05/05/2025

FOME ( Sílvia Maria Ribeiro )

Não creio que amar desejosamente seja privilégio da juventude ou próprio dela.

o tesão pontual
aquela disposição para viver na horizontal
Amor é amor
sexo é sexo
mas vamos combinar
amor & sexo é um pote de ouro no fim do arco-íris; É possível dada a oportunidade
sociedade
construção
O chakra aberto e a ciência dos riscos
o comprometimento com o sentimento
eterno enquanto durar
Não é fracasso de não acontecer
Ser eterno e sincero não é só querer
Acontece de ser
de não se manter
Mudar dá trabalho
No modo soneca vai que desperta
Ou segue Resignado, hibernado
E em novos ciclos desce pro play underground
já que não é mais jovem
resignação, palavra tranca caminhos
na contramão da pulsão da vida
Dá parafuso, pano pras mangas é pá virada confusão
dor de cabeça
de consciência
sudorese febre e fome
Dá vontade de dar e receber
Comer até saciar, gozar
Chama fumaça chama fumaça
Só chama
o bom e velho tesão
se fincar pós-juventude
fixa
Faz bem pra pele
Escutei do amor atenta
Só fala
Sabe tudo
SusPirei
Agora vai

Gilka Machado. In: "Mulher Nua", 1922.

 Amo o Inverno assim triste, assim sombrio,

lembrando alguém que já não sabe amar;
e sempre, quando o sinto e quando o espio,
julgo-te eterizado, esparso no ar.
Afoita, a alma do Inverno desafio,
para inda te querer e te pensar
para gozá-lo e gozar-te, que arrepio!
que semelhança em ambos singular!
Loucura pertinaz do meu anelo:
emprestar-te, emprestar-lhe uma emoção,
pelo mal de perder-te e querer tê-lo
Amor! Inverno! Minha aspiração!
quem me dera resfriar-me no teu gelo!
quem me dera aquecer-te em meu Verão!

Por Hilda Hilst

 É rígido e mata

Com seu corpo-estaca.
Ama mas crucifica.

O texto é sangue
E hidromel.
É sedoso e tem garra
E lambe teu esforço

Mastiga teu gozo
Se tens sede, é fel. 

Tem tríplices caninos.
Te trespassa o rosto
E chora menino
Enquanto agonizas.

É pai, filho e passarinho.

Ama. Pode ser fino
Como um inglês.
É genuíno. Piedoso.

Quase sempre assassino.
É Deus.

H – ( Andrea de Barros )

 Tenho andado mais atenta aos corredores.

Túneis, meias luzes, vãos,
batentes de portas,
Intermitências, intervalos, entremeios.

Nos espaços entre dois corpos, onde caem as vírgulas, os hífens,
Pontos de interrogação.

Talvez… depende… quase… provável…

Estou viva no surdo estalido antes da explosão.

DEPOIS ( Sonia Nabarrete )

 Após a paixão,

Momento ameno
Feito flor no sereno
Orvalhamos
Amanhecemos

PALAVRA DE ORDEM ( Sonia Nabarrete )

 Mais amor, mais atitude

Na cama, nada de fast-food

UAU! ( Sonia Nabarrete )

 Delírio momentâneo

Paraíso instantâneo
O orgasmo simultâneo

GANGORRA ( Sonia Nabarrete )

Vida de amante
É oscilante
Um dia Jardim do Éden
No outro, inferno de Dante

OFERENDA ( Sonia Nabarrete )

 A cama se fez tenda

Um ritual de oferenda
Falo e fenda
Em harmonia
Soneto sem emenda
Só pura poesia

ODE À SIRIRICA ( Sonia Nabarrete )

 No ritmo, tempo e intensidade desejados

É o gozo garantido, com direito
A ohs, uis e ais sussurrados ou sustenidos
É o prazer escancarado, em resposta
a todos os broxas, brutos e apressados
Liberta as fantasias mais secretas
Enquanto explora o meio das pernas
Num impulso instintivo, soberano
Momento eu me amo
Hora de desbravar um imenso
Repertório, de dar inveja às
Meninas da Major Sertório
E fazer a homenagem da vez
A alguém que de fato conheceu
Ou a um improvável Romeu
Dá para comer o Chico, o
Caetano, o Antonio Bandeiras
Todos na mesma esteira
E ainda a Gisele e a Madona
Quando o desejo vem à tona
Dá para pegar todo mundo junto
Dá para comer até defunto
O limite é a imaginação
Quando os dedos entram
Em ação e nunca é preciso
Pedir: por favor, não pare não

Por Florbela Espanca

 Até agora eu não me conhecia.

Julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.
Mas que eu não era Eu não o sabia
E, mesmo que o soubesse, o não dissera
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim… e não me via!
Andava a procurar-me – pobre louca! –
E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca!
E esta ânsia de viver, que nada acalma,
É a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma

Por Hilda Hilst

 É meu este poema ou é de outra?

Sou eu esta mulher que anda comigo
E renova a minha fala e ao meu ouvido
Se não fala de amor, logo se cala?
Sou eu que a mim mesma me persigo
Ou é a mulher e a rosa que escondidas
(Para que seja eterno e meu castigo)
Lançam vozes na noite tão ouvidas?
Não sei. De quase tudo não sei nada.
O anjo que impulsiona o meu poema
Não sabe da minha vida descuidada.
A mulher não sou eu. E perturbada
A rosa em seu destino, eu a persigo
Em direção aos reinos que inventei.

04/05/2025

LÍLIA TAVARES, in Nas Mãos A Sede Dos Pássaros

Há mulheres que deixaram a natureza entregue

a si própria.
Já raramente se ocupam dos vasos e do jardim.
Todas as coisas parecem estar à solta, numa
liberdade sem limites.
A tesoura de poda, as pás, a vassoura há muito que
pingam gotas de ferrugem encostadas a uma porta
em cujas ferragens a erosão do tempo passou sem
piedade.
Elas não são indiferentes nem despreocupadas.
Saem à rua para ver o sol nascente. Para verem o
afogueado crepúsculo espreitam pelos vidros da
janela na parede oposta à porta.
Não as vêem sair com crianças.
“São mulheres sozinhas, sem futuro”, murmuram.
De facto, recebem poucas visitas e em datas certas.
Nesses dias mostram o seu riso através do cabelo
desgrenhado, sem corte.

Quem não lhes conhece o íntimo, chama-lhes
mulheres que têm um quarto só para si.
Moram numa casa de paredes cheias de livros,
folhas, tinteiros, lápis e uma máquina de escrever. A
cadeira da secretária é velha mas conhece-lhes os
contornos do corpo. Têm um candeeiro aceso junto
da pilha de livros e papéis rasurados.
Como virginia woolf, tiveram de fazer escolhas.
Aniquilaram o fantasma da fada do lar.
Sentam-se cada dia à secretária e deixam-se levar
por personagens, amores e enredos que escrevem
com os dedos nas teclas da máquina. Por vezes
param e anotam umas palavras e riscos numa folha.
Preparam um chá e voltam a escrever.
Uma certa manhã prendem o cabelo num rolo,
passam pelo rosto um creme guardado e tiram do
roupeiro o fato de saia e casaco, os sapatos e a mala.
Enlaçam no pescoço um lenço mais colorido.
Abrem a porta e levam na mão uma capa de pele
preta muito volumosa. Sobem para um autocarro na
paragem. Sentam-se apreensivas. Não sabem se
desta vez vão ler o seu nome na capa do livro. Estão
fartas de assinar os livros com george, joão e outros
nomes.

LÍLIA TAVARES, in Nas Mãos A Sede Dos Pássaros

 Há mulheres que esperam cravadas numa

concha de solidão.
Mordem as mãos para se sentirem vivas.
Descem à intimidade do mar para compreender a
melancolia dos peixes.
Como veias das mãos, abrem canais no arvoredo
para se ocultarem.
Amiúde sentem temor, pois é no coração que
guardam um a um os seus medos.
Como corujas, cerram os olhos longamente. Têm a
visão audaz das aves nocturnas.
Misturam-se em tramas de inquietude para tomar o
gosto do espanto das sombras.
Retornam à claridade e expelem do corpo, lugar
desabitado, todas os fragmentos da
inutilidade do tempo.
Sobem torres.
As mulheres.

LÍLIA TAVARES, in Nas Mãos A Sede Dos Pássaros

 Elas escrevem.

As palavras oferecem-lhes
o dorso como gatos
a dormir enroscados.
Elas dão-lhes carinhos imensos:
pêlo aqui,
lambidela nos dedos
ronrons que sossegam.
As palavras das bocas dos
gatos não começam por “h”,
não precisam do “til “
ainda menos de maiúsculas.
São maciez preguiça completude
proximidade segredo.
Palavras escritas com gatos
são metáfora
e transferência
num pulo
e
adormecem.

Lília Tavares, in Nas Mãos A Sede Dos Pássaros

 Há mulheres que, ávidas,

lêem em bibliotecas ou pedem
emprestados às amigas livros
ilícitos
vedados.
Escondem beauvoir
na gaveta da roupa íntima.
"Se leres, tornas-te vadia
suja,
vais saber demais e
os homens detestam
mulheres insolentes e altivas.
Vais desnortear-te."
O futuro era só mais uma história que
lhes tinham ensinado a ler
entre silêncios, filhos,
fome de desejo.
Elas escolhem denegar o passado.
O presente não tem de ser o fruto
de uma árvore fragmentada.

02/05/2025

Por Célia Moura

Este amor que me rasga

de lés a lés
tem odor a terra acabada
de fecundar
traz-me nos olhos
um oceano,
e são minhas as mãos esplêndidas,
abertas, loucas
no bocejar das colinas.
Este amor que de noite
se entrelaça em teus dedos
cintilantes de menino
sabe-me a amoras
e vinho moscatel
porém é absinto.
Em tuas mãos
me doei menina,
adormeci mulher.
Essas mãos de archote
que me incendiaram a alma,
o pensamento
os dias
e os seios fartos.
Este amor
onde perdendo me fui encontrando
em troca de nada
sempre me rasgando
devorada numa angústia infinita de mim,
devastada em ébrias promessas
abandonando-me em todos os risos
num pedestal fecundado de miséria,
este palco imenso da (tua)vida
onde me ergueste,
onde morri.
É por aí que eu vou meu amor
alheia, anónima
indiferente ao voo das aves
ao odor da terra em minhas mãos
e ao pranto de Deus.

ORAÇÃO ( Girlene Verly )

 com

a
cor
o
corpo
se
veste
com
a
dança
o corpo
se
despe
goza e reza
expressa
a alma

AINDA QUE SEJA PRIMAVERA ( Girlene Verly )

 o meu corpo e o seu corpo

estranho território a conhecer
domar e explorar
feito de broto e casca
águas e fluidos
ganhou decreto
margem fronteira

tornou-se (des)controle
medo, ameaça
ainda hoje
o corpo
mesmo o meu, é um outro
eu
o desconhecido marginal
mas a dança o cobre e queima
avança
e floresce
floresce e assusta
ainda que seja
primavera

CORPO CÊNICO ( Girlene Verly )

 em cena

o corpo
tempo espaço
o corpo-eixo
o corpo feito
encaixe e desencaixe
em cena o corpo
que encena
a cena, a foto, o ato
o corpo que acena
a pronúncia, a queixa
a denúncia
a extensão do que diz
(mas não fala)
a palavra

01/05/2025

MEU QUINTANA ( Manuel Bandeira )

 Meu Quintana, os teus cantares

Não são, Quintana, cantares:
São, Quintana, quintanares.

Quinta-essência de cantares.
Insólitos, singulares.
Cantares? Não! Quintanares!

Quer livres, quer regulares,
Abrem sempre os teus cantares
Como flor de quintanares.

São cantigas sem esgares.
Onde as lágrimas são mares
De amor, os teus quintanares.

São feitos esses cantares
De um tudo-nada: ao falares,
Luzem estrelas luares.

São para dizer em bares
Como em mansões seculares
Quintana, os teus quintanares.

Sim, em bares, onde os pares
Se beijam sem que repares
Que são casais exemplares.

E quer no pudor dos lares.
Quer no horror dos lupanares.
Cheiram sempre os teus cantares

Ao ar dos melhores ares,
Pois são simples, invulgares.
Quintana, os teus quintanares.

Por isso peço não pares,
Quintana, nos teus cantares.
Perdão! digo quintanares.

BRISA ( Manuel Bandeira ) in Belo, Belo; 1948

 Vamos viver no Nordeste, Anarina.

Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.
Deixarás aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.

Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor também.
Mas lá tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina.

O VINHO DE HEBE ( Raimundo Correia )

 Quando do Olimpo nos festins surgia

Hebe risonha, os deuses majestosos
Os copos estendiam-lhe, ruidosos,
E ela, passando, os copos lhes enchia.

A Mocidade, assim, na rubra orgia
Da vida, alegre e pródiga de gozos,
Passa por nós, e nós também, sequiosos,
Nossa taça estendemos-lhe, vazia.

E o vinho do prazer em nossa taça
Verte-nos ela, verte-nos e passa.
Passa, e não torna atrás o seu caminho.

Nós chamamo-la em vão; em nossos lábios
Restam apenas tímidos ressábios,
Como recordações daquele vinho.

DESDÉM ( Florbela Espanca )

 Andas dum lado pro outro

Pela rua passeando;
Finges que não queres ver
Mas sempre me vais olhando.

É um olhar fugidio,
Olhar que dura um instante,
Mas deixa um rasto de estrelas
O doce olhar saltitante…

É esse rasto bendito
Que atraiçoa o teu olhar,
Pois é tão leve e fugaz
Que eu nem o sinto passar!

Quem tem uns olhos assim
E quer fingir o desdém,
Não pode nem um instante
Olhar os olhos d’alguém…

Por isso vai caminhando…
E se queres a muita gente
Demonstrar que me desprezas
Olha os meus olhos de frente.

PRELÚDIOS-INTENSOS PARA OS DESMEMORIADOS DO AMOR (Hilda Hilst) in Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão

 I

Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me agora, antes
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.

II

Tateio. A fronte. O braço. O ombro.
O fundo sortilégio da omoplata.
Matéria-menina a tua fronte e eu
Madurez, ausência nos teus claros
Guardados.

Ai, ai de mim. Enquanto caminhas
Em lúcida altivez, eu já sou o passado.
Esta fronte que é minha, prodigiosa
De núpcias e caminho
É tão diversa da tua fronte descuidada.

Tateio. E a um só tempo vivo
E vou morrendo. Entre terra e água
Meu existir anfíbio. Passeia
Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:
Noturno girassol. Rama secreta.

III

Contente. Contente do instante
Da ressurreição, das insônias heróicas
Contente da assombrada canção
Que no meu peito agora se entrelaça.
Sabes? O fogo iluminou a casa.
E sobre a claridade do capim
Um expandir-se de asa, um trinado

Uma garganta aguda, vitoriosa.

Desde sempre em mim. Desde
Sempre estiveste. Nas arcadas do Tempo
Nas ermas biografias, neste adro solar
No meu mudo momento

Desde sempre, amor, redescoberto em mim.

IV

Que boca há de roer o tempo? Que rosto
Há de chegar depois do meu? Quantas vezes
O tule do meu sopro há de pousar
Sobre a brancura fremente do teu dorso?

Atravessaremos juntos as grandes espirais
A artéria estendida do silêncio, o vão
O patamar do tempo?

Quantas vezes dirás: vida, vésper, magna-marinha
E quantas vezes direi: és meu. E as distendidas
Tardes, as largas luas, as madrugadas agônicas
Sem poder tocar-te. Quantas vezes, amor

Uma nova vertente há de nascer em ti
E quantas vezes em mim há de morrer.


PORQUE TE AMO ( Joaquim Pessoa )

Estou mais perto de ti porque te amo. 
Os meus beijos nascem já na tua boca. 
Não poderei escrever teu nome com palavras. 
Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me. 

Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto. 
Quero a tua boca aberta em minha boca. 
E amo-te como se nunca te tivesse amado 
porque tu estás em mim mas ausente de mim. 

Nesta noite sei apenas dos teus gestos 
e procuro o teu corpo para além dos meus dedos. 
Trago as mãos distantes do teu peito. 

Sim, tu estás em toda a parte. Em toda a parte. 
Tão por dentro de mim. Tão ausente de mim. 

E eu estou perto de ti porque te amo.

(Joaquim Pessoa, in "Os Olhos de Isa")  



MARIA AFONSO, in CORPO IRREPETÍVEL

 desce desse filamento astral e vem

velar-me da sede das vertigens
como se os lábios se abrissem à poeira
noctívaga e cedessem às linhas
das minhas mãos
serei o teu vestido a vela
de um corpo feito navio
o fogo ateará a boca das bússolas
e todos os cantares
na penumbra
dos faróis
não vês o mar que arde por entre os
ângulos das palavras?