21/11/2025

SOBRE O DIA EM QUE A LUA EMUDECEU (Jade Luísa )


Esta noite a Lua é prata

E a glória chove, crua.
Enquanto a chuva anula o canto,
emudece o riso,
o riso gigante como o céu.

- o silêncio é infinito, mais infinito que o canto
de quem engole o céu.

Sua palavra é sempre grito
(ora bicho, ora nuvem)
Anoitece, voa o grito: mulher!

Pois ainda bicho ou nuvem ou mãe
Canta e grita, vira prata e azul,
e sangra em letras, ovula em luta.

Mais poeta que felina-anoitecer
Olha, arredia, a presa
o poema,
a noite
prata e fresca.

A noite grita: sou prata e fria!
Mãe, me ensina a virar bicho.
Regurgito as palavras que me engasgam,
mordo os beiços, os seus beiços

- Foi quando me lembrei da primeira vez que vi minha mãe chorar.

QUANDO A MARESIA COCHICHA VELHAS ANGÚSTIAS (Jade Luísa)

 Perdoe o medo do mar, meu bem,

mas grave o vestígio da saudade,
do vinho esquecido no fundo da taça.

Crave os dentes sadios
naquela coragem ínfima que repousa como alga
no âmbar da epiderme,
quando a maré enche e lhe umedece o vazio do esôfago.

O desejo enrosca sua lã em meus nervos
e salpica sobre a pele esporos corpulentos, insaciáveis,
como se proferisse cantigas enrijecidas
de mel e sal nos meus poros.

SOBRE MULHER GIGANTE AO DESCOBRIR AS GUELRAS (Jade Luísa)

 Eu navego mas não como marinheiro


sim como sereia
possuo a força das ondas
me arrebatam as ondas
me carregam as marés e navego
em lonjuras leves de espuma
de crista de onda

Possuo males e enganos
nunca como homens ou náufragos
eles que têm medo – e organizam simpósios
e enciclopédias de medo
metrificam o medo
ceiam brindam gozam
e celebram o medo
em folhetins em manifestos
em congressos do medo

Eu não naufrago – tenho guelras e seios
minha ciência minha arte
meu alimento meu sexo
são ancestrais:
aprendi com a minha mãe
que aprendeu com a mãe dela
que aprendeu com a mãe dela
os segredos da vida e da morte

E como sereia ainda me faço feia
bela apenas pra quem me toca
lhes nego então a dor feia dos olhos
a dor das orelhas
a dor dos dentes
e chupo seus dentes, os faço azul

Pois como boa sereia, azul e feia
ser meio peixe meio guelras
meio mulher mãe irmã
meio morte meio sexo
inteiro seio, inteiro astro,
inteira cais, farol e seio
para todas as que se tocam nas redes
afogadas de cabelos limpos, pretos e limpos
Rede runa redário vivo
Toda vida rebenta [e morre]
no seio das sereias.

CONFESSO DEVANEAR-ME NOS SEUS DENTES ( Jade Luísa )

 Então você olha pras minhas maçãs

e sorri quando percebe que elas ardem
até o pé da orelha,
bem no lugar que você beijou antes de me dizer
mariposas e besouros.
Não sinto dor agora, apenas
quando eu me deitar sob as coxias do inverno.
Elas protegem minhas orelhas da sua saliva
mesmo quando eu não peço, mesmo
quando meu anseio maior é me
embaraçar no vazio entre a sua gengiva e a sua
orelha.

Agora eu falo pelas coxas.
Sigo contando histórias sobre como estou
cega pela luz da sua garganta
surda pelo som do seu tórax
muda pelo eco das suas pupilas
inerte pela lava que escorre das minhas coxas falantes
entoando elegias por detrás do seu pescoço,
como quem enrola a língua ao sussurrar seu nome.
Baixinho, para que só o desejo possa ouvir.

ECO DE LUSCO-FUSCO (Jade Luísa ) in O olho Esquerdo da Lua; Penalux, 2021.

 Escuto a água arranhando o vidro 

suas unhas rascunham calmaria e flores 
esqueço como a água sente a pele 
esqueço como a água rasga a pele 

Os dias arranham o vidro 
esfolam as flores que a água rascunhou 
dissipam a face que a noite tingiu 

o fogo a guerra os mortos, já não os sinto 
eles ainda vivem sob os sulcos do asfalto 
mas eu, tingida de noite, esqueço.

VII ( Jade Luísa ) in O olho Esquerdo da Lua; Penalux, 2021.

 conheço, como ninguém,  

o rascunho do mundo pelos seus pentelhos.

VI (Jade Luísa ) in O olho Esquerdo da Lua; Penalux, 2021.

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V ( Jade Luísa ) in O olho Esquerdo da Lua; Penalux, 2021.

Enquanto te chupo me vêm instantes do que seria o morrer. 
(Hilda Hilst)

 um par de dedos explora a buceta 

viela-vereda-ruína 

e sai vermelho  
como se acabasse de colher amoras do pé. 

VIGÉSIMA QUARTA ( Clara Baccarin )

 na terceira vez que te vi

não entendi

o que eu estava fazendo ali

fiquei sem intenção

pousando o peso

dos meus ombros

nas suas mãos

na sexta vez que te vi

eu quis fugir

quis abrir a porta

para você sair

não queria que você

chegasse muito perto

e deixasse o peso da sua perna

encontrando encaixe

no arco do meu quadril

na décima oitava vez que te vi

me abri

para os seus oceanos

extravasarem

em minha carne

sedenta

absorvi a voracidade

da sua vontade

antiga

na vigésima quarta vez que te vi

rompi os mundos e

entendi

Por Tjiske Jansen ( tradução: Maria Leonor Raven-Gomes )

 Para os anos dele

Sei qual é cor em que prefere calçar-se.
Sei qual é a cor em que prefere vestir-se.

Porém, caminhar não é o mesmo que dormir
e usar não é o mesmo que acordar.

Portanto perguntei-lhe: qual é a tua cor preferida para dormir,
qual é a tua cor preferida para acordar?

A cor dos teus olhos, respondeu-me. A cor da tua pele.
Não fui à procura. Não necessito de andar à procura para saber que

não existe nenhuma loja que venda edredões nessas cores.
Não há outra solução a não ser dormir

com ele para sempre.

20/11/2025

RISCOS ( Ester Naomi Perquin )

 O nosso quarto habitual. As paredes erguem-se tal qual

como combinado. A janela desdobra-se, completa

com os cortinados fechados. Poderia ser ao princípio da noite ou
ao fim do dia. Penumbra inalterável.

algumas chalaças sobre a luz do dia que menos e menos suporta.
O odor a madeira e a tangerinas muito maduras.

Olha, ali surgem os armários, a cama de casal delineia-se
com os seus lençóis e os cobertores,

a colcha com a mancha exactamente no mesmo sítio. Lá
em baixo recompomos as nossas caras, sentamo-nos à mesa

e a vista enche as ombreiras: quintas, três árvores a abanar.
Sabemos de antemão o que iremos agora comer:

a entrada, que é sempre um desapontamento, o bife e a tarte de maçã.
Estamos mais velhos, entretanto podemos pagar

uma coisa melhor. Aqui chove a maior parte do ano.
O perigo maior envolve-nos com

o mesmo lugar, o mesmo quarto. Arriscamo-nos a ter hábitos,
amamo-nos. Repetimo-nos.

                    tradução: Maria Leonor Raven-Gomes

COM UNHAS E DENTES ( Luis Filipe Parrado )

 Estar vivo

é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.
Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca,
de tão doce,
não o esqueces.

SÍSIFO ( Miguel Torga )

 Recomeça…

Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.
Miguel Torga [1977], Diário: Vols. XIII a XVI. Lisboa: D. Quixote, [s.d.], p. 20

QUALQUER DIA ( Ivan Lins / Vitor Martins )

 Nessa calma sertaneja

De quem sabe o que fareja
Eu te encontro qualquer dia
Eu te encontro qualquer dia

Já conheço os teus rastros
Já comi no teu prato
Já bebi tua cerveja
Eu conheço o teu cheiro
Eu te encontro qualquer dia
Ah! Eu te encontro qualquer dia

Logo quem me julga morto
Me esquecendo a qualquer custo
Vai morrer de medo e susto
Quando abrir a porta

JOANA DOS BARCOS ( BEIRA-MAR ) ( Ivan Lins / Vitor Martins)

 Joana sonhou

Com os homens do mar a seus pés
Joana casou
Com as noites, manhãs e marés
Joana nasceu
Crescida nas rodas do cais
Tocada por velas e véus
Guardada e velada demais
Mas Joana não quer
Nos sonhos Joana é mulher
Se vendo nos barcos
Nos braços dos homens do mar
Todas as manhãs
Os homens por vício ou fé
Passavam e tiravam o chapéu
Pra Santa caída do céu
Mas Joana não quer
Por dentro Joana é mulher
Se vendo nos barcos
Nos braços dos homens do mar

Por Danielle Tosta

 A memória das minhas ancestrais

faz minhas raízes balançarem

na cadência do navio negreiro, sinto o enjoo

que nelas embrulharam o estômago

mas desde lá, Iemanjá preparava o caminho

 

Quando eu andar, que a fluidez

da água que um dia afogou-acolheu os meus

me direcione para ocupar espaços

que antes os que se acham donos de tudo

ousaram um dia me destituir

 

Que na engenharia que tudo constrói

eu deságue a oferta dos meus sacrifícios

como forma de inspirar, iluminar como farol

que conduz a embarcação, para que não se perca

na enxurrada do medo de naufragar

 

E se um dia a água que me conduz faltar,

que meu pranto regue o chão

e que d’Ele brote a força

para as que virão depois de nós.

RIO CRESCENTE ( Danielle Tosta )

 Fio que pulsa e cresce,

Vigor de uma vida inteira,

Com a força que só a calma empresta.

Assim, nasce o rio e corre ligeiro

Para a frente, sem jamais voltar.

​Carrega em suas águas a lição

Que das margens pôde aprender,

E ensina, na contínua vazão,

Que não se toca a água que se foi

Nem duas vezes o mesmo fluir

Que busca a imensidão do mar.

MANSIDÃO ( Danielle Tosta )

 Caminho manso

Como caçador que

Não se apressa,

Com a paciência da terra

Que esconde e germina

A pequena semente da mostarda:

Sabendo, no silêncio do chão,

A grandeza do que há de brotar.

PALAVRAS ( Alice Vieira )

 Sempre amei por palavras muito mais

do que devia

são um perigo
as palavras

quando as soltamos já não há
regresso possível
ninguém pode não dizer o que já disse
apenas esquecer e o esquecimento acredita
é a mais lenta das feridas mortais
espalha-se insidiosamente pelo nosso corpo
e vai cortando a pele como se um barco
nos atravessasse de madrugada

e de repente acordamos um dia
desprevenidos e completamente
indefesos

um perigo
as palavras

mesmo agora
aparentemente tão tranquilas
neste claro momento em que as deixo em desalinho
sacudindo o pó dos velhos dias
sobre a cama em que te espero
Alice Vieira in "O Que Dói às Aves", Caminho, 2009

Por Alice Vieira

 Às vezes uma palavra bastava

Para que eu soubesse que virias sempre
ao meu encontro

Mas depois chegaram imprevistas tempestades
Que desenharam estranhas perdições
No mapa dos teus dedos

E as palavras que ninguém quis
Silenciaram a festa do meu corpo

E cobriram o teu daquele silêncio imóvel
Dos lençóis que se estendem sobre as casas
Abandonadas no fim do verão
(Alice Vieira, in O Que Dói as Aves)

AS ROMÃS DE NOVEMBRO ( Alice Vieira )

 abriste a porta e disseste que

toda a casa cheirava a alfazema
enquanto largavas sobre a mesa
as romãs de novembro
e olhaste para as paredes da sala como se
por entre as estantes carregadas de livros
rompessem estevas urzes lilases
abriste depois a porta do armário
procurando para as romãs um
prato do serviço de vista alegre que
querias sempre à tua espera mesmo que
o jantar se esquecesse no forno
alfazema repetiste
a palavra saboreada com o ar
de quem tinha deixado
o passado inteiro no elevador
e finalmente
encontrado o caminho de damasco
Alice Vieira, in  Olha-me Como Quem Chove

Por Célia Moura, in "Terra de Lavra."

 Adormecem mamilos gretados

De indignação
Em cada palavra
Que não ouso.

Gemem catadupas de papoilas
Entre o trigo
E por isso as digo
As escrevinho
Grito-as aqui
Neste papel de ninguém!

E que prazer é
Mordê-las!

Saborear-lhes o sangue
Expulso das artérias
Libertando-as de mim
Desta clausura
Onde tentam amordaçar-me
Todas elas
As mais insolentes
As deliciosas
As mordazes
E até as mais voluptuosas!

Que prazer,
Enamorá-las
Consenti-las
Dar-lhes permissão
Para logo a seguir
As arremessar certeiras
Fugidias ou sarcásticas
Como flores ou como dardos
Aguçando-lhes a destreza
Verbalizá-las todas,
Libertando-as do sémen
Que nos fecunda a seara
Do Bem e do Mal
Arrancando ervas daninhas
Pelos dentes.

19/11/2025

À POETISA REBELDE (Ariane Viana)Em memória de Hilda Hilst

 I

ínfimo

monossilábico
vocábulorifício

II

o cu é um palavrão
o cu é sonoro, puntiforme, minimalista
o cu dos editores é grande o bastante
pra se enfiar uma bela banana

III

moça bonita também
fala palavrão