8 mil terminações nervosas ali
70% das mulheres sem conseguir chegar lá
"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
8 mil terminações nervosas ali
70% das mulheres sem conseguir chegar lá
Despida do seu manto virginal,
Maria deita-se mole na baia.
Alegrias, as desmedidas.
Dores, as não curtidas.
Não tens corpo, nem pátria, nem família,
No tempo em que eu tinha quintal
Não ter morada
A solidão é um navio.
Nesta noite neste mundo
O amor não é tudo: não é comida nem bebida
Um compasso de espera
A minha Casa é guardiã do meu corpo
A criatura humana deixa-se encantar pelo colorido da cena
Cativa de rituais em demanda irrefletida de gozo
Teus vocábulos são lobos vociferando nos vãos de minha vigília.
Deixe-me amar-te
Quando a morte chegar a esta casa
não ameaces o silêncio com o choro convulso.
Vá até o pomar e colhe frutos
aperta entre os dentes as peras
e os figos
mentaliza todas as flores amarelas
acaricia a lágrima da ausência
deita-te sobre a relva e lembra-te dos pássaros
e do arder do vento
entre as árvores e as águas
que se repetem.
Auðumbla das divinas tetas
deusa primeva dessa latitude
que seus quatro rios de leite
abençoem os meus córregos
que nunca me falte a fonte
na curva noturna entre os
os meus bicos e os lábios dele.
Na mitologia nórdica, Auðhumbla era a vaca alimentadora, a Mãe Terra. Amamentou o deus Ímer e lambendo o sal do gelo desenterrou e deu vida a Búri.
Flores cadentes
estrelas perfumadas
Rimbaud na mente
a última serpente
de um jardim sem éden
música transparente
desmaio dócil
na bruma, na brisa branca
no leito de espuma
na nuvem de bruços
(deito e me cubro
com colcha de lírios
que pegam fogo)
febril a fronha
desfaleço e peço
água da fonte
para a minha fronte
A rosa púrpura
colheu o inverno
na fenda fulva
a lua em casulo
pulsa
nenúfar de neve
a vulva
antiga jóia
antes rubra
Sentia a borboleta
de asas de fogo
a esvoaçar e pousar
por entre as pernas
na rosa de carne
que principiava
a entreabrir seus lábios
de róseas pétalas
pingando mel
para que você sugasse
e minha alma
desmaiasse, debruçada
na varanda
de uma estrela cadente
porque explodiam sóis
sobre um planeta novo
Repara: tudo isto é erotismo.
A tua pele de livor e a sua lírica veloz,
a tua boca afeiçoada
ao gosto bíblico dos frutos,
os teus gestos onde incide a luz legítima das aves,
os teus ombros cortejados
pelas plumas da nudez,
o melancólico despir da tua carne nos espelhos.
Unhas sujas, mãos falíveis, golpes
húmidos de flancos e cabelos,
tudo isto, meu amor, exsuda sangue
e languidez,
exala aromas de suor e fruta escura,
apodrecida,
fruta adâmica e tocada pela língua viciosa.
É uma extrema vocação pornográfica,
repara:
um banho lúbrico e feroz
de onde emerges transformada,
ardendo nua para as coisas do espírito.
De Deus, da sua face hermafrodita,
do seu anjo palescente, do seu sexo sem pudor,
abarcarás a luz inteira:
tu, secreta e obscura pitonisa.
Há mulheres que são as últimas chamas a serem sopradas
Passarim quis pousar, não deu, voou