02/05/2026

ADAPTAÇÃO ( Adélia Maria Woellner ) in Infinito em Mim

 A lua 

repousou no mar 
e se fez branco barco, 
para viver as emoções. 

Aprendeu a flutuar, 
para usufruir 
sensações não conhecidas. 
Só assim pôde 
enfrentar tempestades 
e retornar, melhor, 
ao porto de origem.

PRECE ( Adélia Maria Woellner ) in Infinito em Mim

 Eu queria cantar o mundo, 

com voz bem afinada, 
e fazer ressoar meu canto 
em cada canto, 
em cada estrada. 

Eu queria tocar qualquer instrumento, 
que vertesse som, 
que fluísse música com harmonia 
e fazer cada corpo vibrar 
ao compasso da minha melodia. 

Eu queria ser pintor, 
espalhar cores, muitas cores, 
manchar telas com habilidade, 
retratar a natureza, os sentimentos, 
alegrar olhos e almas 
e transmitir paz, serenidade. 

Eu pedi a Deus tudo isso, 
pois queria enternecer corações, 
encher a vida de alegria, 
colorir pensamentos 
e despertar emoções. 

Antes mesmo de nascer, 
eu pedi para ser esteta. 
Ah! como eu pedi a Deus!
Pedi tanto, tanto, 
que Deus me fez poeta.

ALIENAÇAO ( Adélia Maria Woellner ) in Infinito de Mim

 As nuvens se encolheram, 

abrindo caminho no céu, 
revelando a infinitude do vazio. 

O vento não soltou a voz; 
os animais se aninharam silenciosamente; 
as ondas se largaram, mansamente; 
o sol e a lua se encontraram no espaço; 
as hastes das plantas se dobraram 
e as flores encostaram as pétalas na relva, 
em gesto de reverência; 
os galhos das árvores se uniram, 
como se fossem mãos em prece. 

A natureza se prostrou, 
usufruindo a beleza da revelação. 

Só os homens, 
mergulhados no ruído do fazer, 
nada viram, 
nada ouviram. 
Nem entenderam 
por que tudo aconteceu.

APRENDIZ ( Adélia Maria Woellner ) in Infinito Em Mim

 Nasci de outras terras, 

vermelhas como a cor do sol 
da tarde 
anunciando estiagem. 
Foi longa e árida 
a viagem. 
Pés crestados 
na terra partida, 
ressequida 
de húmus e de vida. 
Porém, sobrevivi. 

Nasci de outras águas, 
fecundada fui 
no encontro das ondas com os rochedos. 
Por isso, 
cresci sem medos, 
mas parti os lábios 
no sal e no sol. 
Não pude sorrir, 
porém, sobrevivi. 

Surgi de outros ventos. 
Fui gerada em tufões, 
mas nasci do ventre da brisa. 
Rodopiei em rodamoinhos 
e fustiguei folhas, flores e frutos. 
Provei sabores 
doces e amargos.
Corri mundos e não pude parar. 
Cansei, 
mas sobrevivi. 

Apareci assim, 
de repente, 
como salamandra entusiasmada. 
Vesti-me de cor e calor, 
lambi a casca da madeira seca 
e enxuguei o tronco úmido de lágrimas. 
Fogo incontrolado, 
querendo alcançar o céu, 
queimei e me consumi, 
vendo meu pranto arder ao léu. 
Mesmo assim, 
sobrevivi.

Agora, sou como sou. 
Estou reaprendendo a viver.

SONHO PARA O INVERNO ( Arthur Rimbaud ) in Antologia Poética

 No inverno, iremos num trenzinho rosa

De azuis almofadões.
Será bom. Um ninho de beijos loucos pousa
Na maciez dos vagões.

Fecharás os olhos para jamais enxergar,
Pela vidraça, os tão soturnos,
Monstruosos esgares das sombras a passar
De lobos e demos noturnos.

E depois sentirás a face que se arranha.
Então esse beijinho, igual a doida aranha,
No pescoço a correr.

E me dirás: Procura!  inclinando a cabeça,
– Levaremos tempo a buscar a miúda besta
– Que viaja a valer.

A ETERNIDADE ( Arthur Rimbaud ) in Antologia Poética

 Outra vez na tarde!

Quê? – A Eternidade.
É o mar que parte
Com o vasto sol.

Alma sentinela,
Múrmuro confessar,
Desta noite nula
E do dia a brilhar.

Liberas-te então,
Humanos sufrágios,
Do entusiasmo vão
E voes conforme.

Visto que te calas,
Brasas de cetim,
O Dever se exala
E não diz: enfim.

Nada de esperança.
Destino deserto.
Ciência com paciência,
O suplício é certo.

Outra vez na tarde.
Quê? – A Eternidade.
É o mar que parte
Com o vasto sol.

CORAÇÃO LOGRADO ( Arthur Rimbaud ) in Poesia Completa

 Meu coração baba na popa.

Triste e cheirando a caporal:
Vêm-lhe jogar jatos de sopa.
Meu coração baba na popa:
Sob os apupos dessa tropa
Que lança risos em geral,
Meu coração baba na popa,
Triste e cheirando a caporal!

Itifálicos, soldadescos,
Foi por insultos depravado!
Fazem, chegando a tarde, afrescos
Itifálicos, soldadescos.
Fluxos abracadabrantescos,
Salvai meu coração coitado:
Itifálicos, soldadescos,
Foi por insultos depravado!

Quando mascar não possam mais,
Como agir, coração logrado?
Serão refrães de bacanais,
Quando mascar não possam mais:
Crises tereis estomacais
Se o coração for degradado:
Quando mascar não possam mais,
Como agir, coração logrado?

O ARMÁRIO ( Arthur Rimbaud ) in Poesia Completa

 Grande armário esculpido: o carvalho sombreado,

Muito antigo, adquiriu esse ar de bom dos idosos;
E, aberto, o armário espraia em sua sombra ao lado,
Como um jorro de vinho, odores capitosos;

Repleto, é uma babel de velhas velharias,
Recendentes lençóis encardidos, fustões
De infante ou feminis, as rendas alvadias
E os xales das avós pintados de dragões;

– Em ti podem-se achar os medalhões as mechas,
Os retratos, a flor ressequida que fechas,
Cujo perfume lembra o dos frutos dormidos.

– Ó armário de outrora, as histórias que exortas
E amarias contar, com teus roucos gemidos,
Quando se abrem de leve as tuas negras portas.

O ADORMECIDO DO VALE ( Arthur Rimbaud ) in Antologia Poética

 É um recanto bem verde onde canta um rio

Loucamente a se enganchar nas ervas seus farrapos
De prata; e onde o sol, a suplantar o frio,
Brilha: pequeno vale a espumar relâmpagos.

Jovem soldado, boca aberta, fronte nua,
A nuca refrescada nos agriões azuis,
Dorme; estendido na relva, sob nuvem crua,
Pálido no leito verde onde chovia luz.

Os pés nos gladíolos, dorme. E sorri como
Sorrisse uma criança enferma em pleno sono:
Natureza, ele tem frio: acolhei-o em teu leito.

Os perfumes não mais lhe agitam o respirar;
Dorme ao sol, a mão sobre o peito a pousar
Calma. E há dois furos rubros no lado direito.

ROMANCE ( Arthur Rimbaud ) in Antologia Poética

 I

Aos dezessete anos não se pode ser sério.
– Um dia, larga-se o chope e a limonada,
E os barulhentos cafés de lustres feéricos!
– E vai-se sob as verdes tílias dessa estrada.

As tílias recendem nas tardes de verão!
O ar é tão doce que a pálpebra se fecha;
Um vento de barulhos, – a cidade à mão, –
Transporta perfumes de vinho e de cerveja.

II

Eis que uma faixa de azul escuro aparece
Toda muito bem enquadrada na ramagem,
Picada por estrela má, que se amortece
Em um doce tremeluzir, branca e selvagem.

Noite de junho! A juventude segue bêbada.
A seiva do champanhe sobe-lhe à cabeça.
Divaga-se; nos lábios um beijo se queda
E palpita qual se fosse pequena besta.

III

O louco coração uns romances Robinsona,
– Quando, na pálida luz que cintila, vai
Uma charmosa menina colada à sombra
Do sombrio colarinho postiço do pai.

E como te percebe assim muito mortiço,
Fazendo trotar as pequeninas botinas,
Ela se volta, alerta, em movimento vivo.
– Em teus lábios então já morrem cavatinas.

IV

Apaixonado. Alugado até agosto.
Doido. – Ela de teus sonetos faz diversão.
Os amigos se vão, já que és puro mau gosto.
– Mas um dia ela se digna a escrever-te então.

Ah! que dia louco… – regressas aos cafés feéricos,
E pedes muito chope ou fresca limonada.
– Aos dezessete anos não se pode ser sério
Quando as verdes tílias recobrem toda a estrada.

PEQUENO POEMA DIDÁTICO ( Mário Quintana ) in Melhores Poemas

 O tempo é indivisível. Dize,

Qual o sentido do calendário?
Tombam as folhas e fica a árvore,
Contra o vento incerto e vário.

A vida é indivisível. Mesmo
A que se julga mais dispersa
E pertence a um eterno diálogo
A mais inconsequente conversa.

Todos os poemas são um mesmo poema,
Todos os porres são o mesmo porre,
Não é de uma vez que se morre.
Todas as horas são horas extremas!

TEMPO QUE NÃO SE MEDE ( Maya Angelou ) no livro “Poesia Completa”. tradução Lubi Prates. Astral Cultural, 2020

 O sol nasce ao meio-dia.

Seios jovens caem até a cintura enquanto
o ventre amadurece sem brilho,
tão tarde.
Os sonhos são acariciados, como se fossem
os cãezinhos estimados
incompreendidos e tão bem
amados.

Muito conhecimento
enruga o cerebelo,
mas pouco esclarece.
Avanços são
feitos em pedacinhos.
Grandes desejos se estendem
em anseios mesquinhos.
Você chegou, sorrindo,
mas tarde demais.

RECUSA ( Maya Angelou ) no livro “Poesia Completa”. tradução Lubi Prates. Astral Cultural, 2020

 Amado,

Em que outras vidas ou terras
Eu conheci seus lábios
Suas mãos
Sua gargalhada corajosa
Irreverente.
Aqueles doces excessos que
Eu adoro.
Qual garantia nós temos
De que nos encontraremos de novo,
Em outros mundos, em algum
Tempo futuro indefinido.
Eu resisto à pressa do meu corpo.
Sem a Promessa
De mais um doce encontro
Me recuso a morrer.

01/05/2026

MARINHA (Rita Santana)

 Todos os dias,

Afundo as mãos em Oceanos,
Mergulho em enseadas e rios,
Em busca do Silêncio.
Entre juncos, musgos e algas,
Encontro-me com a Solidão.
Embarcações rubras dançam
Valsinhas à beira do cais.
Engano-me com a pacatez das ostras
Deitadas sobre o esquecimento.
Murmúrios sustam a letargia das Horas.
As Deusas prevaricam informações,
Demoram-se sobre os corais que cobrem os barcos.
Busco, acintosamente, entre todos, a Ti!
Busco-te em meio aos operários de Tarsila.
Busco-te no arsenal de Rivera,
Enquanto distribuo armas aos rebeldes,
Enquanto, adrede, apaixono-me.

SOSSEGUE CORAÇÃO ( Paulo Leminski )

 sossegue coração

ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos afora

calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa

Por Lília Tavares, in Casa de Conchas; Modocromia Editora, 2022

 Não me sobra tempo para anoitecer

agora que a poeira do coração rasgado

se quebra nas esquinas e se demora.

A que sabem as horas em que não estás?

Há muito deixei líquida a minha boca

a morder a noite no teu peito.

Sinto sede sede sede.

Parto para qualquer país onde não exista.

Por Lília Tavares, in Casa de Conchas; Modocromia Editora, 2022

 Escreve ainda o teu nome na minha mão.

Se um dia a juventude voltasse,

libertava-me do que não faz falta ao luar,

convocava a tua e a minha pele para a luz.

Sobre as ervas não lamento estar só.

É de flores o corpo semente água

seiva taça uvas mares apelo

seio rebentação ternura inacabada.

Aquieto-me sedenta, ergo-me sôfrega

e espero a água da tua boca, céu

de anis estrelado que me condena

à sede eterna de todos os bálsamos.

CABELOS BRANCOS ( Lília Tavares ) in Casa de Conchas; Modocromia Editora, 2022

 Mãe, nunca te vi de cabelos brancos,

nem a tristeza do rosto que subia aos lábios

quando me incitavas a ler para ti

o cântico dos cânticos, como se fora um conto de fadas.

A tua solidão não conhecia as letras

nem a tua estrela ocultava a pureza das coisas.

Só salomão tinha escrito trovas à sensual sulamita.

Dela cantou os seios como cachos de uvas, os beijos,

a cintura, os cabelos, a pele suavizada por óleos.

Mãe, há muito que o leito era só teu,

ignorada na nudez, não te viram a dor,

a brancura das mãos, o sonho, o vento.

AVE ( Lília Tavares ) in Casa de Conchas; Modocromia Editora, 2022

 Marés e instantes de prata despertam as gaivotas.

No mar espremeram frutos, que têm sabor a noite.

Brancas de tanto conterem o vento nas plumas

encontram nas manhãs a escrita das ondas.

Sem pontos.

É no amor verde da água que o desvario se prolonga.

Sem metáforas.

Sem as correntes da rima cativa, sou ave.

SANTA CATARINA – I ( Lília Tavares ) in Casa de Conchas; Modocromia Editora, 2022

 É estranha esta terra de árvores altas

que choram através das bagas em setembro.

Caminho pela azinhaga paralela ao mar,

com passos estugados e a mala pesada da escola

e da vida. Sou menina de doze anos, quase treze.

O portão enferrujado da quinta está escancarado.

Parece lunar a casa de portas violentadas em plena luz.

Escuro e de paredes em madeira, o que resta

da biblioteca arrepia-me os sentidos.

Prometo voltar. E corro. Guardo tudo em mim.

É fascinante a água nos lábios das crianças.

À SOMBRA DO SAL – II ( Lília Tavares ) in Casa de Conchas; Modocromia Editora, 2022

 Contigo escutei os gritos das gaivotas no rochedo

maior, naquela que era a rainha das escarpas da praia

verde. Choravas.

Porque gemiam areias na solidão que mordias e os

homens voltavam nos barcos e pescavam a morte

como peixes sombrios.

Sobre o timbre dos ventos falaste em verso nas

janelas da noite em que o arvoredo se curvava sobre

as canções do mar

SUAVES AS MULHERES I ( Lília Tavares ) in A Timidez das Árvores (Col. Mãos de Semear- 1; ModoCromia, 2020; 2ª ed, 2021)

 Suaves as mulheres

de corpo alongado como aves.
Anjos não são,
nem livres nos seus êxtases.

Dormem nuas no interior
dos frutos.

Ardentes, desconhecem que
nas suas veias correm águas
que raramente se demoram nos rios.

São o arquétipo das planícies
trigueiras de maio
onde as abelhas ensaiam voos
na primitividade das manhãs

O AVESSO DOS OLHOS ( Lília Tavares ) A Luís Miguel Nava in memoriam

 A janela da noite abre-se aos sonhos

com desejos de manhã e não de morte.
Um poema traz consigo um colar de vieiras
como nas lendas nocturnas.
O poeta entra no espelho
como quem entra em si.
Estagna, retrocede, chora
e abriga-se dos temores.
Emudece e pousa na moldura
o que lhe sobrou do adolescente rosto.
O caos corre como água
no avesso dos seus olhos.
As aves que lhe saem pelo coração.

Por Lília Tavares ( a Maria Teresa Horta )

 Que tumulto é este, que inquietude salta

dos corações das mulheres que agitam as palavras?
Trespassam desertos onde se descaminham. Insubmissas,
sonhadoras e aladas, golpeiam-se para sentir
a dor inalcançável. Às noites acrescentam horas
na ilusão imprecisa dos líquidos caudais.
Os seus gritos são vigorosos
como o galope de cavalos, tantos.
Amam como se batessem asas de pétalas e pulsassem
em bailados de um feitiço antigo como o tempo.
Cobrem de véus o rosto e ocultam a fragilidade
das flores com que, fantasiadas, se vestem.
Estranham-se quando acordam, dadas ao esquecimento
dos seus voos. Como penélope tecem e desmancham panos
e alongam a incompletude desejada.
Labutam na escrita pedra a pedra
como quem ergue com urgência fortalezas, não muralhas.
Um poema é o fio que ariadne deixou inconcluso
em suas mãos porque de essências sem fim se alimentam.

DIO ZÂMBI ( Rafael Alterio & Celso Viáfora )

 Sinherê, quem vem de lá! axé zâmbi, quem vai daqui!

Benza eu por causa de que vou pra aruanda
Sinherê, quem vem de lá! axé zâmbi, quem vai daqui!
Sinherê, vou conhecer o ylu aiê. vou!

Quando o negro depôs a foice no eito
E foi se alforriar
O café se foi secando ao relento
Ninguém pra cuidar
Quem chegou no lugar
Pra lavourar
Era da cor de sinhá
E sonhava poder laborar, laborar
Enriquecer e voltar

Sono io per te
E tu per me
Siamo noi e dio
Niente più
Tinham força debaixo da pele clara
E os olhos de mar
Sol a pino, um pano posto na cara
Pra não se queimar
Vão pagar pelo pão
Se endividar
No armazém do patrão
Laborar, laborar pra não ver um tostão
Quantos não vão mais voltar...

Sono io per te
E tu per me
Siamo noi e dio
Niente più

Sinherê, quem vem de lá! axé zâmbi, quem vai daqui!
Benza eu por causa de que vou pra aruanda
Sinherê, quem vem de lá! axé zâmbi, quem vai daqui!
Sinherê, vou conhecer o ylu aiê. vou