15/09/2024

ORAÇÃO ( Juan Gelman )

 Habite-me, penetre-me.

Deixe seu sangue ser igual ao meu sangue.
Sua boca entra na minha boca.
Seu coração aumenta o meu até explodir.
Me destrua.
Você cai inteiro em minhas entranhas.
Deixe suas mãos andarem em minhas mãos.
Seus pés andam sobre meus pés, seus pés.
Queime-me, queime-me.
Encha-me com sua doçura.
Deixe sua saliva banhar meu paladar.
Você está em mim como a madeira está no pau.
Não aguento mais assim, com essa
sede ardente.

Com esta sede me queimando.

A solidão, seus corvos, seus cães, seus pedaços.


PONTO G ( Carmen Matute )

 Um sangramento lento

rastreável

até a beleza mais pérfida

ao mistério da carne indefesa


um cego se acorrenta

para a vida

no meio da umidade secreta

fingindo ser uma criatura marinha

ou talvez demônio

cúmplice de um anjo

ganancioso e triste


um sangramento

uma corrente

uma agonia feroz

entre a luz imprecisa e virgem

de um eclipse

lábios e olhos fechados

mas aberto

perdido

florido


14/09/2024

ESPELHO ( Sylvia Plath ) (Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maurício A. Mendonça)

Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo engulo no mesmo momento
Do jeito que é, sem manchas de amor ou desprezo.
Não sou cruel, apenas verdadeiro —
O olho de um pequeno deus, com quatro cantos.
O tempo todo medito do outro lado da parede.
Cor-de-rosa, malhada. Há tanto tempo olho para ele
Que acho que faz parte do meu coração. Mas ele falha.
Escuridão e faces nos separam mais e mais.

Sou um lago, agora. Uma mulher se debruça
sobre mim,
Buscando em minhas margens sua imagem
verdadeira.
Então olha aquelas mentirosas, as velas ou a lua.
Vejo suas costas, e a reflito fielmente.
Me retribui com lágrimas e acenos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã seu rosto repõe a escuridão.
Ela afogou uma menina em mim, e em mim uma velha
Emerge em sua direção, dia a dia, como um
 peixe terrível.


SONETO DO SONO ( Ruy Espinheira Filho )

A tarde é tão serena que parece
vir do hálito que sobe do teu sono.
Vejo-te a ir nas nuvens do abandono,
comovido de calma. A tarde desce

ao longe, sobre o mar. Mas lenta e leve,
que assim a exala o sonho desse sono.
E tudo, enfim, é o sopro do abandono,
como o seu sussurrar na mão que escreve.

Dormes como num voo. Como se fosse
quando o tempo era jovem. E me sinto
pleno de mar e luz e céu — e sou

soberbo e claro por estar absorto
no abandono desse pó de estrelas
que se juntou para inventar teu corpo.

OLHANDO AS ILHAS ( Ledusha B. A. Spinardi )

a primeira nuvem fosca nos olhos
a primeira alegria talhada no vácuo
o namorado esteta que chorava à toa
o atlas que homem nenhum me deu


CENA ÍNTIMA ( Ledusha B. A. Spinardi )

Outubro termina a bordo de um ventinho de cambraias, perfeito para cílios e lábios. Ainda há borboletas soprando o véu da primavera. Do
outro lado da rua, através dos brincos-de-princesa na treliça que contorna a varanda, posso sentir o coração de um sabiá pulsar ao
compasso solitário de um assobio. A luz da tarde anuncia subitamente escuros, abafa-se, e logo a tempestade cai, despenteando o cenário com raios esplêndidos. Cai estrondosa e se vai, deixando a tarde fresca e perfumada. Nos intervalos entre gotas tardias, pesco um
sentimento ímpar de plenitude. Mosaicos de folhas e galhos repousam no asfalto cravejado de granizos.

ENSINAMENTO ( Adélia Prado )

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
'Coitado, até essa hora no serviço pesado'.
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

 



O CORPO AMOROSO DO DESERTO ( Micheliny Verunschk ) In Geografia Íntima do Deserto. Landy, São Paulo, 2003

Teu corpo
branco e morno
(que eu deveria dizer sereno)
é para mim
suave e doloroso
como as areias cortantes
dos desertos.
Que importa
que ignores minha sede
se tua miragem
é água cristalina.
E a miragem eu firo com mil línguas
e cada uma é um pássaro
a bebê-la.
Ferroam a minha pele
escorpiões de fogo e sol
com seu veneno
e vejo,
magoada de desejo,
os grãos tão leves
indo embora ao vento.

12/09/2024

CONTOS DO JARDIM ( Sofia Lopes )

 Já ouvimos esta história

Mil vezes, não ouvimos?

Desponto de teu peito,

Límpida e desnuda

Para alentar tua fome

E aquecer teu frio

 

Mas os relatos subtraem

O momento em que desabrocho

E, sempre insensato, rompes

Uma costela — precisa, aguda

Para cravá-la em meu dorso

E tingir-me a tez de rubro

 

(Então jazemos, enredados, mão

Ao pescoço, dentes à pele,

Solo envolto em carmesim

Onde se desfazem os fios

De minha carne —

Logo, sucumbo)


Mas os deuses, sempre ímpios,

Ainda assim me desterram;

Então, deixo os campos

Empíreos — só, à deriva

Para descingir nossos laços

E me livrar de tuas garras


E minhas veias cantam, em tumulto

E alívio, cada vez que percorro

As ruas, pena e espada em punho

E gentil furor em meu seio

Para te lavar de minhas mãos

E te expulsar do meu ventre.

08/09/2024

RIOS ( Viviane Mosé )

Rios, quando ainda são rios,
Conservam vegetação nas margens.
Córregos são águas geralmente claras
Que correm rasas entre as pedras.

Algumas vezes árvores chegam a cobrir um rio por inteiro:
Suas copas vão tecendo um véu verde sobre as águas
(em geral muito limpas) que correm.

As margens de um rio são plantas e terra molhada.
Terra e água em convivência pacífica.
Que não é lama, é terra e água,
Em sua diferença.

O leito se sabe leito daquele fluxo líquido inserido no chão.
Eu poderia chorar de coisas assim:
Corre um rio de minha boca corre um rio de minhas mãos.
Dos meus olhos corre um rio.

Na verdade sofro de excessos, que me dão certo vocabulário
Como derramar, escorrer, atravessar.
Tenho a impressão de que tudo vaza em sobras.
Tenho dificuldade em caber.

Pra caber mais derramo por nada derramo sem motivo.
Vou acalmar meu excesso pensei
Ministrando doses diárias de barcos ancorados ao sol,
Rodeados por pequenos pássaros em busca de restos de peixe.

Águas se lançando sobre as pedras e um vento que parece vivo,
Como se tivesse a intenção de às vezes fazer agrados
Em minha pele.

Meu rosto tem muita simpatia por ventos,
Reconhece certos humores próprios a vento.
Gosto de coisas que se movem.

Por isso aprecio rios e não sou tanto assim apegada a mares.
E árvores.
Se bem que tenho enorme ternura por bois
Fincados no pasto como palavras no papel.

Palavras são estacas fincadas ao chão.
Pedras onde piso nessa imensa correnteza que atravesso.


BRASIL ( Eliane Potiguara )

 

Que faço com minha cara de índia?

E meus cabelos
E minhas rugas
E minha história
E meus segredos?

Que faço com minha cara de índia?
E meus espíritos
E minha força
E meu Tupã
E meus círculos?

Que faço com minha cara de índia?
E meu toré
E meu sagrado
E meus “cabocos”
E minha Terra?

Que faço com minha cara de índia?
E meu sangue
E minha consciência
E minha luta
E nossos filhos?

Brasil, o que faço com minha cara de índia?

Não sou violência
Ou estupro

Eu sou história
Eu sou cunha
Barriga brasileira
Ventre sagrado
Povo brasileiro.

Ventre que gerou
O povo brasileiro
Hoje está só
A barriga da mãe fecunda
E os cânticos que outrora cantavam
Hoje são gritos de guerra
Contra o massacre imundo.

ESCADA ( Carlos Drummond de Andrade )

Na curva desta escada nos amamos,

nesta curva barroca nos perdemos.
O caprichoso esquema
unia formas vivas, entre ramas.

Lembras-te, carne? Um arrepio telepático
vibrou nos bens municipais, e dando volta
ao melhor de nós mesmos
deixou-nos sós, a esmo,
espetacularmente sós e desarmados,
que a nos amarmos tanto eis-nos morridos.

E mortos, e proscritos
de toda comunhão no século (esta espira
é testemunha, e conta), que restava
das línguas infinitas
que falávamos ou surdas se lambiam
no céu da boca sempre azul e oco?

Que restava de nós,
neste jardim ou nos arquivos, que restava
de nós, mas que restava, que restava?
Ai, nada mais restara,
que tudo mais, na alva,
se perdia, e contagiando o canto aos passarinhos
vinha até nós, podrido e trêmulo, anunciando
que amor fizera um novo testamento,
e suas prendas jaziam sem herdeiros
num pátio branco e áureo de laranjas.

Aqui se esgota o orvalho,
e de lembrar não há lembrança. Entrelaçados,
insistíamos em ser; mas nosso espectro,
submarino, à flor do tempo ia apontando,
e já noturnos, rotos, desossados,
nosso abraço doía
para além da matéria esparsa em números.

Asa que ofereceste o pouso raro
e dançarino e rotativo, cálculo,
rosa grimpante e fina
que à terra nos prendias e furtavas,
enquanto a reta insigne
da torre ia lavrando
no campo desfolhado outras quimeras:
sem ti não somos mais o que antes éramos.

E se este lugar de exílio hoje passeia
faminta imaginação atada aos corvos
de sua própria ceva,
escada, ó assunção,
ao céu alças em vão o alvo pescoço,
que outros peitos em ti se beijariam
sem sombra, e fugitivos,
mas nosso beijo e baba se incorporam
de há muito ao teu cimento, num lamento.

OUTONO ( Florbela Espanca )

 Outono vem em fulvas claridades.

Vamos os dois esp’rá-lo de mãos dadas:
Tu, desfolhando as rosas das estradas,
E eu, escutando o choro das saudades.

Outono vem em doces suavidades.
E a acender fogueiras apagadas
Andam almas no céu, ajoelhadas.
E a terra reza a prece das Trindades.

Choram no bosque os musgos e os fetos.
Vogam nos lagos pálidos e quietos,
Como gôndolas d’oiro, as borboletas.

Meu Amor! Meu Amor! Outono vem.
Beija os meus-olhos roxos, beija-os bem!
Desfolha essas primeiras violetas!


 


 


 

SEM PALAVRAS ( Florbela Espanca ) in "A Mensageira das Violetas"

 Brancas, suaves, doces mãos de irmã

Que são mais doces do que as das rainhas,
Hão-de poisar em tuas mãos, as minhas
Numa carícia transcendente e vã.

E a tua boca a divinal manhã
Que diz as frases com que me acarinhas,
Há-de poisar nas dolorosas linhas
Da minha boca purpurina e sã.

Meus olhos hão-de olhar teus olhos tristes;
Só eles te dirão que tu existes
Dentro de mim num riso d’alvorada!

E nunca se amará ninguém melhor:
Tu calando de mim o teu amor,
Sem que eu nunca do meu te diga nada!

O NOSSO MUNDO ( Florbela Espanca )

 Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos

Como um divino vinho de Falerno!
Poisando em ti o meu amor eterno
Como poisam as folhas sobre os lagos.

O teu olhar em mim, hoje, é mais terno.
E a Vida já não é o rubro inferno
Todo fantasmas tristes e pressagos!

Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas hemos de bebê-la!

Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?
O mundo, Amor?  As nossas bocas juntas!

AO VENTO ( Florbela Espanca )

 O vento passa a rir, torna a passar,

Em gargalhadas ásp’ras de demente;
E esta minh’alma trágica e doente
Não sabe se há de rir; se há de chorar!
Vento de voz tristonha, voz plangente,
Vento que ris de mim, sempre a troçar,
Vento que ris do mundo e do amar,
A tua voz tortura toda a gente!
Vale-te mais chorar, meu pobre amigo!
Desabafa essa dor a sós comigo,
E não rias assim! O vento, chora!
Que eu bem conheço, amigo, esse fadário
Do nosso peito ser como um Calvário,
E a gente andar a rir p’la vida fora!

06/09/2024

QUERO ACORDAR - TE ( Lília Tavares )

 Quero acordar-te

da profundidade do teu sono,
da carícia tornada ferida,
do crepúsculo não vivido.
Buscaste-me quebrando
um a um os silêncios
das tuas mãos,
pisaste as estradas,
com asas chegaste
como o outono
discreto mas presente.
Sou a semente que se perdeu
entre as pedras do caminho
e o luar esquecido pela claridade
dos néons.
Soube-nos a chegada
a partida pela noite.
Se voltas,
porque tens de partir
na cauda dos ventos do norte?
O frio percorre-me
quando começa a sombra da tua ausência.