26/01/2026

EUNICE ENFEITIÇA OS ELEMENTOS TERRESTRES ( Anna Apolinário )

 Acordo nua e obscura

Numa banheira talássica
A mesma antiga banheira telúrica
Que por uma semana inteira
Acolheu o corpo iluminado
De Eunice Odio

Pálpebras de neve rubra
Sangrando ao meio-dia no México
Nuca de nuvem e naufrágio
Lábios pintados em tortuosa turquesa
Coxas osculadas por ciclones
Silente, cintilante coronária
Banhada em açudes boreais
Eunice dança em meus sonhos

 

CHICLETES TUTTI - FRUTTI ( Maria Emanuelle Cardoso) in “Amarelo Mostarda”; editora Nauta, 2024.

 andar sempre na ponta dos pés

descalça e silenciosa
sem olhar para os Reumatismos
não se pode despertar os Nomes
todos sob o tegumento de charcutarias
quieta, cada vez mais quieta
imóvel, translúcida, intocada
como a saudade grotesca das cristaleiras
podes beber nos meus copos
esta poeira na superfície
é do acúmulo de olhos

MESMO CRESCER NO ESCURO É IR EM DIREÇÃO À LUZ( Maria Emanuelle Cardoso) in “Amarelo Mostarda”; editora Nauta, 2024.

 tudo é pequenino,

para ver é necessário arregalar os olhos,
roubar o rosto do tempo
como quem pesca tamarindos
para com os dentes quebrar sua casca
e com a garganta chupar fortemente
seu sumo azedo
até subirem as canelas
múltiplos caules de muriçocas

ALGAS VERMELHAS ( Maria Emanuelle Cardoso) in “Amarelo Mostarda”; editora Nauta, 2024.

 na primeira vez que entrei no rio

fechei os olhos e mergulhei profundamente
fiquei com gosto de areia e sangue na pele
passei então
a mergulhar como quem para a noite se despe
não completamente, apenas o suficiente
sabendo que tanto na noite quanto no rio
a Areia sempre vem

A NOITE ( Esther de Cáceres ) tradução de Floriano Martins

 I.

Um alto mar de sombras já invadiu todo o Ar,
e no grande sonho escuro
reluzem, solitários,
os vastos ébanos com que o Amor esculpe
cofres insones de pianos secretos.

Sob a noite
Busco antigas estátuas.
Exploro o denso bosque onde a Memória pousa
sua estranha mão de cautela e chama.
Minhas gazelas desconhecidas já estão dormindo
ou são as folhagens lentas?
É um cabelo perdido entre os trevos
na vasta morada das fragrâncias do Ar?

Sou eu, sou eu mesma
perdida entre as árvores,
sozinha entre árvores escuras!

Sou eu, sou eu mesma
em cristal apagado
e esmaltes adormecidos!

Deixo o bosque secreto, saio do jardim sem cisnes;
Eu atravesso as paredes invisíveis do Ar,
e eu já estou no campo
da grande noite solitária!
– Algumas das minhas mortes ainda choram por mim!

II.

As Solidões chegam e as contemplamos juntas:
Já não há mais que a Noite
Uma grande flor de sombra
quieta sob o orvalho!
A Noite e eu – seu pranto! –
Até que desperte
a flor escura. As lâmpadas já estão sendo trocadas!
Um ar de gazelas
está prestes a me acordar!
Os mares do Dia cantam!

OS PIANOS ( Esther de Cáceres ) tradução de Floriano Martins

 Que piano me recordam

as nuvens esta tarde?
Longe de falésias
onde o mar se rompe
chorando!;
longe de chamas cegas
que uma mão desata
para sua morte incauta,
já não és mais espada cinza
ou relâmpagos violentos!

As nuvens me tornam doce
A tua memória na tarde!

Como se plantasse uma árvore
hoje eu deixo ao mundo
a tua imagem:

És como os pianos
distantes na tarde.
Sem penhasco: macia
praia de seda e algas
onde meu amor chega
cantando!

As melodias lentas
vagam ao seu redor,
como aquelas gaivotas
que se aproximam de um barco
e lhe fazem uma nova
quilha macia!

Que piano me recordam
as nuvens esta tarde?
Tu és como os pianos
e as nuvens distantes!

OLHANDO EXTASIADA O CÉU ( Clementina Suárez ) tradução: Floriano Martins

 Sentada à margem da vida

eu sou três:
meu sonho, a poesia e eu;
porém o que digo agora
meu sangue apaga com sua veloz vertente,
entretanto o relógio
– rompe ondas dos dias –
inventa uma nova hora,
na escala gradual do tempo.
Anterior ao pêndulo
e ao voo das andorinhas,
está a minha lua que chora e ri
em um pontual protetorado de palavras.
Eu não sei como fechar os olhos,
reconquistar as tardes,
as memórias
e as paisagens
em uma só fonte recôndita
que definitivamente afirme o sopro primogênito;
na altura da rosa que não murcha
no seio,
ou da nuvem que teria restado
aceesa à janela
olhando extasiada o céu.

MAGICAMENTE ILUMINADO COMO EM UM PARAÍSO ( Clementina Suárez ) tradução: Floriano Martins

 Eu saí de meu vestido

e fui ter com meu corpo,
e pude então comprovar
o valor de meus pés, minhas mãos, minhas pernas,
meu estômago, meu sexo, meus olhos e meu rosto.
Soube do deleite que um deles me deu
e de improviso me disse:
que mágico contorno o de meu dorso,
que novos e antigos ecos no fio de minhas veias,
que voz na garganta,
que sílaba impronunciável no lábio
e que sede detida na garganta!
Apressadamente saí pela porta
disparada a caminhar,
a tocar o chão com meus pés,
a lançar flechas acesas pelos olhos,
a devorar paisagens,
a enredar as minhas mãos em hieróglifos de relâmpagos,
a deixar detida aqui em meu sexo
– árvore frutificada –
o aroma da vida.
Pude absorver, cheirar, gritar
viver, viver, viver.
Como se despertasse uma e outra vez
e fosse laboriosa abelha
a liberar seu mel astral.
Aurora que coalhasse aqui no peito,
armeiro que dia e noite trabalhasse
em sua cumprida faina.
Precipitadamente abro
as portas de meu quarto
e jogo longe o lençol.
Me aproximo do espelho como uma morada
que não me reterá.
Como um propósito alucinado,
brilha meu anel de pedra de cor lilás,
minha lâmpada, meu relógio,
detidos nos umbrais do tempo.
Meus sapatos despertos na beira da cama
e meu rosto deambulando pelo sonho
como uma decoração para um poema
escrito nas linhas da mão,
ou no fulgor metálico de meus sentidos
tulipas sempre ardendo.
Meu perfil de arcanjo
dança com o raio,
detém seus reflexos na fronte
e com seu fogo derruba o coração
como em um paraíso magicamente iluminado.

O PRESENTE ( Clementina Suárez ) tradução de Floriano Martins

 Eu gostaria de te dar um pedaço de mina saia,

hoje florescida como a primavera.

Um relâmpago de cor que detivesse teus olhos em meu talhe
– braço de mar de ondas inascíveis –

a ebriedade de meus pés frugais
com seus passos sem tempo.

A raiz de meu tornozelo com seu
eterno verdor,

o testemunho de um olhar que te deixasse no espelho
como arquétipo do eterno.

A beleza volúvel de meu rosto, tão perto de morrer a cada instante
por conta de viver apressadamente.

A sombra de meu corpo errante
detida na própria esquina de tua casa.

O sonho zumbidor de minhas pupilas
quando deslizam até a tua testa.

A beleza de meu rosto
em uma virgindade de nuvens.

A ribeira de minha voz infantil com tua sombra de incrível tamanho,
e a linguagem ilesa que não maltrata a palavra.

Meu alvoroço de criança que vive descoberta
para que a cubras com a armadura de teu peito.

Ou com a mão aérea de quem viaja
porque seu sangue submarino jamais se detém.

A febre de minhas noites com duendes e fantasmas
e a chuva virginal do rio mais oculto.

Que o vento se abre como um leque
ao nível do ar, da terra e do fogo.

O dorso onde bordas as tuas mãos
inchadas de marulho, nuvens e fortuna.

A paixão com que dilaceras
no leito da mesma e vasta torrente

como se o próprio coração se tornasse líquido
e escapasse de tua boca como um mar sedente.

O feixe de meus pés
despertos andando sobre a grama.

Como se trémulos aguardassem pelo encontro calado
de onde apenas pelo silêncio restassem a correntes partidas.

E em teus dedos retido o mandado da vida
que em liberdade deixou teu sangue,

embora com sua cascata, com sua racha,
as árvores do degelo, algo em ti mesmo destroçado.

A cabeleira que brota do ar
em líquidas miniaturas inquebráveis

para que as tuas mãos ilesas façam ninho
como no próprio sexo de uma rosa estremecida.

A entranha onde submerges como se buscasse estrelas enterradas
ou o sabor de pó que tornará férteis nossos ossos.

A boca que te morde
como se degustasse rios de aromas;

ou fincando em ti os dentes
matizasse a vida com a morte.

O tálamo onde medes a minha cintura
na suave sobrevivência intransitiva,

na viagem pela espuma difundida
ou pelo sangue aceso humanizada

o mundo em que vivo
estremecida de gestações inesgotáveis.

O minuto que me unge de auroras
ou de iridescências indescritíveis.

Como se ao ritmo de teu eflúvio soberano
salvasses o instante de inadvertido mel;

ou deixasses no mágico horizonte de luzes apagadas
o tempo desmedido e remediado.

Onde os sentidos ficaram detidos
e, ao final já sem idioma, totalmente despidos.

Como se ensaiando o voo suas asas se queimaram
ou, por ter cicatrizes, seus braços se extenuassem.

A pele que me veste, me contém e abrevia,
a que ata e desata minhas ramagens.

A que te abre a branda residência de meu corpo
e te entrega seu mais íntimo segredo.

Minha veia, chaga viva, quase queimadura,
vestígio do fogo que me devora.

O nome com que te chamo
para que sejas bem-vindo.

O rosto que nasce com a aurora
e é guardado por anjos na noite.

O peito com que suspiro, o latejo,
o tique-taque entranhável que ilumina tua chegada.

O lençol que te envolve em tuas horas de vigília
e nele te deixa cativo, dorme, sonho do amor.

Árvore de meu esqueleto
mesmo com suas miúdas dobradiças.

O recinto sombrio
de meus fêmures estendidos.

A morada de meu crâneo, desgarrado lamento,
pequena molécula de carne jamais humilhada.

O orgulho sustenido de meus ossos
aos quais até com as unhas eu me agarro.

Meu canto perene e obstinado
que em morada de luta e esperança defendo.

A casa intemporal
que meu pó amoroso te oferece.

O nível da lesão
ou da ferida que poderia haver acabado comigo.

O pranto que me lavou
e que este pequeno corpo transcendeu.

Minha sombra estendida
à mercê de tua lembrança.

A agulha imantada
com seu pólen impensado e suas brasas vermelhas.

Minha existência cinzenta
com sua primeira mortalha.

Minha morte
com sua pequena eternidade.

PALESTINA, TEU NOME ( Lety Elvir ) tradução de Floriano Martins

 Palestina seu nome

pesa
arde
flutua
no gelo da tempestade.

Desaparecem tua extensão
encolhem tua silhueta
reduzem teu mapa original,
a ignomínia aumenta,
também sua imensidão.
Como esquecer teu sangue
nos olhos do terror
no grito do nada
na janela da dor.
Como se esquece o veneno
a pedra, a bala, a mentira
no meio do horizonte
nas margens da orfandade.

Palestina
tua boca em meus olhos
tua infância em minhas filhas.

Em minha mente
a memória da noite
do sal, do orvalho.
Invencível
resistência
o mundo teu.
Cairão a teus pés
a cobra com duas ou mais cabeças
as paredes, as prisões, os holocaustos
a bota que esmaga o ramo de oliveira

Palestina teu nome
tão profundo quanto Honduras
                  – tão terra
                  arrebatada
aos pedaços aos rasgos às patadas
onde a esperança
bem poderia chorar no vale de teus lírios.

A HISTÓRIA QUEBRADA ( Lety Elvir ) tradução de Floriano Martins - Para Camille Claudel

 Com sabor de loucura

vai contando os dedos
falando baixinho
para não machucar a chuva

Com sabor de loucura
vai cortando o cabelo
chovendo devagar
para não afogar a lua

Com sabor de loucura
desejo está engolindo
bebericando um pouco
toda a barra de dúvidas

Aromatizado com loucura
vai tirando suas roupas
dançando em penumbras
para o que já não a espera
em silêncio foi embora
roubou seu quarto, seu nome
e também os aplausos

Com sabor de loucura
desenha a sua mente
lagartos seus braços
serpentes seus seios
Vênus, a do monte sáurio
pássaros suas mãos
papoulas seus olhos
tucanos os pés
as nádegas são ondas
aluvião suas ideias
Quetzalcoatl sua língua
de barro suas pernas
cintura choques elétricos
Cala a boca, louca!

Sua pele, savana de mármore
para que o fantasma
esculpa sua assinatura
cuspa seu sêmen

Com sabor de loucura
vai escrevendo a história
com palavras mudas
cegas camisas de força

Com sabor de loucura
vamos todos pelo mundo
esmagando sorrisos
cavalos azuis.


EU TE DESPI DEBAIXO DE UMA MACIEIRA ( Lety Elvir ) tradução de Floriano Martins

 I.

Eu te despi debaixo de uma macieira
suguei teus mamilos
e entre os pelos de teu peito
enredei a minha língua.
Vi tua carne crescendo
como uma papoula de rocha firme
e doce foi o teu beijo em meu beijo
como leite e mel
e tíbio foi teu suor sobre meu suor
como vinho pura. Oh meu Deus!
nunca afastes de mim este paraíso.

II.

Ao cair da noite
meu cabelo envolve
o corpo de meu amado
derramo meu perfume sobre seus pés
sua cabeça, sua boca
e o luar de seu dorso
e ele me pede mais.
Que ninguém o impeça
que ninguém se meta
nem mesmo a morte
que aguarda por ele.

III.

Entrei na casa de meu amado
e sobre suas pernas me sentei
suas mãos como hábeis aves
descascaram uma a uma as espigas
e juntos conhecemos que as melhores terras
sempre têm a seu lado
um rio ou as cicatrizes de um vulcão.

IV.

Deitada em meu leito
meu amado me encontrou
acariciou meu rosto
sugou meus peitos, meu clitóris
e sua língua falava em nenhum
                  – e todos os idiomas
lambeu minhas entranhas
cheias de terra e espinhos
sangraram suas veias.
Já sei que não é fácil me amar
                  – eu lhe disse.
Tampouco é fácil querer-me
                 – sua voz me respondeu
e retirou a coroa,
desatou seus pés
e novamente me conheceu.

V.

Acabo de me lembrar de ti, amado meu
e corri até o bosque à tua procura
gosto do brilho de teus dentes
o excesso de pelo em teu corpo
e sua quase ausência em tua fronte
gosto da fome de tua boca
da força de tuas garras
e do cheiro de teu sêmen.
Por isto retorno sempre
para devorar teu coração.

VI.

Meu amado se foi
doente de amor estou
recordo seus amores
mais do que o vinho
recordo seus sabores
mais do que pão e trigo.
Alguém lhe diga que volte já
pois eu o busco nua
por toda a cidade.

VII.

Teus beijos não vêm, amigo meu
e as orquídeas têm ainda teu nome
apressa-te a regressar
que outros beijos poderiam apagá-lo
embora eu não queira
Ainda chove fogo sobre Bagdá.

NÓS: ESSAS TIPAS (Juana Pavón ) tradução de Floriano Martins

Uma, duas, cem, milhares

assim vamos as mulheres por aqui
aqui onde nos coube pernoitar para sempre.
Não importa lugar ou nome
definimos nossa situação
há muito tempo.
Aceitamos o papel que nos corresponde
não importa o status.
Estamos as privilegiadas
e as não privilegiadas.
Estamos:
a funcionária porque funciona
a operária porque operária
a mãe porque mãe
a estéril porque estéril
a dama por dama
a prostituta por prostituta.
Fazemos manobras com o tempo
ligadas a esta inercia
que chamamos vida
porque sendo mulheres
temos que aceitá-lo
porque são leis para mulheres
feitas por homens
o que mais nos resta?
Nos temos como magras e gordas
umas por beber muita água
outras por tomar leite e cereal.
No dia das mães
umas temos frio
outras temos calor,
no dia da mulher
umas temos risos
outras satisfação.
Estamos as poetas acadêmicas
e as poetisas da rua.
Estamos as que vendemos rosas
em uma floricultura elegante
e as que oferecemos cravos
em uma esquina de banco.
Nós, que somos anônimas
do amanhecer
e nós outras borbulhas de fome
nós somos essas – à que nos vende
e às que nos protegem
até os 80 anos.
Somos a esposa ignorada
em um centro noturno
e a empregada seduzida.
Todas somos nós
a cada um o seu
assim foi repartido
sem que pudéssemos escolher.
Estamos as amarguradas
e as indiferentes
as antissociais
e as socialíssimas
as que damos de comer a nossos filhos
em colherinha de prata
e as tragicamente miseráveis
que damos nossa prole
às amas-de-leite e traficantes de crianças.
Nós as que sempre calamos
e esperamos
as que temos motivos
para gritar
e não esperamos por nada.
Estamos as saudáveis
porque temos um gato em casa
e as enfermas
por uma existência solitária.
Somos muitas as que bebemos champanhe
e muitas as que bebemos cachaça
as primeiras ancoramos na cama
com lençóis de seda
e as segundas
em uma escondida e úmida calçada.
Estamos as feministas associadas
e as lésbicas reprimidas
muitas assistimos ao Catecismo
e outras erguemos os olhos
para ver Deus.
Assim vamos nós todas
nós, essas tipas
todas somos mulheres indestrutíveis
nada nos detém
não importa se somos advogadas
se somos verdureiras
médicas, doceiras
professoras, camponesas
atrizes, pintoras
esposas, amantes
primeira dama
ou última dama.
Um ventre nos une a todas por igual.
Somos as que motivamos
todos os sentimentos
ternura, delicadeza… amor
mesmo que haja em cada uma de nós
uma gata furiosa
ou uma gata submissa.
Somos as que estamos paradas no tempo
e pulsamos… pulsamos… pulsamos!
somos rio, mar
selva, sol
lua e pulmão
somos pátria!
– Eu sempre pensei
que Honduras tem nome de mulher –.

Por Juana Pavón; tradução de Floriano Martins

 De uma vez por todas

eu me declaro mulher
ovários bem colocados
que triste da minha parte seria
chamar-me Napoleão ou Rigoberto
carregando pela vida
uma andorinha
sem mensagem entre minhas pernas.

QUANDO REGRESSARES ( Laura Victoria ) tradução de Floriano Martins

Quando regressares não acharás sequer
vestígios do passado.
No parque os cisnes morreram
e as verbenas vermelhas secaram.

Aqueles versos lilases que ouvias
segurando minhas mãos,
foram trocados por outros calcinantes
que vestem minha alma com roupa púrpura.

E essas doces promessas que em teus braços
me fazias tremendo,
são uma corda quebrada em meu ouvido
e nem mesmo um eco doloroso me deixaram.

Também naufragaram em minhas pupilas
os teus olhos ciganos
e em minha boca congelaram em silêncio
os traços ardentes de teus lábios.

Quando regressares não acharás sequer
vestígios do passado.
No parque os cisnes morreram
e em minha boca teus beijos se apagaram.

TUA BOCA ( Laura Victoria )tradução de Floriano Martins

 Polpa de fruta que destila um vinho

tinto de sombra na adega rosé,
tâmara madura, amora do caminho
romã em flor sob o azul tostado.
Dentes mais brancos que a flor do espinheiro
e ainda menores que o arroz coalhado.
Eles nevam no sorriso como o linho,
e são adagas de marfim esculpido.
Boca, na época, perfeita, deliciosa,
que às vezes tem langor rosa
e desejo insaciável de recém-nascido.
Desde que foste a taça de meu canto,
sela hoje meu beijo desfeito em pranto
e ajuda-me a partir para o esquecimento.