferida perdida à tua boca;

Vampira.

Canção que cura indefinida;

Trilha à Éter.

Caos e Caligo.

Morda-me. Cíclica.

INTIMIDADE COM AMOR É ORGASMO ( Lírio Valente )

 No teu peito

Os dedos entre meus cabelos

Tua bússola aponta ao meu centro

Nos guia pelos lençóis da pequena morte.

Me escaldei em teu nome

Silibando entre "vem.. vem.."

E você?

Me tateia ao caminho

"Me passeia que eu gosto dessa sorte."

Me prova, me enxerga, me cheira, me morde

Passo à passo, acertado

Acelerado, encaixado

Ao pé do ouvido.

E se deixa em mim,

Abraça todos meus sentidos,

Alívio, sexo, ombro-amigo.

E me vejo ali, bordada em tuas letras

A minha carne é de "aconteça!"

O "eu te amo" em textura umedecida,

Excita, instiga, revitaliza

Volúpia vira ciranda em ternura

E urra enquanto desliza;

Aos montes de vênus à cima!

AFRODISÍACO ( Lírio Valente )

apoia teu corpo em meu ventre;

sorriso colado, teu doce frutado

gemido arfado entre os dentes.

 

olhares trocados, saliva banhada

sem redondilhas, pois, me precipito

barganha de amores não compreendidos.

 

finjo que sei dar nome ao que sinto,

extinto, instinto ou faminto?

 

lembro das águas demoradas,

que formavam castelo onde tu eras rei!

perdido no meu calabouço,

a pulsar em pronto: "coito?"

 

dá-me o estalo delirante,

instante que pré-[acende] o amor.

o ar silente à luz, amando.

voz umedecida aos cânticos frêmitos:
eu quase vivo, eu tremo.

DANÇA COMIGO ( Vanessa Alves )

Dança comigo, me fode bonito e lento

Dança comigo e me traz aquele vinho seco que você comprou correndo no supermercado antes de me espiar pela entrada da fechadura do meu eu

Fode comigo e com o resto de esperança que eu tinha naquele poder erótico de que somos "seres descontínuos procurando continuidade Bataille"

Fode comigo e prometa teus olhos sob meu corpo em estado de quase amor real a vida inteira

Fode comigo bem assim

Me vira

Revira

Sorve meu vocabulário imperfeito, minha ausência, minhas carências, meu ego, minha boceta cor de rosa choque. Come tudo num espiral de desespero terrestre

 

Fricção em slow motion

Pois

Fode comigo mas não esquece que somos iniciantes nessa vida

 

E eu insisto em me enfiar entre as estrelas

Every day for you, baby

Interestelar despenteada: são 28 voltas no sol queimando forte em meu corpo de promessas tortas

 

E depois – desse tanto –

Cumpra o script cinematográfico falido

E

Vá embora

No

Meio da madrugada

 

Como um desconhecido perfeito

FORTÍSSIMO DEMAIS ( Vanessa Alves )

 Quando eu te vi pela primeira vez na câmera do celular

Eu bebi um tanto e fiquei entre meu "deep coração pornográfico e a dúvida"

Posicionei a câmera de ponta cabeça e fiz travelling nas partes da sua cara

Dei zoom onde me dava prazer

Manipulei sua imagem – pra mim – vagarosamente

E

Enquanto uma mão alcançou o espaço sideral com nossos diálogos fortíssimos

A outra molhava a boceta fortíssima

E eu inventava uma canção em inglês, pra parecer chic

E até cantei ela pra você.

E a bateria acabou.

E nunca mais nos falamos.

Acho que foi fortíssimo demais

PETITE MORT ( Vanessa Alves )

 Às três da tarde

Quando uma petite mort me ocorre

La belle de jour

The dream of Picasso

Flores e ménage

Orgasmo e ciúme

 

Existe um vazio absoluto nesse instante

Preenchido de mini diagramas

A serem decifrados

 

Às três da tarde

Acontece uma incisão no córtex pré-frontal da vida

Irreversível

LOUCA E VADIA ( Vanessa Alves )

 Você nem pensa que eu

Louca e vadia – apesar de tudo –

molhei meu clítoris com a saliva do nosso último beijo?

 

Eu sei.

Saí quase voando da sua casa. Gostaria de ter tido asas. Mas antes te dei um beijo gelado. Você enfiou teus excrementos dentro da minha boca, tão macia e inchada

Incluindo, a eles, os verbos

Assassinos

Ora, pois

"você é um lixo humano"

Por que não fechar com

Chave de merda?

Não é mesmo, querido?

 

Tudo isso

Amargando meu paladar

Em múltiplas náuseas e quedas

Quis acreditar que era "luxo", enquanto corria torta pelas ruas sinuosas do Leblon, como quem tem a garganta presa pelas tuas mãos impiedosas e cruéis e velhas – sem

Poder gritar "socorro"

Ou "adeus"

Ou qualquer palavra que valha a pena

Ou valha a "vida"

 

Mas

 

Você nem pensa que eu –

Louca e vadia – apesar de tudo

 

mesmo assim,

Agora

Ainda toquei uma pra você

E gozei

De ódio.

Por Isabella Ingra

 tudo já te disse

agora um silêncio

tudo já te disse em

gemidos e esturros

agora um silêncio

de quem já disse muito.


Por Isabella Ingra

 quando no sofá

no carro

na entrada do quarto

no aeroporto

no teatro

quando no jardim

nas calçadas em obra

no solavanco do trânsito

no respirar na minha nuca

em cada canto e quando

na cafeteria

na biblioteca

no museu queria ser

as esculturas entrelaçadas em você

congeladas em desejo concreto

quando na escada rolante

quando na distância

no silêncio

em cada canto e quando

quis abrir as pernas pra você.

SELVA ( Daniel Rodas )

 Leões

Dentro do teu

Sexo

 

Panteras

No plexo solar.

UMBIGO ( Daniel Rodas )

 Na pele

Antessala do

Gozo


No poço

Pra baixo do

Fosso

 

Nos lábios

Planícies em

Chamas.

PODOLATRIA ( Daniel Rodas )

 teus pés esticados no sofá

os dedos finos

como raízes antigas

lentamente balançando sobre

o tempo

são eles que me dizem que

a vida

vibra em vermelho carmesim

Célia Moura, in "No Hálito de Afrodite"

 Que a mais bela flor de lótus se desvende

e resplandeça
tal como se desvenda perante tua cegueira
essa bela mulher,
promessa de divindade entre o teu corpo,
livro branco ultrajado entre as mãos
como se nos penhascos entre chorões
lhe colocasses no véu estrelas
assim se tornando farpas
como uma cama vazia.
Tanto mar,
tanto céu, tanto azul
e não poder ser somente liberdade
entre os cabelos!
Que a mais bela flor de lótus se desvende
pois eu nunca soube dela e ela tanto soube de mim,
ó inóspito deserto que parte sou eu de ti?!
Ó poema por completar, dá-me um pedaço do teu odor!
Sou esta cama vazia.
Raios parta o amor que se invoca e jura,
fui instantes!
Que te masturbes eternamente meu amor jurado,
sim, para sempre imaginando fêmeas
com o rosto daquela mulher
a quem colocaste estrelas nos olhos
safiras e esmeraldas caindo do seu véu de núpcias
como se colocasses farpas
em dorso de bestas.
Somos esta cama vazia! 

09/10/2025

by Joyce Mansour (tradução: Eclair Antonio Almeida Filho)

 Venham mulheres de seios febris

Escutar em silêncio o grito da víbora
E sondar comigo o baixo nevoeiro ruivo
Que infla de súbito a voz do amigo
O rio é fresco em torno do corpo dele
Sua camisa flutua branca como o fim de um discurso
No ar substancial avaro de conchas
Inclinem-se moças intempestivas
Abandonem seus pensamentos de chapeuzinho
Suas imbecis molhadelas suas botas rápidas
Um redemoinho se produziu na vegetação
E o homem se afogou no licor

by Joyce Mansour

 Sonho com as tuas mãos silenciosas

Que vogam sobre as ondas
Rugas caprichosas
E que reinam sobre meu corpo sem procurar ser justas
Estremeço e acabo por murchar
Pensando nas lagostas
De antenas ambulantes e ávidas
Que raspam o sémen dos barcos adormecidos
Para estendê-lo tão-logo sobre as cristas do horizonte
As cristas espreguiçando polvilhadas de peixes
Nas quais eu me vou saciando todas as noites
A boca cheia as mãos cobertas
Sonâmbula de mar salgada de lua

by Joyce Mansour ( tradução: Floriano Martins)

 Silenciosamente os navios passam

Pela água lamacenta e rosa do sol
Rosa de sangue de bois dignos
Rosa de sangue de crianças gravemente afogadas
Rosa talvez como teu sangue opaco.
Silenciosamente os barbilhos deslizam
Pela água suave suave de fluir lento
E teu corpo assim é carregado pelo mar ao longe
Quebrado pelos juncos sugado pela lama
Liberto para o esquecimento.

by Joyce Mansour ( tradução: Floriano Martins)

 Na praia prateada dos suspiros intuídos

Perto dos pinheiros crucificados contra um céu ausente,
Te espero.
As pegadas de teus pés se sucedem na areia perfumada
Como eu loucamente perdidas
Lambidas por um mar ansioso.
Na praia nos deixaste ao meio-dia
Dormindo
E esta noite a noite toda nós te esperamos impacientes
Sentindo em nossos corações assombrados por tua presença
Que a praia a partir de agora ficará vazia.

by Joyce Mansour ( tradução: Floriano Martins)

 Tua respiração em minha boca

Tuas mãos secas com suas unhas pontiagudas
Não podem libertar minha garganta carmesim
Carmesim de vergonha de dor de prazer.
Teus lábios roxos sugam meu sangue
E minha carne cerosa sempre te tentará
Porém meus olhos permanecerão fechados.

O SONHO CICIA NOS SEIOS DE MANSOUR (Anna Apolinário)

 Mulher onírica com mãos de esmeralda

Ela sussurra em meus olhos
Com sua língua pontiaguda de sílex
Os cabelos, perfumados por Sekhmet
Esvoaçam vórtices e víboras
Meu sanguíneo amuleto de lápis-lazúli
Corre pelo deserto e grita no abismo
Minha enigmática deusa egípcia
Joyce, com lábios incendiados de jaspe
E o sexo dourado nas mãos do Diabo

Felina, desliza pelos telhados estrelados
Ela paira e gargalha no espelho
Ela conhece a arte do ana-suromai
Ardilosa e lírica, deliciosamente louca
Ela iça as saias para mim
O furor de Eros me devora
A lança de Tânatos me dilacera
Sismograficamente, o gozo
Entre guizos e ganidos, os signos
Sonhando, em convulsão.