04/03/2025

SOPRA UM VENTO ( Ana Viana )

 Sopra um vento entre mim e ti

nascido como todos

quando escavávamos dentro de nós

escavando a distância

foi já tempestade fechada em nevoeiro

hoje é apenas brisa

afrouxada na distância

recebo esse sopro suave como uma carícia

de quem ao largo me acena

enquanto parte

sempre entre nós um vento

ar com que te respiro

enquanto o longe nos escava

a distância



CHÁ DE PANELA ( Aldir Blanc & Guinga )

 Hermeto foi na cozinha

pra pegar o instrumental :
do facão à colherinha tudo é coisa musical.
Trouxe concha e escumadeira, ralador, colher de pau,
barril, tirrina, e peneira - tudo é coisa musical.
Me convidou pra uma pinga, meu não pesou com dó,
piscou um olho só, disse que eu tiro da seringa,
que home que não bebe e nega mocotó,
acaba quenga em vez de guinga, se veste de filó
afrouxa o fiofó e o ferrão já nem respinga:
encolhe feito um nó
e vai ficar menó...
Assoprou numa chaleira, bateu nema bacia.
Jesus , Ave Maria, era uma sinfonia
Secador e geladeira entraram no compasso,
dançou a farinheira, saleiro no pedaço e tudo era coisa musical,
funil mandando: ôi! fogão gritando: uau!
Fez um chocalho de arroz e outro de feijão
No talo do mamão cortou a fruta que já vi tocá mais doce,
irmão, direto ao coração.
Assoprou numa chaleira, bateu numa bacia.
Nesse chá de panela que eu senti a vocação:
vi que música é tudo que avoa e rasga o chão.
Foi Hermeto Paschoal que magistral me deu o dom de entender que
do lixo ao avião em tudo há tom
E que até pinico da bom som se a criação é mais
se o músico for bom


 

MEU CORAÇÃO ( Ângela Lopes )

 O meu coração é uma folha de papel

com retas e curvas e espirais
de lírios carnais.

Neles repousam os beijos de borboletas
com desejos de asas incansáveis,
sonhos infindáveis.

E entre o traço do voo e o sorriso da flor,
o céu de um peito vibra no ar
do poema amar.

OLHO A SUA BOCA ( Joaquim Manuel Magalhães )

 Olho a sua boca.

Tanto que vem o punhal da luz

levar-me os olhos.

O carvão, a cinza dos

meus olhos. Os seus.

A sua boca, o sulco

onde me pergunta e eu

respondo. A morrer,

a olhar anavalhado

o seu brilho bravio.

Sons de sirenes, uivos,

estrondos, desabamentos,

ravinas donde rompe

o amor. A sua boca.


O TEU ROSTO ( Vasco de Lima Couto )

 O teu rosto

é como a noite
que envolve
o cair do dia…
fecha todos os jardins
e abre a minha fantasia.

SEARA EM PLENO CIO DESPIDA ( Célia Moura )

 Serei sempre essa tinta que escorre pela tua vitoriosa caneta de aparo,

Assim como o sorriso que nasce nos vales
Subindo suavemente pelo dorso da colina
Que não podemos vislumbrar da janela opaca dos olhos
Porém sentimos o odor do rosmaninho entre os dedos
E um pousar rubro de papoilas entre meus seios
Escorrendo mel.
Seremos todo o trigo ainda por plantar
Seara me dou como fêmea em pleno cio
Amado!
Sangue permaneço!

02/03/2025

AO NOSSO ( Marina Colasanti ) in Fino Sangue, 2005

 Sentir teu pau crescer

depois do beijo
por entre o pano da calça
do lençol
da minha saia
delicada membrana entre nós dois
tecido
como hímen complacente
que cede
e que consente ao teu desejo.

LIVRES À NOITE ( Marina Colasanti ) in Fino Sangue, 2005

 Tirar o sutiã à noite

quando o dia se acaba
e com ele o dever de rijos seios.
Tirar o sutiã à noite
despir a couraça
a constrictor
a alheia pele.
Livrar-se de arames
elásticos presilhas
cortar com tesoura o wonderbra.

Toda noite a mulher regressa
da cruzada
e liberta sua santa carne.
Descem as alças pelos ombros
as mãos se encontram nas costas
soltando amarras
e na quietude do quarto
os peitos
como navios
fazem-se ao largo.

A COXA ( Marina Colasanti ) in Fino Sangue, 2005

 Sendo redonda

a coxa
ainda assim tem
dois lados
pois tem um lado de fora
que sem medo se mostra
e tem um lado de dentro
que é sagrado.

No lado de fora
a coxa
é carne sem fronteira
que do joelho sobe
até a cintura
sem entrave ou ruptura
mas do lado de dentro
se fratura contra a beira fechada
da virilha.

Roliça, embora,
a coxa
como o diamante é
plurifacetada
próxima ao toque em
alguns pontos e
em outros
afastada.

Nem é a mesma
a pele
que os dois lados veste
e que ao olhar se diz inteira
e una
enquanto a mão
conhece a mais secreta e fina
que ao seu roçar
floresce
e aquela
que na quina do corpo
se oferece.
Mais que suporte
a coxa
é ponte levadiça
guardiã que a entrada
tranca a todo intruso,
defesa que se abaixa
repentina
para atrair o invasor
e
fazer uso.

SALOMÉ DO EDIFÍCIO PÚBLICO ( Marina Colasanti )

 A saia comprida até o meio da perna

os altos saltos das sandálias pretas
o bater sobre o mármore que brilha.
No hall vazio - só eco e tetos baixos -
avança a funcionária de longos cabelos
e bandeja na mão.
Nem prata
nem Batista.
Um copo d'água
a xícara
a mancha de café.
Rumo à sala do chefe
abre-se ao passo a longa fenda
da saia
e a panturrilha escapa
musculosa.
Rija carne de atleta
trai a Salomé do edifício público
e devolve ao relógio de ponto
os seus pálidos seios.

SIM, PODE - SE ( Marina Colasanti ) in Gargantas Abertas, 1998

 Podem-se abrir as pernas

com a mesma firmeza
de uma quilha que avança.
Abrir-se à alheia entrada
e ser aquele que aproa.
Pode-se porto ser
e navegante.

A MÃO DE QUEM ( Marina Colasanti )

 Se tua boca, Holoferne

essa tua boca aberta pelo espanto
ou pelo último grito
pudesse falar
talvez me dissessem quem
te cortou a cabeça
se Judite
ou Caravaggio.
Foi ela mesma que empunhou a espada
abrindo passo ao sangue
rijo jato
sobre o branco lençol
ou foi o pincel que a fez surgir das sombras
para seu próprio horror
com a mão armada?
Os dedos de Judite seguram teus cabelos
leves como um afago
e não terão força, não
não terão
para amparar o peso da cabeça.
Pobre Judite, pálida assassina
a quem morte repugna.
afasta o rosto e quase se surpreende
ao ver que a espada a leva
no seu corte
Tomba ao fundo
entre os dois
um rubro pano
que Caravaggio quis
talhado em carne.

Na orelha de Judite
pende a pérola em gota
o leve laço.
E Merisi olha a cena
pelos olhos da aia
à espera de que o desejado se cumpra
e lhe caiba
sem culpa
a colheita do crime.

01/03/2025

QUEREMOS SER MULHERES ( Hera de Jesus )

 Há pranto

Há flores

murchas

esmagadas

pelos opressores

num mundo

cruel para Mulheres.

 

Calcinhas acorrentadas

ao pescoço

furtam-nos

a essência

à luz do dia

Se resistirmos

estoiram o útero

e lançam na sargeta do mundo.

 

Nas montras das ruas

Jazem flores

murchas,

nuas e ensaguentadas

Chacinadas, e descoroadas


Era uma vez

Mulheres

que apenas

Queriam ser Mulheres

num mundo cruel


À MEIA NOITE ( Hera de Jesus )

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CAPTURAR O MISTÉRIO NA BOCA DE AVES DE RAPINA (Mariana Artigas)

 Procurar o mistério infernal

Em mim mesma
Mimetizar o desconhecido
E aceitar a natureza indomesticável
Do ato de fazer amor
Com palavras ilegíveis

Engolir a terra virgem
Que circunda meus lábios
Raptar a sua filha
Fugir pela América Latina
Como se isso não representasse perigo algum

In Argentina
Loking for you (I was)

Seguir temerosa
Finalizando listas infinitas
Buscar de forma incansável
Letras indomesticáveis

Apaixonar-me por um riso infantil
Coberto de neve e amoras
Capturar uma realidade exasperante
E transformá-la em uma
Neutralidade insossa
Que brota da boca de aves de rapina.

Preconizar a morte na boca
dos peixes:
Desejo incapturável
A olho nu.

Ser completamente incapaz de prever
qual idioma frágil
o teu peito irá extinguir
em breve

In Argentina
Looking for you (I was)

Repetir silenciosamente: Eu sou, eu sou eu sou.

E ser de fato, completamente incapaz de fugir
dos teus lábios.

REVELO-ME INSOLÚVEL COMO ÁGUA CORRENTE (Yasmin Borges)

buscando a mim mesmo

revelo-me insolúvel

como a água corrente

vejo-me pelo seus olhos

sou cristalino como o rio que passa

por debaixo desta ponte

fresco e incolor

pego-me pensando

o que faz do ser humano, humano

seu corpo constituído por água

como eu, transparente?

como eu, translúcido?

como eu, lúcido?

como eu, insípido?


o som das ondas se chocam

se colidem

se machucam

ânsia dos navegadores

suas naus no meio desse caos

perpetuado por um Deus

Deus esse que sente raiva

pelas suas ondas e sem pudor

transmite sua cólera para seus

indolentes filhos, nauseantes do

balançar do mar


em uma alucinação

sinto-me gotejar

liquefaço-me em vinho

o mais fino dos tintos 


O CORPO TENDIA PARA A CRUCIFICAÇÃO (Helena Costa Carvalho)

 O corpo tendia para a crucificação

o justo golpe em espaço livre no tempo em que
a tarde queimava num banco de jardim
e os seres sonhavam a geração inteira na sua sobrevida,

o dorso quente sobre a madeira a exalar
temores, respingos de ar
a fome cortesã.

Éramos o alvorecer, os deuses juvenis a que Deus
dava calor e bênção, assombro térmico
de mão vulcânica sobre as frontes mornas
quase aéreas
despregadas pela compaixão.

Do corpo sabia-se pouco mais que a ânsia
replicada a cada ano, ouvia-se dele
o sopro avulso
o assobio do cutelo raiando o sexo,

sabia-se por vezes a seda mínima
fugitiva,

e um odor de especiaria adocicando parques
e caves íntimas, incenso-fátuo
nas tardes que ebuliam precoces
de tanto verão.

QUIROMANCIA - INICIAÇÃO ( Helena Costa Carvalho )

 Ver para sondar linhas incontínuas,

declives do coração, a corruptela
lasciva numa mão aberta.

Pensava no corpo nu e no olhar
desperto para os labores da forja,
da inscrição, pensava
no exame escolástico das impressões
desde que o primeiro sangue tingiu de ferro
a pele potável em gozo mercurial,
como luz queimando a púrpura
a boca de um travesti

: e a cada sulco o seu desastre.

Abro a mão direita ao final de cada dia,
afastando os dedos como um animal de espinhos
em agonia olímpica. Procuro vestígios
desse mênstruo tenro, a gesta
metabólica, a sua cavalgada.
Um resquício do primeiro cio
ou o desenho inequívoco
de um talento.
Uma vogal que me faça arder
para além dos desastres.

PELE ( Natasha Sardzoska )

 Folhas amarelas na sua pele 

poros rasgados de calor incompreensível 

lábios gretados e um vale inchado 

de pensamentos e mamilos. 

Pele 

eu digo 

estás sozinha 

ou a hora está a afastar-se do relógio aceitável 

e ouço como deslizam sobre as camadas pálidas 

gotas lágrimas secreção vinho 

mas não é a primeira vez 

é um retorno constante 

e confusão antes das eleições que não queres aceitar 

quando chegar este outono 

na sua pele 

numa inundação de espaços 

inadequados 

indecentes 

indignos 



Lília Tavares, do livro “Nas Mãos A Sede Dos Pássaros”

 Chamam-lhes sonhadoras, inconsequentes,

aventureiras. Sentem-se dissolver na poesia ainda que
escrevam em prosa. A diluição de si nos personagens arrepia.
Fingem alegria quando sonham. Assistimos ao seu
desabamento interior num mar assolado pelo nevoeiro.
Estranham-se aos pedaços.
Entranham-se sem estenderem a mão em busca de
salvamento.
São mulheres múltiplas, revelam-se num ápice.
Escrevem livros duros e ásperos e doces. Oferecem ao
leitor colheradas de mel como se o tivessem tomado
no passado.
São mulheres da interioridade. Anónimas. O que não
se conhece, estranha-se sem desgosto, pensam.
São mulheres que nada têm a perder. Aceitam
desiludir.
Desiludidas, escrevem até conseguirem arrancar das
profundezas o avesso da alegria, as causas mais
inóspitas da revolta, do desânimo, da inquietude.
Elas parecem loucamente incompletas como sylvia
plath. Choram porque leram anna karenina, líquidas
como as memórias que dizem tornar a solidão
habitável. Por que escolhem pieter bruegel para a
capa dos seus livros?

À AT (autoridade tributária e aduaneira) ( Célia Moura )

 Meu primeiro cinto de ligas preto

minhas cuequinhas vermelhas de renda
a transbordar tesão,
meu véu, minhas luvas de cetim
o corpete de núpcias sorridente
e até os filhos que não pari!
Minha loucura
e todas as pérolas de nácar
meu corpo saciado de gozo
incenso e manjericão,
nenúfares em valsa de masturbação.
Oferto à mais vil e imunda puta
coberta de esmeraldas
a fome e a angústia.
O sangue a fervilhar até secar
mas jamais a alma
jamais a consciência!