07/06/2025

Paulo Leminski sem título, do livro Distraídos Venceremos.

  o amor, esse sufoco,

agora há pouco era muito,
agora, apenas um sopro
ah, troço de louco,
corações trocando rosas,
e socos.

O AMOR O ANJO E O CÃO ( Yvette K. Centeno )

(para a Ana Maria Pereirinha, 2020)

Havia amor por ali,

uma entrega tão subtil
que não podia ser dita
cortava a respiração
só podia ser vivida
em segredo
e só de dia
quando o Anjo os protegia

Ainda assim havia a noite,
a floresta e o jardim,
um cão amigo a brincar
um céu com novas estrelas
acesas para o amor
que seria amor sem fim
(trad.: Matteo Pupillo)

UM DIA, DIZ A MULHER ( Yvette K. Centeno )

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05/06/2025

FEMININA ( Mário de Sá-Carneiro )

Eu queria ser mulher pra me poder estender

Ao lado dos meus amigos, nas banquettes dos cafés.
Eu queria ser mulher para poder estender
Pó de arroz pelo meu rosto, diante de todos, nos cafés.
«Eu queria ser mulher pra não ter que pensar na vida
E conhecer muitos velhos a quem pedisse dinheiro -
Eu queria ser mulher para passar o dia inteiro
A falar de modas e a fazer "potins" - muito entretida.
«Eu queria ser mulher para mexer nos meus seios
E aguçá-los ao espelho, antes de me deitar -
Eu queria ser mulher pra que me fossem bem estes enleios,
Que num homem, francamente, não se podem desculpar.
«Eu queria ser mulher para ter muitos amantes
E enganá-los a todos - mesmo ao predilecto -
Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto.
Com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes.
Eu queria ser mulher para excitar quem me olhasse,
Eu queria ser mulher pra me poder recusar.

03/06/2025

CONDIÇÃO PARA TE AMAR ( Mírian Freitas )

 Só conseguiria te amar se pudesses acariciar minha penumbra

com as mãos flamejantes a iluminar meu íntimo
e plantasses crepúsculos à minha porta
debruçasses a luz sobre os degraus da existência arbórea do corpo,
acenasses aos meus barcos que ancoram portos sem ninguém.

Amaria teu rosto se me sorrisses até as funduras da solidão
precipitasses teu desejo molhado de tinta
nos instantes umedecidos pela bruma matinal
com a palavra seiva
sem definições ou constantes arguições
sem necessidades ilegítimas e pedintes
ou mesmo sem o rosto de vítima
de um Van Gogh enlouquecido.

UMA CAMINHADA NOTURNA ( Ana Martins Marques )

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01/06/2025

ESCRAVA DO DESEJO ( Rayana de Carvalho)

 Escrava

do seu desejo
a infernizar

Priva-te o sono
desejo vazio
preenche-te dele
para te esvaziar

Desejo escravo
do teu pecado
a te assombrar

Lança mão
daquilo que é mais sagrado
que é a tua liberdade
de ser livre de amar

Vazio escravo
deseja o desejo
de ser escravo
de te desejar.

LOLTUN, A FLOR DE PEDRA ( Giovanna Benedetti )

 Como vulvas na rocha

como gargantas sensuais
como espeluncas vazias
funis subterrâneos
ventres escavados
de adegas rupestres
como cópulas
para furto de lubricidades
como covas profundas
de quartzo e silício
abrigos
túneis
silenciosas catacumbas
até os ímãs saxões
do penhasco vivo
blindadas de ferrugem
e fermentos
dos mármores
com sibilinas artérias
como veias recônditas
por onde circula o tempo
por debaixo
da terra
como sótãos imensos
por onde passa a sombra
a luz das entranhas
em seus antigos
cálices de ossos
e de água
como gretas de mina
onde suam os cristais
de carvão e quartzo
e destroncam
os abismos
de esmeraldas
como hortos proibidos
como uma recorrente
rachadura
do espelho:
Loltun
como uma flor consciente
imaginada em pedra

RETRATO DA ARTISTA QUANDO POETA ( Rita Santana )

 Não domo vontades, nem febres!

Tenho afazeres, azares, palavras para cuidar.
Haja acuidade e ternura para o plantio!
Lavro o terreno ao escuso, ao oriundo, ao ignavo,
Ainda assim, surpreendo-me diante das falências,
Diante do vazio que se instala próspero
Quando me olho ao espelho e vejo desolação,
Maleitas, desavenças agudas, pneumonias.

Espero a ebulição das sementes, aquieto-me.
Recuso-me aos espólios da cegueira, do infortúnio.
Aprofundo-me em especulações sobre mim mesma:
Aconselho-me, aventuro-me aos homens,
navego em peitos de oceanias e queimo-me, recolho-me.

Homenageio a Morte em meus versos de rudeza
Pois já estive com Ela, já bordamos juntas
Em outro poema. Aprecio a sua fidelidade.
Espero a sua visita final para a afinação dos remos.

Há lavas que cobrirão toda a Aldeia,
Mas eu estou aqui e tento a plenitude da Existência.
Sofro do gozo estético! Como uma Entidade,
Refestelo-me com pequenas suítes para piano,
Com a sofisticação das violetas – tão sanguíneas!

A Criação exige-me Inteireza e Coragem
No embate com a voracidades das gentes.
Venho de terras partidas por águas,
São muitos os ilhéus que projetaram
Minha solidão insular, minha verve de magmas.
Estou aqui, nua e exposta ao meu Tempo:
Sou Poeta!

SOU TUA E SENHORA ( Rita Santana )

 Sou tua e Senhora

Partilho somente contigo [quando a ti amo]
Veemência e êxtase.
Apenas contigo penetro à santidade
E faço-me a Escolhida.
A Tua. A do teu Tempo.
Aquela que em segundos ínfimos
É o espelho e a combustão.

Não há paradoxo em te querer:
Quero-te, liberto-me!
Eis o desafio de declamar para rochas:
Existir, apesar da força das correntezas
E dos mugidos dos ventos.
Apartar-me de ti para sobreviver ao Amor
E à desilusão de cada pacto rompido.

É meia-noite e trinta e sete minutos!
Lá fora, cavalos relincham.
A lua partida ao meio ameaça fulgor e quietude.
A realidade é uma invenção fantástica!


OUTRAS ! ( Rita Santana )

 Busco abius no Outono,

Enquanto bordo rubras ofensas
Na bandeira dourada de minha Pátria.
Descubro os tons dos desencantos
Nas águas marinhas, na movimentação das nuvens,
Nas hordas em que cavalgo em meus sonhos.
Teço avenças com a Morte
E com as enfermidades que acometerão
A minha sólida condição de mulher.

Quando pensas em mim, Amado,
Não pensas em mim!
Pensas naquela que te agrada:
A da brandura, dos silêncios.
Aquela do recolhimento e da aceitação dos dias.
Amacias tua vaidade,
Teu falo (memorável membro!).
Sequer percebes meus acometimentos,
Minha condição de desejosa,
Minha insanidade de paisagens.
Há uma Outra que nada entre corais,
Coleciona amanheceres e planta aromas na varanda.
Perfumo minhas mãos com manjericão, tomilho e calêndulas.
Aprendo desimportâncias a cada dia: outras nascem em mim aos borbotões!

A SOLIDÃO ( Rita Santana )

 A solidão líquida dos tempos

Inunda-me de vastidões e incertezas.
Ouço o tremular do teu pensamento,
Homem de Outrora,
Quando, em desvios, encontra-me
Inoportuna e exata, diante de ti:
Já não quero nadas! Estou nua, livre,
Sem desejos e morta.
Já não sou aquela que juntos miramos.
Outra mulher vive meus dias.
Desabitei-me!

Extraviei ossos e sussurros.
Comi morangos frescos e aprendi o sabor das maçãs.
A cada dia, distancio-me da que fui,
Distancio-me de mim e das ilusões.

A rotunda fincada nas ruas
Dispersa a profusão dos nossos desenganos:
Perdemo-nos entre pampulhas, papoulas,
Catedrais e cátedras.

O azul penetra-me!
Já não feneço de amor,
Existo, e habito o fremir do horizonte.

Alinhavo cordilheiras em papiros
E os banho em pigmentos rubros.
Faço um varal de manuscritos
E grito teu nome em meus pesadelos.
Ainda deténs em mim a palavra primordial,
Ainda solfejo teu nome ao amanhecer.

Miríades de saudades explodem
Em meus abismos seculares.

Atravessa-me a Solidão do silêncio!
Maior que a solidão que atinge a pele,
É aspirar o sopro da solidão da Existência.
Existir é banir-se de si mesma e da humanidade
A fim de construir muralhas, pontes e mezaninos.
Existir é ser arquiteta de si mesma,
Refazer-se inteira com madeira de demolição.
Tornar-se Outra é testemunhar a ressurreição
Da carne.

SÔFREGOS SARGAÇOS ( Rita Santana )

 És o sopro que invade meu peito

Quando morro por dias.
Apenas ama e alinhava os desencantos,
Enquanto sofro perdas.
Aceito o tempo da sapiência,
Que às vezes não chega jamais!
Cirze, como fêmea, rasgos e danos.

Espanto-me com a tua incapacidade
De reatar tecidos rasurados pela dor.
Sou feita de desforras, de jades partidas,
Feita de desagravos que me afastam das gentes.
Não profano o que amo: amor é-me sagrado!
Lanço-te ao Mar dos Sargaços, entanto,
Dada a gravidade da contenda.

Há deusas soprando árias
Em invólucros da nossa alma de amantes.
Acalma teus vulcões, acalma tua erupção!
Um sopro que amenize a febre,
Sussurro de soprano em teu ouvido.
Transformo-me em Circe, se te quero cordeiro ou porco!

Todo o gozo é preparação precípua para a morte.
Iniciação e ofego das nossas núpcias.


SINESTESIA I ( Rita Santana )

                     

                            
                                         “Enlouqueci, um girassol nasceu em minha boca!”
Affonso Manta

Ainda é Estio em minhas manhãs!

Luas nascem cobertas de mistério.
Esmero-me na palidez do Homem Amarelo,
Investigo a natureza da Estudante Russa.
E colho algodões de Anita Malfatti.
Debruça-se sobre mim a Vertigem do mundo.
Vetustos já não alimentam meus sonhos.
É cálido o Amanhã!

Vivo de contemplações do trigo, dos aromas,
Saboreio maçãs, mordo morangos
E chupo – com voracidade – pinhas.
Tudo é gozo! Tudo é revelação do Mistério!
Aprofundo-me em especulações estéticas!
Fundo é o amor impresso nas canções do Brasil.

Ouço a ópera da paisagem:
O verde me penetra,
A imensidão já é o meu sistema linfático.
Na revelação dos pássaros,
Tudo em mim é intensidade!

Há ênfase e voragem em minhas mãos,
Na apreensão obstinada do Todo.
Perceber é uma prece.
Planto flores na varanda,
Apenas para testemunhar a natividade da Beleza,
O Recolhimento da Calêndula!
Fui atingida pela sinestesia diante da vida,
E, por isso, sobrevivo à Solidão
E faço dela minha Companheira na Existência.

Mais que tudo: preciso da Solidão para os meus abismos!
E já nem sei o que é estar Só:
Tenho sabido sobre mim e sobre minhas ânsias.
Realizo desejos miúdos.

Contemplo mais as nuvens!
Aproximo-me dos sabores, dos cupuaçus,
Apenas pela proximidade com os mistérios.
Ando ávida da visão! Ando bêbeda dos dias!
Já não me bastam as palavras:
Preciso plantá-las, sabê-las!
Há aquarelas em mim
E infinitos atravessam meu corpo.

Rompi o pacto com a infelicidade!
Só faço avenças com o riso e o prazer!
Vivo do hedonismo.
Há uma via - láctea em minhas camadas,
Meus poros são partes do infinito.
Os astros me habitam e explodem diariamente em minhas veias.
Sinto em mim o minério e a vegetação do Espaço!
Clívias tomam meus ovários e já invadem as trompas. 

DOURADO TRANSPARENTE ( Rita Medusa )

 dourado transparente

Doutorado na Babilônia
Arquitetura do sexy pero macabro
Tem fome nos meus pulsos
Explode de raiva
Quando mordo a boca
Suavemente
e ela pula no meu colo
e morde meu pescoço
diz que me ensina na porrada
caso eu não obedecer
gosto de deixar
que ela se sinta no controle
até os demônios precisam de descanso
finge que deixa a toalha cair
enquanto tomo um café
quer ser possuída na cozinha
faço a vontade dela
como uma devota perturbada
eu vim te servir
falo tragando um cigarro
escovo seus longos cabelos
e começo a me esfregar na sua pele
os seios conversam em línguas
violentamente macias
o canto da carne
me entranha
a febre do contato
o esconderijo que só uma mulher pode te dar
sem seu amor eu seria naufrágio
me faça taça transbordante
me encarna mais um instante
para todo a eternidade
eu te quero com maldade
com loucura triunfante
seja minha mulher
venha morar dentro de mim
pode quebrar tudo que quiser
pode atirar nos livros
cavar um poço
com você não tem jogo
serás minha
ou nada

ELA VEIO VESTIDA DE SEDA ( Rita Medusa )

 ela veio vestida de seda

como eu insisti
Apaguei o cigarro no uísque dela
rasguei a parte de cima do vestido
trajada com uma agonia de desejo
eu sabia que não havia lingerie
disse em sussurros

dança pra mim
encaixa teu corpo nos meus dedos
Deixa tua umidade me ensinar
a dançar

Mulheres!
eu mataria tudo por elas
pela minha futura esposa
minhas filhas, minhas netas
minhas putas, minhas irmãs
minhas leitoras, minhas musas
minhas reclusas
que nunca sonharam ser minhas

Dançávamos eu atrás dela
Segurando suas tetas e me encaixando onde inventava
parecíamos um quebra cabeça
descobrindo ligações descabidas
eu sorvia o licor do pescoço dela
como um vampiro recém apresentado
a uma fome escrava
me perdi beijando o corpo dela
me arranhava as costas enquanto eu era dominada com o aroma dela
de amora apocalíptica
e dama da noite
Com a cabeça no meio das pernas dela
eu juraria fidelidade doentia eterna
ao mais desesperado penar
com uma dose cavalar de confusão cotidiana
Gozou na minha boca
fugiu, se vestiu, se maquiou
– até a próxima querida!
– não caia nas escadas com esses saltos canalhas.
– não, eu volto pra ter fazer miseravelmente feliz.

quero gritar : não volte nunca mais
mas ela é minha heroína
Banquete dos sentidos
corre perigo comigo
se uma única noite pudesse
deitar a cabeça no colo dela
chupando os seios de sua imensidão
eu poderia dizer que sim
para o crime mais medonho

OBSTINADA ( Rita Medusa )

 obstinada

a mente executa o transporte
do sangue
rumo ao sexo
e parece que o que rodeia
respira úmido e quente
e a flor se abre
para receber o delírio
e dançar com o vento
posso ser teu pólen?

o tremor anuncia
que se vai desmaiar
de tanto desejo
só quero estar
de quatro pro mar
e não sentir nada
além do impacto
da compassada penetração
auroras nervosas
infiltram minha carne
rumores de um gozo celestial
a mais doce
e louca navegação
será dentro das nossas veias
deito a língua na cabeça rosada
e passeio com volúpia
Fecho os olhos pra te ver
posso ser teu eclipse?

não me faça correr
ou vou deslizar no mel
que pulsa na minha buceta
não vá devagar
quero meter
até sangrar
minha pele agoniza
corpos macios entrelaçados
gemidos interrompidos
pela respiração ofegante
o pau crescendo
na minha mão
como um milagre
que inunda a cama

dos que queimam
nem tão
lentamente assim