"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
15/07/2024
TURBA ( Maiara Gouveia )
Da saliva quente, o primeiro vulto.
Ao redor das omoplatas sibila o segundo.
Ascende da nuca.
Do baixo-ventre o terceiro pula.
Num volteio ímpar constrange a cintura.
No instante em que o quarto surge do artelho,
sob o frêmito, vem a turba.
Os olhos sucumbem nas dobras do corpo.
A língua, na frincha.
E a face turva.
DESENCANTO ( Maiara Gouveia )
As mesmices cotidianas desmoronam
quando estamos juntos.
Parece que o tempo para e averigua
que cintilamos de volúpia.
Consumidos pela alegria de trazer à tona
um prazer legítimo
que não se repete em mil eras.
De repente, depois da viagem,
voltamos a nos ver entre os limites das paredes:
nossos corpos não vêm mais com paisagens,
ou entre nuvens de luz furta-cor e néon.
Já não somos deuses.
SUSPIRO VERMELHO ( Maiara Gouveia )
DA ARTE DE SEDUZIR ( Maiara Gouveia )
A MARCA DAS ORIGENS ( Maiara Gouveia )
Deus despeja sua ira: o Corpo.
E toda vida se abre e tudo é possível.
Você abandona sua força no meu dorso,
e a marca das origens
vem ferir suavemente minha pele que brilha.
Não sou só o corpo nem só o corpo me habita.
Sou o que move o mundo e o seu canto,
o que me faz mulher e a sua fibra masculina;
alma que ultrapassa o sonho das partículas:
penetra mais fundo para senti-la.
Deuses bárbaros povoam as costelas.
Sereias minúsculas mergulhadas na vagina.
A mágoa de deus, oceano:
borboleta verde-azul que se debate infinita.
Seus músculos, o rosto, um coágulo
peixes sob o útero: a flor carnívora.
Sou novamente o corpo e além do corpo
a alma das partículas:
— Penetra mais fundo para senti-la.
EMBEBIDA ( Maiara Gouveia )
ORÁCULO DE OXUM ( Lívia Natália ) in Em Face dos Últimos Acontecimentos; Caramurê, Salvador, 2022
PURA GEOMETRIA ( Marize Castro )
A CARÍCIA PERDIDA ( Alfonsina Storni ) Tradução de Carlos Seabra
Sai-me dos dedos a carícia sem causa,
ARDOR ( Iracema Macedo ) In Lance de Dardos. Estúdio 53, Rio de Janeiro, 2000.
O RETORNO DE SATURNO ( Iracema Macedo ) In Lance de Dardos. Estúdio 53, Rio de Janeiro, 2000.
POEMA DO LOBO-DO-MAR ( Iracema Macedo ) In Lance de Dardos. Estúdio 53, Rio de Janeiro, 2000.
Como proteger-me desse lobo que vem vindo
O SAL DA TERRA ( Eugénio de Andrade )
Eram o sal da terra, as abelhas,
O OLHAR ( Eugénio de Andrade )
Eu sentia os seus olhos beber os meus;
O LUGAR MAIS PERTO ( Eugénio de Andrade )
O corpo nunca é triste;
UM NOME ( Eugénio de Andrade )
Di-lo-ei pela cor dos teus olhos,
PÁSSARO ( Cecília Meireles, "Retrato Natural", 1949 )
14/07/2024
MULHER ( Ângela Togeiro Ferreira )
Sou mulher,
sou todas as mulheres:
sou Afrodite, Amélia, Ângela, Eva, Diana, Joana,
Madalena, Maria, Raquel, Rita, Sara,
Salomé, Tereza, Vênus, Zênite.
Tenho na genética
a herança dos tempos,
que me dá todos os nomes,
que me tira todos os nomes,
quando me desdobro em outra mulher.
Nasci em todas as raças,
tenho todas as cores puras e miscigenadas.
Pratico todos os credos.
Nasci em todos os cantos deste planeta.
Vivi em todas as eras.
Registrei meus gritos em todos os rincões,
mesmo se expulsos da alma
no mais profundo silêncio.
Vim de todos os lugares,
nasci em berço de ouro, em choupana,
na rua, nas matas, hospitais, templos.
Fui vestida, fui enrolada,
despida, jogada.
Gerada num útero que me amou,
ou num que me recusou.
Pouco importa, se rica ou pobre,
se esculpida no Belo ou no Feio,
preciso cumprir meu destino,
meu destino de Mulher.
INFINITO EM NÓS ( Maria Augusta Silva )
Entre os novelos do caos e a fuga
REBIS (Natália Correa)
Oh a mulher como é côncava
de teclas ter no abdómen
de sua porção de seda
ser o curso do rio homem
Como é mina espadanar de água
na cama abobadada de homem
gargalhada de lustre se sentada
dique de nuvens estar de dólmen!
Oh o homem como é ângulo
aberto de procurar
o sítio onde nasce o ouro
na salmoura da mulher mar
como é cúpula de copular
nadador de braçadas de mirto
como é nado de a nada formar
o quadrado da mulher círculo!
Oh os dois como se fundem
na preia-mar dos lençóis
despidos como fogo e água
deus de dois ventres ferozes
e quatro olhos de fava!
MONTANHA (Maria Zabeleta/Maria Adelaide Ferreira Rodrigues)
Prenhe de raízes, de bagas, de grão
LÍRICA DO CIBORGUE ( E. M. de Melo e Castro )
o ciborgue habita
AMOR SAGRADO ( Isabel Wolmar )
Um luar tímido, pardacento
Fulminados por um raio incandescente
seus corpos uniram-se
como almas esfomeadas
dilatando o tempo num pulsar onírico.
Em vibrações de cristal fendido
gemidos cortaram a noite de mil olhos espantados
ao fundearem a âncora do prazer
bandos de aves marinhas soltaram voo
saudando a aurora que despontava.
GOSTO DE VER AS MINHAS MÃOS ( Isabel Meyrelles )
sonhar contigo,
sonhar os meandros
mais secretos
do teu corpo
floresta e armadilha,
fonte e bramido
Gosto de ver as minhas mãos
sonhar contigo,
entrelaçadas, adormecidas,
recriando o peito,
as espáduas, o ventre,
as coxas, o sexo,
amazônia interior
Gosto de ver as minhas mãos
sonhar contigo,
por vezes um único dedo
desenha no ar
os olhos, a boca, o cabelo,
estrela negra
que só eu conheço
Gosto de ver as minhas mãos
sonhar contigo,
sonhar esta travessia do espelho
de reflexos infindos
que é a minha recordação de ti.
Aliás, que outra coisa
podem elas fazer?





















