28/01/2026

NÃO CREIO NESSE DEUS ( António Aleixo )

 I

Não sei se és parvo se és inteligente
Ao disfrutares vida de nababo
Louvando um Deus, do qual te dizes crente,
Que te livre das garras do diabo
E te faça feliz eternamente.

II
Não vês que o teu bem-estar faz d'outra gente
A dor, o sofrimento, a fome e a guerra?
E tu não queres p'ra ti o céu e a terra.
Não te achas egoísta ou exigente?

III
Não creio nesse Deus que, na igreja,
Escuta, dos beatos, confissões;
Não posso crer num Deus que se maneja,
Em troca de promessas e orações,
P'ra o homem conseguir o que deseja.

IV
Se Deus quer que vivamos irmãmente,
Quem cumpre esse dever por que receia
As iras do divino padre eterno?
P'ra esses é o céu; porque o inferno
É p'ra quem vive a vida à custa alheia!

27/01/2026

PAGANÍSSIMA TRINDADE ( Mônica Ribeiro )

 Falo a partir do umbigo mas

quando peço: “fale, umbigo!”
ele se fecha
teimoso
falso profundo
sequer um centímetro de breu

Teme mostrar-se
o ele-eu

Quando o guardo sob tecidos
ele resolve escapar
e diz: “agora eu falo!”
No fundo de seu fundo
não quer calar sua-minha voz

Pensamento-voz-sem-timbre
Dedos escrevendo
Palavra grafada
Eis
nesta simultaneidade
minha Paganíssima Trindade

OCEANO ( Ana Cecília de Sousa Bastos ) in Contemplação do Mar; Confraria do Vento, Rio de Janeiro, 2022

 Somos oceano nas extremidades.

Contemplo minhas unhas,
conchas do mar.
Tanto brilham essas partes!
Fecham extremidades,
ilusória completude.

Somos oceano,
peixe e cautela,
flutuação e peso em luta na água,
correnteza e vida,
ave e liberdade.
E nada quero dizer do amor.

Alheio-me, abstraio-me,
ânsia e vertigem,
sonho profundidades inauditas,
mergulho.

ORNITÓLOGA ( Adriane Garcia )

 Vai saber

O que passa no pássaro
Eu que não sei nem de mim
Me dou ares de laboratório e
Lupas, tubos de ensaio
Tenho uns
Pinçamentos estranhos

Cato amostragens
Para ver se me explicam
Voos
(eu que
nunca saí do chão
quando saí
era sonho)

Me intrigam os olhos pretinhos
Paradinhos
Dos pássaros mortos

Desde criança eu reparo
Se a morte é sempre fria.

HARAS ( Adriane Garcia )

 Crio

Ninguém me diz o quê
Nem como

Domo
Meu cavalo eu quero aqui
No arreio

Mas gosto
Que ele corra
Desembestado

Até o meu
Assovio.

O AMOR DISPARADO (Adriane Garcia ) in Garrafas ao Mar, Penalux, Guaratinguetá - São Paulo, 2018.

 Pressente-se o perigo

O coração acelera
E ganha vantagem

O médico o chama
De taquicardia
E o cérebro sabe

Daqui pra frente
Quem é que manda.

O MÉTODO DA MULHER DE LÓ (Adriane Garcia ) in A Bandeja de Salomé, Caos & Letras, 2022.

 Quem olhasse para trás se tornaria

Uma estátua de sal
Foi o dito e
Todos sabiam

Como qualquer um sabe
Que cortar o pulso

Como qualquer um sabe
Que tomar veneno

Como qualquer um sabe
Que se enforcar na corda

Como qualquer um sabe
Que pular de um penhasco

Mas me tornar uma estátua de sal
(perdoem-me por não aguentar mais, minhas filhas)
Me pareceu mais rápido
Menos doloroso
Do que acompanhar aquele homem
Vendo o que eu via
Todos os dias
Dentro da minha casa.

26/01/2026

LEVA - ME ( Alfonsina Storni ) – Tradução: Nelson Santander

 Quero esquecer que vivo: leva-me a algum lugar;

Ata-me a tua alma; a alva a brilhar.

Toma-me pelas mãos como em um branco casulo
E mostra-me aos deuses com glória e com orgulho.

Leva-me! É uma noite muito negra e sombria!
A morte caça pelo mundo tal qual harpia.

Faz-me esquecer o muito que me pesa nos ombros
Esta carga pesada de pesados escombros.

Liberta-me! Em tuas mãos quero pesar menos
Do que pesam – luzes – os pensamentos serenos.

Mais leve do que o ar, do que o ar muito mais leve
Como bolha de espuma a voar na manhã breve.

Espuma, brisa, aroma, casulo, flor, fragrância:
Leva-me para sempre sem rumo nem distância.

ODE SOBRE UMA URNA GREGA (John Keats ) – Tradução: Augusto de Campos

 I

Inviolada noiva de quietude e paz,
Filha do tempo lento e da muda harmonia,
Silvestre historiadora que em silêncio dás
Uma lição floral mais doce que a poesia:
Que lenda flor-franjada envolve tua imagem
De homens ou divindades, para sempre errantes.
Na Arcádia a percorrer o vale extenso e ermo?
Que deuses ou mortais? Que virgens vacilantes?
Que louca fuga? Que perseguição sem termo?
Que flautas ou tambores? Que êxtase selvagem?

II

A música seduz. Mas ainda é mais cara
Se não se ouve. Dai-nos, flautas, vosso tom;
Não para o ouvido. Dai-nos a canção mais rara,
O supremo saber da música sem som:
Jovem cantor, não há como parar a dança,
A flor não murcha, a árvore não se desnuda;
Amante afoito, se o teu beijo não alcança
A amada meta, não sou eu quem te lamente:
Se não chegas ao fim, ela também não muda,
É sempre jovem e a amarás eternamente.

III

Ah! folhagem feliz que nunca perde a cor
Das folhas e não teme a fuga da estação;
Ah! feliz melodista, pródigo cantor
Capaz de renovar para sempre a canção;
Ah! amor feliz! Mais que feliz! Feliz amante!
Para sempre a querer fruir, em pleno hausto,
Para sempre a estuar de vida palpitante,
Acima da paixão humana e sua lida
Que deixa o coração desconsolado e exausto,
A fronte incendiada e língua ressequida.

IV

Quem são esses chegando para o sacrifício?
Para que verde altar o sacerdote impele
A rês a caminhar para o solene ofício,
De grinalda vestida a cetinosa pele?
Que aldeia à beira-mar ou junto da nascente
Ou no alto da colina foi despovoar
Nesta manhã de sol a piedosa gente?
Ah, pobre aldeia, só silêncio agora existe
Em tuas ruas, e ninguém virá contar
Por que razão estás abandonada e triste.

V

Ática forma! Altivo porte! em tua trama
Homens de mármore e mulheres emolduras
Como galhos de floresta e palmilhada grama:
Tu, forma silenciosa, a mente nos torturas
Tal como a eternidade: Fria Pastoral!
Quando a idade apagar toda a atual grandeza,
Tu ficarás, em meio às dores dos demais,
Amiga, a redizer o dístico imortal:
“A beleza é a verdade, a verdade a beleza”
— É tudo o que há para saber, e nada mais.

OS DEGRAUS ( Mário Quintana )

 Não desças os degraus do sonho

Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos – onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo.

QUANDO MEU CORPO E MINHA CABEÇA ( Anabel Torres ) –Tradução: Carlito Azevedo

Quando meu corpo e minha cabeça

começaram a arder e a provocar incêndios,
minha mãe, como bombeiro enlouquecido,
me perseguia por toda a casa.

Apontava contra mim, implacável
o poderoso jorro de seu medo
e tratava de me enterrar.

Assim cresci.

Meu pai era diferente.

Defendia diante de mim, por igual, e com igual veemência e convicção
as vantagens do gelo e do fogo.

Quando meus incêndios chegavam
a seu máximo ponto de fusão
se afastava, discreto.

Se fracassavam,
me sugeria novos lugares.
Me dava pistas sobre alguns incêndios que ele havia provocado.
Me falava das maravilhas da sombra
ou me trazia fósforos.

Se estava longe, mandava longas cartas,
celebrando a vida, a palavra,
nossa comum piromania.

E sempre acrescentava esse p.s.:
“Anabel, o dólar é estritamente para sorvetes ou fósforos”.

Quando meu pai temia por minha segurança
– e sem dúvida temia, pois conhecia não só meu amor pelo fogo
mas minha propensão às queimaduras –
o fazia sozinho, em sua casa.

Minha mãe, criada em San Benito, residente
do purgatório
bela
como um cesto de tangerinas
quando não era seu dia de turno,
com seu sorriso de cerejeiras e pássaro em seus dias livres,
ao morrer me amou por sobre todas as coisas:
não permitiu que eu herdasse sua mangueira.
Devolveu-a à sua família,
à casa de onde veio intacta.

Meu pai, ao morrer, há três anos, continuou morrendo.
Logrou tão dificilmente morrer, que inclusive
desde então
já saiu ileso de alguns atentados.

Amava tanto a vida. Era tão vigoroso
frente ao frio.
Era tão rico em incêndios.

ASTÉRION ( Mía Gallegos ) tradução de Floriano Martins

 Há algo que, muito além

de tua força,
me fascina.

Caminho sobre teus peitos de pedra.
És da cor de polvo e lagartixa.
Envolvo-me em tua língua de mistério.
Tal é a tua forma de estar
próximo do sol.
Estranhas marés matinais te acodem,
onde tudo escurece e se bifurca,
Astérion meu, único.
Quem és?
Touro ou homem?
O ausente derramado
entre infinitos lacres.

Eras o pé, o próprio ar
da primeira manhã
em que os homens lavraram
teu corpo de ausências.
Estou tão longe de tua pele.
Mas que recanto há em ti
onde eu possa dormir
e ser tua pálpebra
e a forma mais funda do silêncio?

És homem ou besta?
És um homem,
um rouxinol,
ou talvez um pirralho
entre lençóis de açúcar.

Astérion meu, único, de mil olhos de agulhas.
Tuas mãos são múltiplos do sol.
Ontem cacei uma borboleta
e era catorze vezes harpa e movimento.
um e um não são dois,
são o universo e o nada.
as portas de todo fim
e do infinito.

Eu me adentro em ti.
Através de teu corpo
ainda permanecem os redutos do sol.
És oculto e quente.
Eu me enredo no corredor
de tua língua de vidro.

Ascendo até as tuas mãos.
És um espelho
de outro que antes foste.
E eu tenho medo de me perder em ti,
no fio
que são todas as portas
e a escuridão.

Astérion meu, tão alto e pagão.
Eu me adentro em teu corpo empedrado, altivo
– não tenho escapatória –
Mal suporto teu clima de asfixia.
Porém és uma almofada dulcíssima,
Astérion meu, Astérion.


PSIQUE ( Mía Gallegos ) tradução de Floriano Martins

 Ela sonha com um homem que a veja dormir.

Não lhe sorri
para não distraí-lo de sua contemplação.

A amada, de tantos sonhos, dorme
e se torna metáfora de pó.
Ele a contempla
e imagina uma palavra para nomeá-la.
A encerra entre sua voz e a guarda para si.

Ariadna? Ele indaga.
Ela treme em suas almofadas.

Psique?
Ela então derrama umas gotas de sua lâmpada de azeite.
Ela o unge sobre sua fronte.
Beija-o e se vai.

DEPOIS DO AMOR ( Mía Gallegos ) tradução de Floriano Martins

Depois do amor,

depois do amor posto sobre o amor,
como altivos vulcões que se queimaram,
como fluxo de lava,
como astros que sucumbiram,
resto em mim,
no centro de minha pele e em meu vestido,
e aprecio a luz
de um amanhecer que rompe calmo,
aberto, perfeito,
como a curva de um anjo quando passa,
quando atravessa.
Eu te esqueci, digo
e minto, minto a mim mesma,
já não creio nas palavras ou nas roupas.

E brota então
uma ácida ternura
que saboreio com a língua cansada,
ferida,
com uma língua que ausculta,
que devora a sós
o esquecimento, a acidez, a lembrança
de uma noite lunar,
de abraça-me muito e não te vás nunca,
de raras geometrias,
onde teu corpo era brioso e longo
como um estreito caminho que não consegui cruzar.

O amor passou, digo a mim mesma
e agora não minto.
Saboreio minha ácida ternura
e descreio das palavras,
e assim permaneço: cética e calada,
para o caso de algum dia os verbos
nascerem em mim como frutas,
para o caso de subitamente nascerem
como astros as palavras,
e a metade de meu rosto se vire em busca de ar,
ou volte o rosto a ser intacto e fale,
e eu fale.
Agora nada mais eu sou
com minha ácida ternura e minha garganta
e todas as minhas lembranças.

Porém o amor se foi.
Foi como a noite se vai.
Eu te recordo.
E isto me parece que para esta vida
já é bastante.

A VIDA ANTES DA VIDA ( Paola Valverde Alier ) tradução de Floriano Martins

 Os rios perpetraram a casca das árvores

a voz da selva
                                permanecia satisfeita

Forte como o jaguar
                      valente como a sucuri!

Antes de nascer
fui um pequeno botão de luz

Tomei a forma de uma cordilheira
explodi em tons de turquesa

e do sangue
armazenado no meu sexo
brotou
uma debandada de beija-flores

O fogo
era um fio costurado ao sol

O verde
não domava a chama

A mulher que protegia a tempestade
Deixou cair os raios
                 e se transformou em um pássaro


A MULHER ÍMPAR ( Paola Valverde Alier ) tradução de Floriano Martins

 Porque sou uma mulher ímpar

calço o número
das fechaduras proibidas
desato meu cabelo em plena chuva
e odeio açúcar no café

Eu me maquilo a sós para dançar comigo
detenho as horas e os caminhos
canto o silêncio das concubinas
sou seu prazer

reconheço a nudez nas palavras
gozo com elas
me prostro diante delas
com a ansiedade das cadeiras vazias
nas esquinas

Sou ímpar quando amanheço
ou choro
a ordem seria distinta
se eu não soubesse ignorar as regras

Por isto revivo a memória dos afundados
sou esse barco
não exijo salvação
muito menos naufrágios

Prefiro a água quente
para culminar com frio
e então sentir tudo
na curta eternidade dos peixes
que andam de um lado a outro
como se a primeira
viajassem pela última vez

O AMOR É DE BAMBU ( Paola Valverde Alier ) tradução de Floriano Martins

 Não existe nada mais forte do que este amor.

Seu corpo se dobra
e não se quebra.
Suas costelas forjam a cana
para nos alimentar;
sulcam o sal
os dentes assassinos

o vento sopra até a medula.
Traz areia nos olhos
para cegar
os videntes.
Traz espuma na boca
e flutua.
Flutua com a ponta erguida.
Desenha um anel na água,
um eco.

Mordo essa cana,
sua raiz convulsa
o fio de saliva
que sustenta o anzol.
Mordo as peras quando amadurecem.
Minha voz empapada em teu ouvido.

A pedra do silêncio
tropeça com este bambu.
Tomo a tua asa para cruzar a calçada.
Tomo a tua asa e vejo o tempo.
Choro em um pódio
Diante da realidade acobreada.
Choro e me esfumaço
como o valor sobre os lagos.

Sou a mulher que acreditou em uma debandada
e viu nos olhos de seu amante
a origem de um fogo.

DOIS POEMAS PARA A INSÓNIA(Eunice Odio) in Os Elementos Terrestres e Outros Poemas; Anjo Terrível, 2020. trad.:Luiza Nilo Nunes

 Hoje

como nunca,
Amado,
era a tua nuca suave,

e a tua face,
um quilómetro branco
que chegava pelo ares.

Hoje
como nunca,
Amado,

vão cerejeiras
à tua casa,

e por teu pescoço fazem
cruzeiros,
certos peixes rosados.

Eu,
entretanto,
observo a variação coral
dos radiogramas

e um rio inédito
escreve
os seus molhados rituais
no teu cabelo.

*

Ver-te
é não ter perfume

Mas perder-te ao vento.

Ver-te é já não saber ver
as purezas do jasmineiro.

Ver-te é unir o céu
de quatro pontos distantes.

Amor,

Emigrante azul,

Secreta rosa dos poços,

Ah!

Que dulcíssima fábula
de açucenas extraviadas,

Que anjos de quatro
sílabas
entre os espasmos das mãos,

Amar-te
é já não ter no espírito
invólucro para o teu corpo.