11/12/2016

MAOMÉ E A MONTANHA(
Rosa  Alice  Branco )

Guardo o mais absoluto segredo 
das pedras que rolam no fundo dos leitos 
embora nada saiba, 
nada ouse saber. 
Vou pelo olhar até ao rio, 
o rio vem a mim 
e ambos caminhamos deslumbrados 
para fora de nós.
O cantar da água 

corre nos meus olhos exactamente como corre 

a manhã 
até que o sol a prumo 
faz de mim o desenho do rio 
que vejo, 
o mapa das veias 
onde o corpo nasce de novo.
À vinda procuro a minha sombra. 

O coração que me há-de trazer de volta 

demora-se no rio 
como se nele corresse 
uma sede de olhar. 
Os pés colam-se à margem. 

Do outro lado as casas vão mudando 

de expressão 
mais lentamente do que a água corre. 
O sol abraça-me pelas costas 
e deixa-se escorregar como crianças 
que riem, 
que não distinguem a voz seca do tempo. 
É noite à lareira da casa. 

Os objectos acendem-se: 

também eles mudam de rosto 
como tudo o que é iluminado por amor. 
Aproximo-me de longe, 
venho do rio, 
o rio vem de mim.

O PECADO DA GULA ( Rosa Alice Branco)

Ontem à tarde saí.
Queria passear as lembranças
que um dia de chuva faz crescer em nós.
Há dias que o vento rondava a casa
cheio de segredos incompletos
a roçar-me a orelha. E eu não resisto
ao sabor do vento
e a uma boa história para enganar o frio.

É fácil perdermo-nos nas ruas.
Nunca se regressa pelos mesmos caminhos
mas todos parecem iguais
com o cheiro da chuva a deixar o alcatrão
e a subir na memória
de outras ruas.
Mas há só um caminho que trilhamos. O corpo
é uma bússola fiel que segue pela estrada
enquanto o pó se levanta
muito para além dos nossos passos.
 


 

COLADA À TUA BOCA ( Hilda Hilst ) in 'Do Desejo'

Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

TOMA-ME ( Hilda Hilst )

Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me agora, antes
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.


AMA-ME ( Hilda Hilst )

Aos amantes é lícito a voz desvanecida.
Quando acordares, um só murmúrio sobre o teu ouvido:
Ama-me. Alguém dentro de mim dirá: não é tempo, senhora,
Recolhe tuas papoulas, teus narcisos. Não vês
Que sobre o muro dos mortos a garganta do mundo
Ronda escurecida?

Não é tempo, senhora. Ave, moinho e vento
Num vórtice de sombra. Podes cantar de amor
Quando tudo anoitece? Antes lamenta
Essa teia de seda que a garganta tece.

Ama-me. Desvaneço e suplico. Aos amantes é lícito
Vertigens e pedidos. E é tão grande a minha fome
Tão intenso meu canto, tão flamante meu preclaro tecido
Que o mundo inteiro, amor, há de cantar comigo.



 











SONETO PARA GRETA GARBO
(Carlos Pena Filho)
(Em louvor da decadência bem comportada)


Entre silêncio e sombra se devora 
e em longínquas lembranças se consome; 
tão longe que esqueceu o próprio nome 
e talvez já nem saiba porque chora. 

Perdido o encanto de esperar agora 
o antigo deslumbrar que já não cabe, 
transforma-se em silêncio, porque sabe 
que o silêncio se oculta e se evapora. 

Esquiva e só como convém a um dia 
despregado do tempo, esconde a face 
que já foi sol e agora é cinza fria. 

Mas vê nascer da sombra outra alegria: 
como se o olhar magoado contemplasse 
o mundo em que viveu, mas que não via.

Foto: Greta Garbo - atriz sueca.




A MULHER NUA ( Juan Ramón Jiménez )

A MULHER NUA (
Juan Ramón Jiménez)

Humana fonte bela, 
repuxo de delícia entre as coisas, 
terna, suave água redonda, 
mulher nua: um dia, 
deixarei de te ver, 
e terás de ficar 
sem estes assombrados olhos meus, 
que completavam tua beleza plena, 
com a insaciável plenitude do seu olhar? 

(Estios; verdes frondas, 
águas entre as flores, 
luas alegres sobre o corpo, 
calor e amor, mulher nua!) 

Limite exacto da vida, 
perfeito continente, 
harmonia formada, único fim, 
definição real da beleza, 
mulher nua: um dia, 
quebrar-se-á a minha linha de homem, 
terei que difundir-me 
na natureza abstracta; 
não serei nada para ti, 
árvore universal de folhas perenes, 
concreta eternidade! 
  
 (Tradução de José Bento) 


PEDRA FILOSOFAL ( António Gedeão )


Eles não sabem que o sonho 
é uma constante da vida 
tão concreta e definida 
como outra coisa qualquer, 
como esta pedra cinzenta 
em que me sento e descanso, 
como este ribeiro manso 
em serenos sobressaltos, 
como estes pinheiros altos 
que em verde e oiro se agitam, 
como estas aves que gritam 
em bebedeiras de azul. 

Eles não sabem que o sonho 

é vinho, é espuma, é fermento, 

bichinho álacre e sedento, 

de focinho pontiagudo, 

que fossa através de tudo 

num perpétuo movimento. 

Eles não sabem que o sonho 

é tela, é cor, é pincel, 

base, fuste, capitel, 

arco em ogiva, vitral, 

pináculo de catedral, 

contraponto, sinfonia, 

máscara grega, magia, 

que é retorta de alquimista, 

mapa do mundo distante, 

rosa-dos-ventos, Infante, 

caravela quinhentista, 

que é Cabo da Boa Esperança, 

ouro, canela, marfim, 

florete de espadachim, 

bastidor, passo de dança, 

Colombina e Arlequim, 

passarola voadora, 

pára-raios, locomotiva, 

barco de proa festiva, 

alto-forno, geradora, 

cisão do átomo, radar, 

ultra-som, televisão, 
desembarque em foguetão 
na superfície lunar. 

Eles não sabem, nem sonham, 

que o sonho comanda a vida. 

Que sempre que um homem sonha 

o mundo pula e avança 

como bola colorida 

entre as mãos de uma criança. 

DORME, QUE A VIDA É NADA!
Fernando Pessoa )

Dorme, que a vida é nada! 
Dorme, que tudo é vão! 
Se alguém achou a estrada, 
Achou-a em confusão, 
Com a alma enganada. 

Não há lugar nem dia 
Para quem quer achar, 
Nem paz nem alegria 
Para quem, por amar, 
Em quem ama confia. 

Melhor entre onde os ramos 
Tecem docéis sem ser 
Ficar como ficamos, 
Sem pensar nem querer, 
Dando o que nunca damos.
 


 

PARA TI (Mia Couto ) in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

AINDA QUE MAL ( Carlos Drummond de Andrade)


Ainda que mal pergunte, 
ainda que mal respondas; 
ainda que mal te entenda, 
ainda que mal repitas; 
ainda que mal insista, 
ainda que mal desculpes; 
ainda que mal me exprima, 
ainda que mal me julgues; 
ainda que mal me mostre, 
ainda que mal me vejas; 
ainda que mal te encare, 
ainda que mal te furtes; 
ainda que mal te siga, 
ainda que mal te voltes; 
ainda que mal te ame, 
ainda que mal o saibas; 
ainda que mal te agarre, 
ainda que mal te mates; 
ainda assim te pergunto 
e me queimando em teu seio, 
me salvo e me dano: amor. 


 

MISTÉRIO ( Pedro Homem de Mello)

Teu corpo veio a mim. Donde viera? 
Que flor? Que fruto? Pétala indecisa. 
Rima suave: Outono ou Primavera? 
Teu corpo veio como vem a brisa. 

Rosa de Maio, encastoada em luto: 
O dos meus olhos e o do meu cabelo. 
Um quarto para as onze! E esse minuto 
Ai! nunca, nunca mais pude esquecê-lo! 

Viu-se, primeiro, o rosto e o ombro, depois. 
E a mão subiu das ancas para o peito. 
Quem és? Sou teu. (Quando um e um são dois, 
Dois podem ser um só cristal perfeito!) 

Um quarto para as onze! Caiu neve? 
Abri os olhos! Era quase dia. 
Ou bater de asas, cada vez mais leve, 
De pássaro na sombra que fugia?

VOLÚPIA (Florbela Espanca)


No divino impudor da mocidade, 
Nesse êxtase pagão que vence a sorte, 
Num frêmito vibrante de ansiedade, 
Dou-te o meu corpo prometido à morte! 

A sombra entre a mentira e a verdade. 
A nuvem que arrastou o vento norte. 
- Meu corpo! Trago nele um vinho forte: 
Meus beijos de volúpia e de maldade! 

Trago dálias vermelhas no regaço. 
São os dedos do sol quando te abraço, 
Cravados no teu peito como lanças! 

E do meu corpo os leves arabescos 
Vão-te envolvendo em círculos dantescos 
Felinamente, em voluptuosas danças. 


LEI ( Cecília Meireles ) in Poemas, 1954


O que é preciso é entender a solidão! 
O que é preciso é aceitar, mesmo, a onda amarga 
que leva os mortos. 
O que é preciso é esperar pela estrela 

que ainda não está completa. 
O que é preciso é que os olhos sejam cristal sem névoa, 

e os lábios de ouro puro. 
O que é preciso é que a alma vá e venha; 

e ouça a notícia do tempo, 
e. entre os assombros da vida e da morte, 
estenda suas diáfanas asas, 
isenta por igual. 
de desejo e de desespero.

TERNURA ( David Mourão - Ferreira, in "Infinito Pessoal" )

Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada 

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio 

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente

que da nossa ternura anda sorrindo 
Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!


10/12/2016

AS ATRIZES ( Chico Buarque de Holanda )


Naturalmente
ela sorria
Mas não me dava trela
Trocava a roupa
Na minha frente
E ia bailar sem mais aquela
Escolhia qualquer um
Lançava olhares
Debaixo do meu nariz
Dançava colada
Em novos pares
Com um pé atrás
Com um pé a fim

Surgiram outras
Naturalmente
Sem nem olhar a minha cara
Tomavam banho
Na minha frente
Para sair com outro cara
Porém nunca me importei
Com tais amantes
Os meus olhos infantis
Só cuidavam delas
Corpos errantes
Peitinhos assaz
Bundinhas assim

Com tantos filmes
Na minha mente
É natural que toda atriz
Presentemente represente
Muito para mim.