Habite-me, penetre-me.
Com esta sede me queimando.
A solidão, seus corvos, seus cães, seus pedaços.
"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
Habite-me, penetre-me.
Com esta sede me queimando.
A solidão, seus corvos, seus cães, seus pedaços.
Um sangramento lento
rastreável
até a beleza mais pérfida
ao mistério da carne indefesa
um cego se acorrenta
para a vida
no meio da umidade secreta
fingindo ser uma criatura marinha
ou talvez demônio
cúmplice de um anjo
ganancioso e triste
um sangramento
uma corrente
uma agonia feroz
entre a luz imprecisa e virgem
de um eclipse
lábios e olhos fechados
mas aberto
perdido
florido
Já ouvimos esta história
Mil vezes, não ouvimos?
Desponto de teu peito,
Límpida e desnuda
Para alentar tua fome
E aquecer teu frio
Mas os relatos subtraem
O momento em que desabrocho
E, sempre insensato, rompes
Uma costela — precisa, aguda
Para cravá-la em meu dorso
E tingir-me a tez de rubro
(Então jazemos, enredados, mão
Ao pescoço, dentes à pele,
Solo envolto em carmesim
Onde se desfazem os fios
De minha carne —
Logo, sucumbo)
Mas os deuses, sempre ímpios,
Ainda assim me desterram;
Então, deixo os campos
Empíreos — só, à deriva
Para descingir nossos laços
E me livrar de tuas garras
E minhas veias cantam, em tumulto
E alívio, cada vez que percorro
As ruas, pena e espada em punho
E gentil furor em meu seio
Para te lavar de minhas mãos
E te expulsar do meu ventre.
Que faço com minha cara de índia?
Brasil, o que faço com minha cara de índia?
Na curva desta escada nos amamos,
Outono vem em fulvas claridades.
Brancas, suaves, doces mãos de irmã
Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos
O vento passa a rir, torna a passar,
Quero acordar-te