08/09/2025

GOTA DE SANGUE ( Ângela Ro Ro / 05.12.1949 * 08.09.2025)

 Não tire da minha mão esse copo

Não pense em mim quando eu calo de dor
Olha meus olhos repletos de ânsia e de amor

Não se perturbe nem fique à vontade
Tira do corpo essa roupa e maldade
Venha de manso ouvir o que eu tenho a contar

Não é muito nem pouco eu diria
Não é pra rir mas nem sério seria
É só uma gota de sangue em forma verbal

Deixa eu sentir muito além do ciúme
Deixa eu beber teu perfume, embriagar.
A razão, porque não volto atrás?
Quero você mais e mais que um dia.

Não tire da minha boca esse beijo
Nunca confunda carinho e desejo
Beba comigo a gota de sangue final

06/09/2025

VÊ SE ME ESQUECE ( Alice Ruiz )

Já que você não aparece,

venho por meio desta
devolver teu faroeste,
o teu papel de seda,
a tua meia bege,
tome também teu book,
leve teu ultraleve
carteira de saúde,
tua receita de quibe,
de quiabo, de quibebe,
do diabo que te carregue,
te carregue, te carregue
teu truque sujo, teu hálito,
teu flerte, tua prancha de surf,
tua ideia sem verve,
que nada disso me serve
Já que você não merece,
devolva minhas preces,
meu canto, meu amor,
meu tempo, por favor,
e minha alegria que,
naquele dia,
só te emprestei por uns dias
e é tudo que me pertence
PS: Já que você foi embora por que não desaparece?

Alice Ruiz, in "Pelos Pêlos", editora Brasiliense, 1984.

 já estou daquele jeito

que não tem mais concerto
ou levo você pra cama
ou desperto

MOÇA POLIDA(Alice Ruiz)In "Navalha na Liga", edição ZAP, 1980.

 sou uma moça polida

levando
uma vida lascada

cada instante
pinta um grilo
por cima
da minha sacada

SIM ( Charles Bukowski )

 não importa com quem eu esteja

as pessoas sempre dizem:
você ainda está com ela?
meus relacionamentos duram em média
dois anos e meio.
com guerras
inflação
desemprego
alcoolismo
jogatina
e o meu próprio nervosismo degenerado
acho que me saio bem o bastante.
gosto de ler os jornais dominicais na cama.
gosto de fitas cor de laranja amarradas em volta do pescoço do gato.
gosto de dormir apertado contra um corpo que conheço bem.
gosto de papeletas pretas no pé da minha cama
às 2 da tarde.
gosto de ver como ficaram as fotos.
gosto que me ajudem a suportar os feriados:
Independência, Dia do Trabalho, Halloween, Ação de Graças,
Natal, Ano-Novo.
elas sabem como remar por essas correntezas
e têm menos medo do amor do que eu.
conseguem me fazer rir onde comediantes profissionais
fracassam.
há a caminhada na rua para comprar um jornal juntos.
há muita coisa boa em estar sozinho
mas há um estranho calor em não estar sozinho.
gosto de batatas vermelhas cozidas.
gosto de olhos e dedos melhores que os meus que consigam
tirar nós de cadarços.
gosto de deixá-la dirigir o carro em noites escuras
quando a estrada e o caminho me deram nos nervos,
o rádio do carro ligado
nós acendemos cigarros e conversamos sobre coisas
e de vez em quando
ficamos em silêncio.
eu gosto de grampos de cabelo em cima de mesas.
eu gosto de conhecer as mesmas paredes
as mesmas pessoas.
não gosto das brigas insanas e inúteis que sempre
ocorrem
e não gosto de mim nessas ocasiões
não dando nada
não entendendo nada.
gosto de aspargos cozidos
gosto de rabanetes
gosto de cebolas.
gosto de levar meu carro num lava-jato.
gosto quando tenho vitória de dez em aposta de seis
por um.
gosto do meu rádio que fica tocando
Shostakovich, Brahms, Beethoven, Mahler.
gosto quando há uma batida na porta e
é ela.
não importa com quem eu esteja
as pessoas sempre dizem:
você ainda está com ela?
devem pensar que eu as enterro
em Hollywood Hills.

04/09/2025

DESFEITA ( Iara Maria Carvalho ) In Saraivada, Sarau das Letras, Mossoró, 2015

 cortei cabelo,

unhas
e todos os carboidratos.

os meus pulsos,
porém,
ainda estão intactos.

Por Halina Poswiatowska. Tradução de Magdalena Nowinska. De Mais Uma Lembrança, 1968

 a minha sombra é uma mulher

descobri isso na parede
ela sorria com a ondulação das linhas
e o pássaro do quadril, de asas encolhidas,
cantava no galho do sorriso

árvore em flor
repleta de papagaios verdes
pendurados pelas asas
uma laranja madureza dourada
o sol brilha nas gotas
na chuva
árvore estreita e nua
meus lábios partidos os meus seios

a lua crescente dos meus cílios cintilou
e apagou-se
quando você apagou a chama do fósforo
e apoiou nos meus ombros as suas mãos
a minha sombra foi uma mulher
antes de desaparecer

Por Halina Poswiatowska. Tradução: Magdalena Nowinska; De Ode Para As Mãos; 1966

 sempre quando quero viver grito

quando a vida me deixa
agarro-a
falo — vida
não me deixe ainda

a mão quente dela na minha mão
os meus lábios perto dos lábios dela
sussurro
vida
- como se a vida fosse um amante
que quer me deixar -

penduro-me no pescoço dela
grito

morrerei se você me deixar
De Ode Para As Mãos (1966)

Por Neide Archanjo, In Todas as Horas e Antes – Poesia Reunida A Girafa, São Paulo, 2004

 Penso partes de um corpo:

os pés tocando seixos
as costas carregando ventos.
Entra na água
e sua respiração é a de um nadador
atravessando uma gruta claríssima
repetida de anzóis.
Vai a braçadas
abrindo um cerne encarnado.
Não é por acaso
que falo de um corpo
preenchendo este espaço
Ele está aqui vivo e distante
irredutível pensamento
que ao ser escrito
torna-se esplendidamente concreto.

EXEMPLO ( Wislawa Szymborska ) Tradução: Regina Przybycien

 Uma ventania

à noite arrancou todas as folhas da árvore
exceto uma única folhinha
deixada
para se balançar solo em um galho nu.

Com este exemplo
a Violência demonstra
que, sim —
gosta de brincar de vez em quando.


ENCOMENDA ( Cecília Meireles )

 Desejo uma fotografia

como esta — o senhor vê? — como esta:
em que para sempre me ria
com um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia.
Não... Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.

VIVER VERÁ ( Nic Cardeal )

 Dizem que viver é verbo intransitivo,

autossuficiente,
não pede qualquer complemento,
mas em mim se esvazia
— sozinho não sobrevive —
pede água, casa, comida,
amor, amigos, poesia,
loucura, sonhos, contrastes,
primaveras acesas,
réstias de outonos,
chuvas passageiras,
algumas lágrimas,
alegrias inteiras,
muitos versos,
objetos diretos, indiretos,
controversos.

Viver é verbo imperativo,
hiperativo,
de fazer profundidades na alma da gente
— até que finalmente
seja gasta a carne,
seja fraca a mente,
nossos corpos sejam depostos,
devolvidos como sementes
ao canteiro de obras
de um mundo quase indecente.
Quem viver
verá
— transitivamente.

LINGUAGEM ( Nic Cardeal )

 Se queres fazer alguma alteração 

na palavra dita,
canta-a,
faz dela uma fotografia
em sépia,
recorta-a com a tesoura da tua voz,
estende-a qual fio condutor
de saudades nunca esquecidas.

Porém, não te esqueças:
depois de pronunciada,
uma palavra
vira abismo
— de um lado,
o que se disse,
do outro,
talvez perto ou distante,
quase longínquo,
um mundo inteiro traduzido
em olhos de espanto,
céu noturno esburacado de estrelas,
compreensões tão tardias.

CHUVA LENTA (Gabriela Mistral) Tradução de Ruth Sylvia de M. Salles

Esta água medrosa e triste,

como criança que padece,

antes de tocar a tierra,

desfalece.

Quietos a árvore e o vento,

e no silêncio estupendo,

este fino pranto amargo,

vertendo!

Todo o céu é um coração

aberto em agro tormento.

Não chove: é um sangrar longo

e lento.

Dentro das casas, os homens

não sentem esta amargura,

este envio de água triste

da altura;

este longo e fatigante

descer de água vencida,

por sobre a terra que jaz

transida.

Em baixando a água inerte,

calada como eu suponho

que sejam os vultos leves

de um sonho.

Chove… e como chacal lento

a noite espreita na serra.

Que irá surgir na sombra

da Terra?

Dormireis, quando lá foram

sofrendo, esta água inerte

e letal, irmã da Morte

se verte?

PUDESSE EU ( Sophia de Mello Breyner Andresen )

 Pudesse eu não ter laços nem limites

Ó vida de mil faces transbordantes
Pra poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes.

Célia Moura, in "Terra De Lavra"

 Aguardo-te amada minha

enquanto possuir a bênção de Osíris entre a púbis e o umbigo.
Esta herança pobre de ninguém que eventualmente irá perpetuar toda a dor,
todas as cerejas e o licor,
num local onde nunca me dei.
Perfídia minha,
esta alma infinitamente sozinha.
Doem-me todas as vozes que ouço e os silêncios mais ainda!
Se escrevo é por esta tristeza de ser.
Se existo e escrevo, apelo unicamente à salvação de mim.
Mas tudo o que sinto é este cansaço
maior ainda que todos os fardos, angústias ou paixões longínquas.
Tudo o que possa escrever é maçã assada no forno
ou mais uma taça de espumante refasteladamente bebida por qualquer um!
Tudo tão repetido até à exaustão
e eu irremediavelmente perdida, desmemoriada como um abacate sem caroço
ou água de coco em lata de supermercado.
Se ainda canto é tentativa de libertação dessa louca que tomou posse do meu cérebro revestido a jasmim
enquanto te vejo chegar suave,
e de um só gole me bebes a alma pela raiz.
Eis-me liberta!
Finalmente liberta de toda a miserável matéria e deste corpo.
Olho para baixo e contemplo a alegria da planície prenhe de verde e papoilas.
Uma criança gargalha em seu baloiço,
rebola com um pequeno rafeiro preto,
mancha branca no peito
naquele local mágico
onde tudo não passa de um ciclo demasiado perfeito.
A liberdade é um hino que rodopia nos meus cabelos.
Estremeço só de olhar o mundo.

03/09/2025

ORGASMO ( Alberto da Cunha Melo )

 Todo corpo, em seu esplendor,

divide em duas esta vida,
mas este êxtase existe mesmo
para ocultar uma descida

da carne, no único momento
em que do cosmo é instrumento;

truque do eterno é todo amor:
toca por baixo o fogo alto
que aquece o sonho ao sol se pôr,

porque logo devolve aos dois
o nada de antes e depois.


 

FRUTAL( Arabella Salaverry Pardo )Tradução: Elys Regina Zils

 Nasci nos trópicos

sou frutal sem estações
Me torno verão pela pura vontade dos meus sentidos.
O corpo
se impregna com o cheiro da tangerina.
Pressinto em cada peito
um sabor diferente: o direito é maracujá
e o esquerdo uma leve lembrança de carambola

Nos braços
e principalmente nas axilas
se esconde
um aroma de manga colapsada.
Na curva das nádegas
há um sabor residual de graviola madura.

O mamão se acomoda
na suavidade redonda do ventre.
Pelas minhas coxas sobe apressada
a presença indiscutível do caimito
e remata no ponto exato do meu sexo
onde creio que convergem todos os sabores

Mas é só nos entardeceres no mar
com som de conchas
onde recobro a festa frutal
da minha presença.

02/09/2025

CANÇÃO DE GAROTA AFRICANA ( Arabella Salaverry Pardo )

 Eu tinha uma canção

tinha uma flor esplêndida
eu tinha uma anêmona
que também era flor da paixão

Eu tinha uma flor de suculentas pétalas
tinha uma delicada borboleta
dormindo entre as coxas

Eu tinha uma andorinha
tinha um grilo cantando
uma abelha
tinha uma pombinha
sonhando entre as coxas

Mas um dia
Me acertou um pássaro
de desconsolado voo

A tradição era navalha.
de um turbulento golpe
silenciou meu grilo
a borboleta abortou seu voo
desapareceu a fruta
a canção se inundou em meu sangue

Agora tenho um pouco de nada
morrendo entre minhas coxas
Tradução: Elys Regina Zils


 

MAPA ( Rebeca Bolaños ) tradução: Floriano Martins

 Destilo meus líquidos

quando entras em meu território,
lua seca,
astro humano,
maná.
Me exploras bem dentro
e na terceira hora
acabas em meus lábios.
Teu beijo em minha boca,
tua mão em meu peito,
teu corpo em meu atlas.

ANGÚSTIA ( Rebeca Bolaños ) tradução: Floriano Martins

 Há dias como hoje,

que tenho urgência de sexo
em lençóis limpos.
Me dá vontade
de abrir em duas as portas
e de repente entrar na casa
em que vivem meus desejos
quando sais em turnê
em seus velhos caminhões.
Mas hoje eu ficarei
como em outras vezes,
detrás da porta fechada,
sem poder inundar minha urgência,
fora da festa
e da vida.

TRAVESSEIRO ( Laís Chaffe )

 Em ti repouso o que em mim mais pesa

e segues leve.
 
Como levas?
 
Confio-te sono e ânsias.
Entrego a nuca à tua calma de lavanda.
 
De onde a trazes?
 
Enfronhado em linho, acolhes exaustão,
fantasmas.
Pergunto-me e não respondes:
que queres deles
e dos murmúrios e gemidos
que ouves sem susto?
 
A quem pertence essa saliva?
 
Quem se molda a quem
nos mil silêncios de uma noite?

LIÇÃO ( Geir Campos )

 Sai desse livro, meu filho, e dá um pulo cá fora:

olha esta rua
onde boiada não passa
                            nem passa boi
mas moreninha do cabelo cacheado
passa e passa moreno e passa preta
e passa preto e passa branca e passa branco
numa lição de cores brasileira
humanizando o azul da tarde franca.
Agora vai naquele muro e caligrafa este exercício:

"Abaixo o Homem Sanguessuga do Homem!"

Depois, querendo, volta a ler teu livro.

CENA LEGISLATIVA ( José Paulo Paes )

 Primeiramente, condenou-se a pomba

Por amar uma paz entorpecente
Onde o leão perde a juba e a hiena os dentes.

Depois, condenou-se no cordeiro
A perigosa dúvida que o anima.
O rio dos lobos corre sempre para cima.

Condenou-se a cigarra, finalmente,
Pelo crime de cantar nas horas vagas
Que a faina das formigas não tem paga.

Consolidada a ordem, festejou-se.
E o leão rugindo, a hiena rindo,
Os trabalhos foram dados por bem findos.

VEM DE LONGE ESTE RITMO ( Adalcinda Camarão )

 Ouves aquela música rolando alvoroçada e crespa?

Parece um olho dágua brilhando, tremendo,
escorrendo pelas pedras polidas dos barrancos
Água morena, morna, idílica, marchando pelos caminhos,
molhando os pés dos viajores,
fecundando as terras enxutas,
tateando ao pé dos troncos idosos
pela preguiça das noites mudas que não vivem?
ouves aqueles sons?
Aquelas vozes que vêm sofrendo na meditação dos séculos,
que vêm sonhando no ascetismo do tempo e das horas,
que vêm brincando na corda de luz dos dias?
Ouves aquela música? Tu não te lembras de nada?
Tu não te lembras de mim quando fui ela
e tu foste o entusiasmo creador de quem a escreveu?
Tu não te lembras, depois desse cântico de beduíno,
que fizeram de mim, que me tornei mulher,
que fizeram de ti pra seres o meu destino?

PAISAGEM MARAJOARA (Adalcinda Camarão)

 Da migração úmida e mansa do crepúsculo

ficou um olor de maresia brava,
lambendo o limo lodoso das raízes.
A lua, ciumenta e oca,
encolhida e acuada,
espia desconfiada,
pelas frestas da mata,
a terra grávida de sombras e silêncios
O vento é um passarão agourento
voando por sobre os contornos ondulantes
da grande ilha supersticiosa
de litorais iluminados
pelos olhos da boiúna.

SARAVÁ, POETINHA ( Flora Figueiredo )

 Porque a terra está úmida

Porque o céu está limpo
Porque o óvulo vinga
Porque o fruto é vermelho
Porque o favo respinga
Porque a mata respira
Porque o mar espreguiça
Porque a lua é castiça
Porque o barco navega
Porque o vento não nega
Porque o corpo está ávido
Porque o sonho está crédulo
Porque o beijo está cúpido
Porque o mágico é lúdico.
E olha que hoje nem é sábado…

01/09/2025

DO QUE SE FALA ( Olga Savary )

 Em minha poesia

não é só natureza a natureza.
Ao dizer mar
não é só de mar que estou falando.
Falo do falo; o mais, pretexto
quando é à água que me rendo
no mais alto ponto do orgasmo,
no auge mais auge a que chegar se eu pude
em honra da água — mas água do corpo —
quando é à água a se alude.


 

PELE ( Olga Savary )

 Um favo de mel na boca,

um torrão de sal na anca

roubam para a pele

o calor de animais

simples e vorazes, soltos

como numa catedral,

 

pele de asno,

pele de mel,

pele de água.



 

ODE DA PELE ( Ana Salomé )

 arrepia

só de pensar que respiras