04/02/2026

AMOR NA TARDE ( Nathália de Sousa )

 Eu sinto uma atração especial,

Vaginal, por homens maduros.
Mais fantasiosos que concretos,
Mais maleáveis do que duros,
Eles me preenchem de palavras doces
Me fazem de menina sobre a cama,
Me querem com fardinha de colégio,
Me cercam de carinho e muitas tramas.
Não têm a pressa dos adolescentes,
Nem a arrogância do adulto macho.
Seus exercícios de língua são caminhos
Onde me perco, me procuro e me acho.

EU GOZO, SIM ( Nathália de Sousa )

 Gozo, sim, e digo sem medo.

Gozo no cinema, no metrô,
Onde eu estiver, aonde for.
Basta pensar no homem amado
Que enfiou em mim no sábado passado.
Gozo no pau, de virar o corpo, a alma
E a xota pelo avesso.
Se sou louca, não me lembro
Ou logo esqueço.
Gozo com os dedos há décadas,
Desde que uma menina
Chamada Nathália
Descobriu os rios de prazer
De sua genitália.

EXPLICAÇÃO ( Nathália de Sousa )

 Não, meu amor, não precisa

Explicar o que já sei.
Todo homem, algum dia,
Escravo, plebeu ou rei,
Não levanta, não esporra,
Não cumpre sua função
De derramar leite, gala,
Na visguenta escuridão
Que a mulher oferece
Depois de beijar, chupar.
Ah, o pior da broxada
É ouvir você explicar.

ÚLTIMO SONETO ( Graça Nascimento )

 Quando voei para longe de nós dois

Pra conjugar um “eu estou” sem “tu estás”
Eu decidi mesmo deixar tudo pra trás
Pois nosso amor com o meu sonho se indispôs

Acreditei que eras tão meu quanto era tua
Em poesia decantei todo teu ser
Vivi os sonhos que nunca sonhei viver
Me enchi de mar, de céu, estrelas e de lua

Mas ao sentir fragilidade no que davas
Quase morri vendo que pouco me amavas
E nos delírios dessa dor chorei por mim

Para curar então meu peito dolorido
Eu disse a ele que havia esquecido
E numa estória de amor escrevi FIM.

A ROLA DO MEU AMADO ( Graça Nascimento )

 Essa rola singular do meu amado

Tão igual e diferente das demais
Entra em mim com a sinfonia de alguns ais
Me mostrando o lado santo do pecado

Quando cresce no crescer da minha entrega
E endurece para entrar no paraíso
Abro as portas sem temor e sem juízo
E ao amor nada mais a vida nega

Sedutora e atrevida me domina
Dominada em meu poder que lhe fascina
Entra e sai até me ver cair vencida

No prazer de entregar e possuir
Num só ato a delicia de existir
Ao senti-la me regando com a vida

ROLANDO EM ROLAS ( Graça Nascimento )

 Cada uma com um quê particular

Todas foram num momento especiais
Nelas li as partituras colossais
De gemidos que espalhei por todo ar

Cada uma conseguiu me deflorar
Pois a todas dei momentos virginais
Umas menos, já outras tiveram mais
Conseguindo o que souberam conquistar

Uma a uma me levaram em viagens
Me mostrando nova cor novas paisagens
E deixando o meu caminho iluminado

Mas preciso confessar em poesia
Se eu pudesse todas elas trocaria
Pela rola singular do meu amado.

FUGA ( Graça Nascimento )

 Refugias em farsa o peito ardente

Te negando o direito à liberdade
O teu ser já conhece o que é verdade
Mas pra sobreviver ainda mente.

Quando fraco tu negas, teu semblante
Fica opaco, arredio, cruel e frio
Nada passa pra mim, ficas vazio
Desconheço o poeta, o sábio errante

Mas a dor de um parto é a mais sublime
É a vida na vida que ela exprime
E antecede a ventura do nascer.

Quando fores rasgado em poesia
No aborto da tua própria cria
Haverás de pensar em renascer.

AURA ( Violeta Formiga )

 Permita

Que meu corpo
Na intimidade essencial
De ser
Receba teu corpo
Fonte sensual de alegria
E prazer.

VIDA CAVA ( Maria Lúcia Dal Farra ) De Livro de Auras, 1994.

 Velho sofá de taquara da casa da Curuzu,

em cujas varas circula antiga emoção!
Lugar de aguardas o obscuro,
de acolhê-lo
nos túneis e nas veias.

Passeia nos seus ocos de bambu
(trafega em mim ainda)
a vida subterrânea,
a da saia de godê —
vincada de afagos do namoro vigiado,
engomada de pudor.

Ah que saudade desse assento
onde conheci
o meu primeiro prazer de baixo!

A MANGA ( Maria Lúcia Dal Farra ) Do Livro de Possuídos.

 Ela está sobre a mesa

nua
e fechada em si
como uma urna.
O elegante perfil convoca outras formas
para torna-la única:
pera, pêssego, abricó – o coração, afinal,
de onde irrigam a candura
e o aceno para afaga-la com duas mãos.

De modo que a boca quase treme
(hesitante entre beijá-la e mordê-la)
quando dela se achega
sem saber se se entrega ao domínio do cheiro
ou à volúpia de lambê-la
mesmo antes de (com unhas)
fender-lhe a pele vermelho-verde.

Ah, sulcar a carne macia com o arado dos dentes
deixando que neles se enrosquem os cabelos
que a fruta
(aflita)
não pode comer diante do torvelhinho dos sentidos
do cataclismo que o desejo enseja
no afã de conhecer-lhe o rosto!

Sôfrego, salivo abocanhando a polpa
(esse manancial de sucos que me lambuza,,
espirra, goteja e baba)
que chupo exaurindo a fonte dos deleites
dessa mulher que
por fim consentiu
(pudica e fogosa)
de a mim se entregar.

CONFISSÕES DE UM RABANETE ( Maria Lúcia Dal Farra ) De Livro de Auras, 1994.

 Embora me vista com a cor dos bispos

e seja crucífero -

nem por isso sou católico.

Mais para Confúcio fui nascido:

cabeça significativa,

longas barbas finas de meditação budista,

logo desmentida

pelo efémero do meu ciclo,

por certo oco que me habita.

Não desmereço (entretanto) a ciência que expando:

essa carência de miolos teu cérebro socorre -

ritmo metabolismos

heterodoxias pratico.

 

Do oriente que em mim trago
(oh inconsciente profundo!)
guardo robusto mandarim
mas (circunciso)
é na tradição judia que me filio.

 

Picante,

fui aperitivo no Antigo Egito
(como ainda sou de grilos)
e assim acalmo os deuses.
Que disso diga Apolo,
o luminoso,

de quem o equilíbrio imito

e a clássica simetria,

muito embora na entranhada terra

Eros

(com sua desmesura)
me tente.

SONETO ENCLAUSURADO ( Maria Lúcia Dal Farra ) De Livro de Auras, 1994.

 Se deu-me Amor a dor e tal sufoco,

do fino cravo a história e a vida breve,
secou a flor e a mim mantém-me em febre
sem fim que me sustenha por suposto.

 

Detém-me o passo, obscurece o rosto
desta que teve (em tempos) olhar leve!
De tudo que irradia a alma despede
pairando na vigília do sol posto.

 

0 que me espreita? Só ranço e desgosto!
Fechada nesta cela que a luz despe,
a voz confusa, o sentimento tonto,

 

fixo a memória que não desvanece,
percorro o dom inebriado e solto
que (mesmo morto) ainda não falece.

MAÇÃ ( Maria Lúcia Dal Farra ) De Livro de Auras, 1994.

 A maçã na mesa: pomo de discórdia.

Abuso da minha inteligência
porque quero conhecê-la com dentes,
escavá-la até a longínqua estrela.
Saliva a saliva
procurar-lhe nomes,

no afunilado umbigo aprofundar a língua.

 

A presença hierática pede respeito
mas profano-a:
tenho de escolher entre ser
boa ou má,

quebrar a dormência — que não
para bela adormecida fui nascida!

 

Ouso, caio,

começo de novo o mundo,

exilo da fruta o sabor do amor celeste —

sou (por fim) mortal.

Já agora quero a brilhante, a vermelha, a do poente,

e nem Ládon (o dragão) ma impede,

neste jardim de Efemérides -

se não é do pomo d'ouro que me socorro!

 

Debaixo da macieira

(ah dourada mediocridade!)

a sombra saboreio da vida ufana.

Não aguardo, com Arthur,

que os cavaleiros me livrem

do jugo estranho, e nem vou

(a pé, com Merlim)

aprender mágica no pomar.

Quero conhecer o mal e suas ramas!

03/02/2026

QUARTO ESCURO ( Farah Hallal ) ( tradução de Floriano Martins )

 A luz cega mais do que a sombra

seu mistério reduz a condição humana.
Não o vemos. Como não vemos o olho lançando seu vazio
porém ele o leva cuidadosamente a seu cansaço
e descerra a cortina para economizar luz
e já confiante no silêncio de sua sombra
como uma imagem carente de seu processo,
como uma amante de seu quarto escuro,
rouba a umidade do barro
abandona-se a um desejo líquido
corre sem dizer a ninguém o que roubou do orvalho.

ENQUANTO O FOGO DESCOBRE COMO CAMINHAR EM TEU DORSO ( Farah Hallal ) (Escrito a quatro mãos com Floriano Martins)

 A noite muda de lugar em tuas mãos.

Por vezes busco teu nome em minha pele.
Teu olhar travesso soletra outros sabores.
Uma quentura de ervas, uma possessão
de mitos nos manjares de tua cozinha.
O fogo se aproxima de meu armazém de pólvora.
Com um latejo veloz e uma respiração
cortada com as facas que guardo debaixo
dessa almofada úmida arqueada na palavra.
Como se o tempo fosse mais do que fumaça,
eu me aproximo da cidade sitiada de tuas coxas.
Muito além de tua lenda, eu te quero, muito além
do destino que os deuses confiam a teus pés.
Eu te quero muito além da notícia do jornal,
da mútua condição de humildes mortais.
Mesmo sem tempo para nos amarmos demasiado,
dúvida e certeza expiram em nosso calendário.
E eu te quero muito além do instante náufrago
onde algum dia vimos rendido nosso desejo.

HENRI MATISSE (Aída Cartagena Portalatín ) tradução de Floriano Martins

 Onde está Henri Matisse? As mãos das cores

nunca mais com novos rostos e linhas
compartilharão minha cela.
Onde? Compondo o enredo,
envolto na cor, onde o anjo desenha.
Sob o corpo do céu
seu rosto de pássaro torrado se contorce.
No sulco que ele arou com as mãos
a glória se incendeia,
sua glória eterna
acostumada a viver idades.
Agora eu o chamo de volta à tarde
em que deixou sem pousada a minha memória.
Eu o chamo com voz de suas verdades,
com uma voz de amante eu o chamo
para o meu jardim de bronzes.
De pé eu vigio a casa de seu nome.
Henri Matisse grande como o oceano,
Onde está carregamento?
Penso como estarão hoje os amigos
apegados a essa duvidosa vontade de lhe obedecer.
Deste a eles a chave? A chave que alcançaste
com teu corpo de fome,
com a vaidade de ser puro,
de lhes dar o teu perfil, expressamente.
Nada me perturba que desencadeies memórias,
que lhes ofereças outra máscara,
que dispares a funda no sino principal.
Onde está tua pele, tua cruz, as feras?
Em Vence, com todas as estações do ano.
Em Vence, com suas mãos que eram alimento renovado.
Em Vence, simplesmente, com sua esposa, seu filho
seu ouro e o atavio de seu nome,
Oh Montanhas de Vence, onde está Henri Matisse?

STROMBOLI ( Sonia Chocrón ) Tradução de Gladys Mendía

 Somos menos mortais

quando amamos.
Um lago congelado no tempo.
Uma estrela cadente
que não foge
do cosmos,
reluz como lantejoulas e mãos
de cinco pontas.
Somos o interminável
quando amamos.
As quatro estações.
Uma pinta de nascimento.
O mar do mundo.
O ulular do vento.
“Something” dos Beatles
E claro, o Stromboli.

ÚTERO ( Sonia Chocrón ) Tradução de Gladys Mendía

 Desejo a poesia

certas noites
como quem anseia uma cópula dissoluta,
antes que uma fenda nos reivindique
em seu fosso estéril.
Seu roçar contínuo e macerado
pelo tempo.

As marés do ânimo que agasalha ou corrói.
Seu cheiro a fruta madura e sensual.
Os olhos instruídos do poema que sabe
que os verbos perfuram, umedecem ou sangram,
mas também partem magnânimos
para nos deixar dormir.

Eu anseio uma rima redentora,
como uma canção de terna cama,
quando vejo a morte e sinto frio.

Mas o melhor verso, o que me absolve
de meus dias
desgrenhados,
é um côncavo e de toque suave,
dadivoso e clemente como
o ventre de minha mãe.

O UMBIGO ( Mário Quintana ) In A Cor do Invisível

 O teu querido umbiguinho,

Doce ninho do meu beijo
Capital do meu Desejo,
Em suas dobras misteriosas,
Ouço a voz da natureza
Num eco doce e profundo,
Não só o centro de um corpo,
Também o centro do mundo!

Por Ingrid Morandian

 tu ficaste apenas uma noite

e antes de iniciar o reencontro com as ruas
tomei posse de todos os teus afetos e abraços
rompi com a loucura de subjugar olhares
o toque silencioso das mãos inaugurou a despedida
o afago
nalgum horário da infância, as mãos curiosas
tateavam a vida, as pequenas descobertas
os móveis, os brinquedos, os talheres
a aventura do riso
na puberdade, as mãos ansiavam o desejo
pelo outro, pelas camadas de pelos-bocas-voracidade
mundo habitável, tempestuoso
mais à frente, o muito caminhar, andante alguns anos
nas passagens de tempo e sobrevida
segurar a horda provocadora de tantas tempestades
chega um tempo, elas silenciam, os gestos são pequenos
quase esquecimento do lugar na terra
acompanham a coreografia de anunciação do desprendimento
Bashô sorri quando as folhas vermelhas caem
as mãos apagam as luzes

INERME ( Maiara Gouveia ) in O silêncio Encantado

 depois de tudo, a cintura entre os dedos

absorvo o silêncio encantado

ela ainda pulsa, não entende,
quando calado sorvo todo encantamento

porque a palavra nesse instante é vã
e a resposta no suor desfalecido
é, sem dúvida, mais válida

— deixa o corpo descansar sorrindo
deixa o silêncio ecoar bebendo
a rosa cálida de sabor divino

mas ela, aflita, pousa em mim uma vontade
ainda tesa e retesada e até no rosto
a vontade repetida reitera.

UM LITIOKÓ ( Maiara Gouveia ) in O silêncio Encantado

 Suponhamos,

você me convence
de que eu devo levantar
a blusa, só um pouquinho, pra você
encostar de leve a língua em meu umbigo
e ver a pele molhadinha só um pouquinho, só um
pouquinho, não é mesmo? Então, seguindo esse raciocínio,
apertando-me a cintura até eu perder o tino, esfregava a barba no
meu rosto e o corpo bruto contra o ventre amolecido, mordia o pescocinho,
murmurava na orelhinha uns segredinhos devassos, enquanto seu torso imponente
comprimindo minha barriguinha; assim, naturalmente, gozava na minha cara e depois dormia?

Suponhamos, no entanto, que eu prefira vê-lo de joelhos. E ordene: de joelhos! Agora vá
beijando meus pés até que eu mande você parar; mas antes, grite: “minha deusa, minha
deusa!” implorando complacência, depois deite. Pra que eu possa encaixar o meu
quadril no seu e cavalgar, enquanto falo sobre o quanto foder com outro
homem, nesse instante, poderia ser igualmente bom, ou até melhor,
dando uns tapas na sua cara engraçada, cheia de espanto, e, de
repente, te fizesse com os
dedos tudo o que um
homem não pode
fazer com o
membro.

SEGUNDA ELEGIA (em três cantos) ( Maiara Gouveia ) in O silêncio Encantado

 I. pesadelo

miares sinistros:
gatos pardos passeiam
entre os cacos do telhado

caem ríspidas,
como um golpe de navalha
folhas escuras sobre a pele

a noite
quebrou-se em sombras,
nacos de alma em carne viva

nenhum súbito ímpeto
relampeja entre as nuvens
maciças de cinza sujo

II. sonho

a sala ampla e arejada,
o frescor das tardes de primavera:

um vestido leve de seda pura
em tons pastéis, o breve baile
entre beijos suaves

lá fora,
o sol estende-se em estupendo lençol
feito uma plantação de laranjas

lá dentro,
as cores do vestido parecem mais quentes,
lampejo de corpos, fagulhas de vida

III. despertar

na flor da pele
a alma na boca
o sangue de orvalho

A MORTE CANTA. O CORPO SONHA. ( Maiara Gouveia ) in De Pleno Deserto

 Horas em chamas

Bebe a chama escura das horas,
o sangue do tempo.
Deita na sombra que estiola
no corpo sedento.

Cada segundo é uma porta aberta
Vejo seu dorso.
Quero tapar todas as frestas.
Mas você foge entre os dedos, nos seios,
no meio das pernas.

Enquanto a morte canta
Esse sopro de gelo na espinha é a morte que canta:
Não se retém o amor na concha das mãos.
Não se retém.
O amor, não se retém. Fica.
Enquanto puder.

O corpo sonha
Não vive a despedida com afinco.
Mas suga o primeiro pasmo até a última gota.

Há tanto mistério a ser capturado em pleno dia.
Há tanta noite umedecida no sonho do corpo.