20/07/2024

BATAILLE ( Luiza Nilo Nunes )

 Repara: tudo isto é erotismo. 


A tua pele de livor e a sua lírica veloz, 

a tua boca afeiçoada 

ao gosto bíblico dos frutos, 


os teus gestos onde incide a luz legítima das aves,

os teus ombros cortejados 

pelas plumas da nudez,


o melancólico despir da tua carne nos espelhos. 


Unhas sujas, mãos falíveis, golpes 

húmidos de flancos e cabelos, 

tudo isto, meu amor, exsuda sangue 

e languidez, 


exala aromas de suor e fruta escura, 

apodrecida, 

fruta adâmica e tocada pela língua viciosa. 


É uma extrema vocação pornográfica, 

repara: 

um banho lúbrico e feroz 

de onde emerges transformada,

ardendo nua para as coisas do espírito.


De Deus, da sua face hermafrodita, 

do seu anjo palescente, do seu sexo sem pudor, 

abarcarás a luz inteira: 

tu, secreta e obscura pitonisa.

LÍLIA TAVARES, in Bailarinas De Corda, 2024

 Há mulheres que são as últimas chamas a serem sopradas

sempre que a noite entorpece os corpos.
São nas frias manhãs, a lenha para aquecer as paredes
adormecidas da casa. Desconhecem onde acorda
o calor dos seus braços que alimentam as bocas, estendem
as roupas, amassam a vida e o pão fresco com sorrisos.
Os dias não acontecem sem mulheres que têm na pele
a véspera do cio das abelhas.

18/07/2024

PASSARIM ( Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim )

 Passarim quis pousar, não deu, voou

Porque o tiro partiu mas não pegou
Passarinho, me conta, então me diz:
Por que que eu também não fui feliz?
Me diz o que eu faço da paixão?
Que me devora o coração..
Que me devora o coração..
Que me maltrata o coração..
Que me maltrata o coração..

E o mato que é bom, o fogo queimou
Cadê o fogo? A água apagou
E cadê a água? O boi bebeu
Cadê o amor? O gato comeu
E a cinza se espalhou
E a chuva carregou
Cadê meu amor que o vento levou?
(Passarim quis pousar, não deu, voou)

Passarim quis pousar, não deu, voou
Porque o tiro feriu mas não matou
Passarinho, me conta, então me diz:
Por que que eu também não fui feliz?
Cadê meu amor, minha canção?
Que me alegrava o coração..
Que me alegrava o coração..
Que iluminava o coração..
Que iluminava a escuridão..

Cadê meu caminho? A água levou
Cadê meu rastro? A chuva apagou
E a minha casa? O rio carregou
E o meu amor me abandonou
Voou, voou, voou
Voou, voou, voou
E passou o tempo e o vento levou

Passarim quis pousar, não deu, voou
Porque o tiro feriu mas não matou
Passarinho, me conta então, me diz:
Por que que eu também não fui feliz?
Cadê meu amor, minha canção?
Que me alegrava o coração..
Que me alegrava o coração..
Que iluminava o coração..
Que iluminava a escuridão..
E a luz da manhã? O dia queimou
Cadê o dia? Envelheceu
E a tarde caiu e o sol morreu
E de repente escureceu
E a lua, então, brilhou
Depois sumiu no breu
E ficou tão frio que amanheceu
(Passarim quis pousar, não deu, voou)
Passarim quis pousar não deu
Voou, voou, voou, voou, voou

15/07/2024

MARCIAL ( Maiara Gouveia )

 sugo

aflita e fluente 

o gosto firme do teu sexo



TURBA ( Maiara Gouveia )

Da saliva quente, o primeiro vulto.

Ao redor das omoplatas sibila o segundo.

Ascende da nuca.

 

Do baixo-ventre o terceiro pula.

Num volteio ímpar constrange a cintura.

 

No instante em que o quarto surge do artelho,

sob o frêmito, vem a turba.

 

Os olhos sucumbem nas dobras do corpo.

A língua, na frincha.

E a face turva. 



DESENCANTO ( Maiara Gouveia )

As mesmices cotidianas desmoronam

quando estamos juntos.

 

Parece que o tempo para e averigua

que cintilamos de volúpia.

 

Consumidos pela alegria de trazer à tona

um prazer legítimo

que não se repete em mil eras.

 

De repente, depois da viagem,

voltamos a nos ver entre os limites das paredes:

 

nossos corpos não vêm mais com paisagens,

ou entre nuvens de luz furta-cor e néon.

 

Já não somos deuses.


 


FETICHES ( Maiara Gouveia )

Olhos feito mãos dentro das coxas
as pupilas vibrantes entre as frestas
roçando o rendilhado branco
no meio túmido entre as pernas.

Ai, quanta deselegância
eu provocar tanto constrangimento!
mas depravada ainda sinto o grão prazer
daquele breve erguer das sobrancelhas.

SUSPIRO VERMELHO ( Maiara Gouveia )

I
Mulheres que saem da sua pele
retiram dos seios
vultos dilacerados
afogam os dedos
no fundo da carne

Mulheres que saltam dos seus poros
esvaem das veias

desfalecidas
as línguas estiradas
sob um suspiro vermelho

II
Verter amor na sede. Ferida no mar.
Cicatriz. A onda rude que me abate.
Ou não haver margem
para escapar.

Pleno deserto. Há flores de sangue.
Corolas. Mulheres líquidas
que esvaem.

DA ARTE DE SEDUZIR ( Maiara Gouveia )

EM DETALHES
perfumar o corpo jasmim
      e sândalo nos ombros nus
a cabeleira em desalinho
      se derramando a meia-taça
da peça íntima escolhida
      previamente exibe o contorno
robusto um decote preciso
      valoriza o colo e os seios
insinua o torneio das pernas
      na meia-calça cor de noite
o vestido justo elegância
      na curva dos cílios na sombra
dos olhos a prata dos brincos
      de argolas num salto a sandália
brilhando a fivela dourada
      destacando a graça singela
e espantosa dos tornozelos.

A MARCA DAS ORIGENS ( Maiara Gouveia )

Deus despeja sua ira: o Corpo.
E toda vida se abre e tudo é possível.
Você abandona sua força no meu dorso,
e a marca das origens
vem ferir suavemente minha pele que brilha.

Não sou só o corpo nem só o corpo me habita.
Sou o que move o mundo e o seu canto,
o que me faz mulher e a sua fibra masculina;
alma que ultrapassa o sonho das partículas:
penetra mais fundo para senti-la.

Deuses bárbaros povoam as costelas.
Sereias minúsculas mergulhadas na vagina.
A mágoa de deus, oceano:
borboleta verde-azul que se debate infinita.

Seus músculos, o rosto, um coágulo
peixes sob o útero: a flor carnívora.
Sou novamente o corpo e além do corpo
a alma das partículas:
— Penetra mais fundo para senti-la.

EMBEBIDA ( Maiara Gouveia )

E o nítido arranjo
dos lábios, um a um,
e o despudor de vê-los
inocentes,
desnudos num
ir e vir medonho,
embebedada duma
realidade úmida
e carnuda, a coxa nua
roça pele contra pele, o quase
encontro e desencontro
de mim dentro daquela fresta
que ora sobra, ora se insinua
num abre e fecha; as pernas
embaraçadas sob a mesa,
a sombra trêmula
dos pés no chão, o torso
dele na camisa
entreaberta, a cabeleira
em caracol evoca
a noite estrelada
em Holanda brilhante
e turbulenta,
e o deleite ainda evola
feito de um gole de absinto.

ORÁCULO DE OXUM ( Lívia Natália ) in Em Face dos Últimos Acontecimentos; Caramurê, Salvador, 2022

O Rio foi feito para se beber.
De que servem os pés
a tatear Seu fundo macio?
Tolo ante o Mistério,
a interpretar com dedos cegos
o intangível lamoso de suas palavras?

A carne do Rio é feita de esperas.
Seu profundo é ancestral.
E memória assentada na inquietude escura.
As mãos do Rio madrugam silêncios
e lambem as pernas bonitas das lavadeiras,
lavando-se no sal de sua negrura.

O Rio, se aquietado nas Lagoas,
acha caminho de Mar
mordendo o útero da terra.
Vertido em Mar,
talha as embarcações
na salmoura das correntes,
cria fantasmas na beira,
tendo comido seus nomes.

Dizem que não se mede a profundidade de um Rio
com os dois pés.

Não mesmo.

O rio foi feito para se beber
      — com o corpo.
Foto: Erika Januza fez um ensaio inspirada em Oxum.

PURA GEOMETRIA ( Marize Castro )

Dos teus olhos
brotam lampejos de metáfora.

Não me espanto.

Corro o risco
de delinear essa zona.
Pura geometria.

Inevitavelmente pincelo teus labirintos
capturo tuas utopias.
Para tanta cumplicidade
não há mais limite.

Onde retomar o desejo?
Talvez reinventando o mistério
disperso na noite
peregrino de sexos, línguas e coxas.

Pensando em ti
às vezes de mim esqueço.

Retardo todos os regressos
e me limito
a sair do páreo, pela sombra.
Dualidade de quem jamais se encontra.


A CARÍCIA PERDIDA ( Alfonsina Storni ) Tradução de Carlos Seabra

 Sai-me dos dedos a carícia sem causa,

Sai-me dos dedos No vento, ao passar,
A carícia que vaga sem destino nem fim,
A carícia perdida, quem a recolherá?

Posso amar esta noite com piedade infinita,
Posso amar ao primeiro que conseguir chegar.
Ninguém chega. Estão sós os floridos caminhos.

A carícia perdida, andará… andará…
Se nos olhos te beijarem esta noite, viajante,
Se estremece os ramos um doce suspirar,
Se te aperta os dedos uma mão pequena
Que te toma e te deixa, que te engana e se vai.

Se não vês essa mão, nem essa boca que beija,
Se é o ar quem tece a ilusão de beijar,
Ah, viajante, que tens como o céu os olhos,
No vento fundida, me reconhecerás?

ARDOR ( Iracema Macedo ) In Lance de Dardos. Estúdio 53, Rio de Janeiro, 2000.

Um oceano inteiro não basta
para calar no meu peito
este murmúrio
de tantas formas de ardor
tantas formas de estar banida e só
e não há terra ou chuva
que arrefeça
esta porção de mim
que trago cálida
esta porção de mim
que trago presa
este meu coração cheio de vespas

O RETORNO DE SATURNO ( Iracema Macedo ) In Lance de Dardos. Estúdio 53, Rio de Janeiro, 2000.

Saturno veio colher as romãs
brasas no pomar
Vivo nua pela casa
leio cartas, fecho as portas
Saturno me espia pelas frestas
me sussurra nomes feios
vivo cheia de varais
lampiões e pássaros acesos
Parece que estou esticada entre dois abismos
entre dois homens
entre dois vendavais
Abro a janela
encaro o deus
me vejo nos seus olhos
me vejo dentro dele
Quando é que esses olhos irão me acordar?
Quando é que irão me levar?
Quieto no seu canto
Saturno me estende a mão e um cálice
e é como se a vida chegasse
silenciosa e indolor
como os milagres

POEMA DO LOBO-DO-MAR ( Iracema Macedo ) In Lance de Dardos. Estúdio 53, Rio de Janeiro, 2000.

 Como proteger-me desse lobo que vem vindo

Em que ilhas poderei me ocultar
em que barcos ousarei fugir
desse lobo que domina os barcos e as ilhas?

Reúno roupas negras faca escudo
De que adianta enfrentá-lo do meu jeito
se ele me despe do jeito que ele quer?

Como proteger-me dessas ondas
de prazer que ele traz em suas brisas
De que vale feri-lo com meus versos
De que vale me lançar ao mar

Se não há como esconder-me de mim mesma
do exílio que sinto quando fujo
da vontade que tenho de ficar?

O SAL DA TERRA ( Eugénio de Andrade )

 Eram o sal da terra, as abelhas, 

no ar leve 
e verde das tílias. 
Iam e vinham ligeiras como se a fadiga 
lhes fosse alheia: algumas 
regressavam à colina 
onde tecem a seda da sombra; 
outras caem a prumo, 
embriagadas com a violenta 
fragância das tímidas flores 
quase apagadas. 
Basta estar atento 
à luz oblíqua para descobrir 
como a perfeição é completa deste lado 
do mundo. Mas só eu agora 
de olhos fechados sigo o seu rumor.

O OLHAR ( Eugénio de Andrade )

 Eu sentia os seus olhos beber os meus; 

longamente bebiam, bebiam; 
bebiam 
até não me restar nas órbitas nenhuma 
luz, nenhuma água, 
nem sequer o sinal de neles ter chovido 
naquele inverno. 
Eugénio de Andrade, em "Rente Ao Dizer". 1992.

O LUGAR MAIS PERTO ( Eugénio de Andrade )

 O corpo nunca é triste; 

o corpo é o lugar 
mais perto onde o lume canta. 
É na alma que a morte faz a casa. 

UM NOME ( Eugénio de Andrade )

 Di-lo-ei pela cor dos teus olhos, 

pela luz 
onde me deito; 
di-lo-ei pelo ódio, pelo amor 
com que toquei as pedras nuas, 
por uns passos verdes de ternura, 
pelas adelfas, 
quando as adelfas nestas ruas 
podem saber a morte; 
pelo mar 
azul, 
azul-cantábrico, azul-bilbau, 
quando amanhece; 
di-lo-ei pelo sangue 
violado 
e limpo e inocente; 
por uma árvore, 
uma só árvore, di-lo-ei: 
Guernica! 
A Árvore de Guernica (em basco: Gernikako Arbola), símbolo das liberdades e autonomia tradicionais da Biscaia e, por extensão, dos bascos.

PÁSSARO ( Cecília Meireles, "Retrato Natural", 1949 )


Aquilo que ontem cantava 
já não canta. 
Morreu de uma flor na boca: 
não do espinho na garganta

Ele amava a água sem sede, 
e, em verdade, 
tendo asas, fitava o tempo, 
livre de necessidade.

Não foi desejo ou imprudência: 
não foi nada. 
E o dia toca em silêncio 
a desventura causada.

Se acaso isso é desventura: 
ir-se a vida 
sobre uma rosa tão bela, 
por uma tênue ferida.

14/07/2024

MULHER ( Ângela Togeiro Ferreira )

 Sou mulher,

sou todas as mulheres:

sou Afrodite, Amélia, Ângela, Eva, Diana, Joana,

Madalena, Maria, Raquel, Rita, Sara,

Salomé, Tereza, Vênus, Zênite.

Tenho na genética

a herança dos tempos,

que me dá todos os nomes,

que me tira todos os nomes,

quando me desdobro em outra mulher.

Nasci em todas as raças,

tenho todas as cores puras e miscigenadas.

Pratico todos os credos.

Nasci em todos os cantos deste planeta.

Vivi em todas as eras.

Registrei meus gritos em todos os rincões,

mesmo se expulsos da alma

no mais profundo silêncio.

Vim de todos os lugares,

nasci em berço de ouro, em choupana,

na rua, nas matas, hospitais, templos.

Fui vestida, fui enrolada,

despida, jogada.

Gerada num útero que me amou,

ou num que me recusou.

Pouco importa, se rica ou pobre,

se esculpida no Belo ou no Feio,

preciso cumprir meu destino,

meu destino de Mulher.


INFINITO EM NÓS ( Maria Augusta Silva )

 Entre os novelos do caos e a fuga

de quimeras
o meu corpo entrega-se ao teu corpo
— a memória
dos mitos do tempo é esta sede de ti
dupla das abelhas
na vontade de sorver a flor até o fim.
Dou-te então
o reino do amor, a origem do fruto
a claridade
da palavra. Tu conheces a porta
do jardim dos afagos
sabes as bodas da luas e das mãos
absolutas
— soltas as veias na madrugada
dos meus olhos.
E o infinito é anunciado em nós.
O carrossel lírico
do prazer leva diabos e deuses
ao mistério
do nosso acontecer. Somos a matéria
da árvore do paraíso
pedindo às feras a negação da morte
enquanto
toda a sinfonia for esta sede de ti
duplas das abelhas
na vontade de sorver a flor até o fim

REBIS (Natália Correa)

 Oh a mulher como é côncava

         de teclas ter no abdómen

         de sua porção de seda

         ser o curso do rio homem

         Como é mina espadanar de água

         na cama abobadada de homem

         gargalhada de lustre se sentada

         dique de nuvens estar de dólmen!

         Oh o homem como é ângulo

         aberto de procurar

         o sítio onde nasce o ouro

         na salmoura da mulher mar

         como é cúpula de copular

         nadador de braçadas de mirto

         como é nado de a nada formar

         o quadrado da mulher círculo!

         Oh os dois como se fundem

         na preia-mar dos lençóis

         despidos como fogo e água

         deus de dois ventres ferozes

         e quatro olhos de fava!


MONTANHA (Maria Zabeleta/Maria Adelaide Ferreira Rodrigues)

 Prenhe de raízes, de bagas, de grão

Vivo do teu pão
Banho-me no teu hálito
Sonho com as tuas fogueiras
Cheiro o teu ventre
Bebo a tua resina
Durmo no teu leito de pedras
Desperto nos teus braços

Descanso no teu sopé
 

Visto-me com o teu manto amarelo e verde
Grito a tua tempestade
Escarpo-te as alturas

 

Colhi uma rosa silvestre
Coroei-me de malmequeres
Cingi-me de alfazema
Bordei-me de alecrim
Toquei-me de rosmaninho
Rosei-me de papoilas
Desmaiei do teu cio.

LÍRICA DO CIBORGUE ( E. M. de Melo e Castro )

 o ciborgue habita

debaixo da tua pele

pouco a pouco
ele toma conta
de todos os teus
sentidos e não sentidos

com os olhos ele vê
as cores que não há

nos ouvidos
músicas silenciosas

pela pele os toques
tocam nas coisas
imponderáveis
na boca os sabores
sabem de cor
os desgostos do gosto
no nariz
os odores são
as dores que sobem
desde a raiz
e no todo teu corpo
eles inauguram
os movimentos
que são teus pensamentos
na mágica do leve
levitarás em breve
nos espaços
abstratos
de todos os teus atos

trilhões das tuas células
serão sutilmente alteradas
e as funções
dos teus órgãos
serão novas

quando já não terás
um só eu

mas vários eus
que nem sequer
serás

é com eles
que para sempre
viverás
para além do óbvio

Homo Sapiens Ciborgue
irmão de mim próprio