26/01/2026

ASTÉRION ( Mía Gallegos ) tradução de Floriano Martins

 Há algo que, muito além

de tua força,
me fascina.

Caminho sobre teus peitos de pedra.
És da cor de polvo e lagartixa.
Envolvo-me em tua língua de mistério.
Tal é a tua forma de estar
próximo do sol.
Estranhas marés matinais te acodem,
onde tudo escurece e se bifurca,
Astérion meu, único.
Quem és?
Touro ou homem?
O ausente derramado
entre infinitos lacres.

Eras o pé, o próprio ar
da primeira manhã
em que os homens lavraram
teu corpo de ausências.
Estou tão longe de tua pele.
Mas que recanto há em ti
onde eu possa dormir
e ser tua pálpebra
e a forma mais funda do silêncio?

És homem ou besta?
És um homem,
um rouxinol,
ou talvez um pirralho
entre lençóis de açúcar.

Astérion meu, único, de mil olhos de agulhas.
Tuas mãos são múltiplos do sol.
Ontem cacei uma borboleta
e era catorze vezes harpa e movimento.
um e um não são dois,
são o universo e o nada.
as portas de todo fim
e do infinito.

Eu me adentro em ti.
Através de teu corpo
ainda permanecem os redutos do sol.
És oculto e quente.
Eu me enredo no corredor
de tua língua de vidro.

Ascendo até as tuas mãos.
És um espelho
de outro que antes foste.
E eu tenho medo de me perder em ti,
no fio
que são todas as portas
e a escuridão.

Astérion meu, tão alto e pagão.
Eu me adentro em teu corpo empedrado, altivo
– não tenho escapatória –
Mal suporto teu clima de asfixia.
Porém és uma almofada dulcíssima,
Astérion meu, Astérion.


PSIQUE ( Mía Gallegos ) tradução de Floriano Martins

 Ela sonha com um homem que a veja dormir.

Não lhe sorri
para não distraí-lo de sua contemplação.

A amada, de tantos sonhos, dorme
e se torna metáfora de pó.
Ele a contempla
e imagina uma palavra para nomeá-la.
A encerra entre sua voz e a guarda para si.

Ariadna? Ele indaga.
Ela treme em suas almofadas.

Psique?
Ela então derrama umas gotas de sua lâmpada de azeite.
Ela o unge sobre sua fronte.
Beija-o e se vai.

DEPOIS DO AMOR ( Mía Gallegos ) tradução de Floriano Martins

Depois do amor,

depois do amor posto sobre o amor,
como altivos vulcões que se queimaram,
como fluxo de lava,
como astros que sucumbiram,
resto em mim,
no centro de minha pele e em meu vestido,
e aprecio a luz
de um amanhecer que rompe calmo,
aberto, perfeito,
como a curva de um anjo quando passa,
quando atravessa.
Eu te esqueci, digo
e minto, minto a mim mesma,
já não creio nas palavras ou nas roupas.

E brota então
uma ácida ternura
que saboreio com a língua cansada,
ferida,
com uma língua que ausculta,
que devora a sós
o esquecimento, a acidez, a lembrança
de uma noite lunar,
de abraça-me muito e não te vás nunca,
de raras geometrias,
onde teu corpo era brioso e longo
como um estreito caminho que não consegui cruzar.

O amor passou, digo a mim mesma
e agora não minto.
Saboreio minha ácida ternura
e descreio das palavras,
e assim permaneço: cética e calada,
para o caso de algum dia os verbos
nascerem em mim como frutas,
para o caso de subitamente nascerem
como astros as palavras,
e a metade de meu rosto se vire em busca de ar,
ou volte o rosto a ser intacto e fale,
e eu fale.
Agora nada mais eu sou
com minha ácida ternura e minha garganta
e todas as minhas lembranças.

Porém o amor se foi.
Foi como a noite se vai.
Eu te recordo.
E isto me parece que para esta vida
já é bastante.

A VIDA ANTES DA VIDA ( Paola Valverde Alier ) tradução de Floriano Martins

 Os rios perpetraram a casca das árvores

a voz da selva
                                permanecia satisfeita

Forte como o jaguar
                      valente como a sucuri!

Antes de nascer
fui um pequeno botão de luz

Tomei a forma de uma cordilheira
explodi em tons de turquesa

e do sangue
armazenado no meu sexo
brotou
uma debandada de beija-flores

O fogo
era um fio costurado ao sol

O verde
não domava a chama

A mulher que protegia a tempestade
Deixou cair os raios
                 e se transformou em um pássaro


A MULHER ÍMPAR ( Paola Valverde Alier ) tradução de Floriano Martins

 Porque sou uma mulher ímpar

calço o número
das fechaduras proibidas
desato meu cabelo em plena chuva
e odeio açúcar no café

Eu me maquilo a sós para dançar comigo
detenho as horas e os caminhos
canto o silêncio das concubinas
sou seu prazer

reconheço a nudez nas palavras
gozo com elas
me prostro diante delas
com a ansiedade das cadeiras vazias
nas esquinas

Sou ímpar quando amanheço
ou choro
a ordem seria distinta
se eu não soubesse ignorar as regras

Por isto revivo a memória dos afundados
sou esse barco
não exijo salvação
muito menos naufrágios

Prefiro a água quente
para culminar com frio
e então sentir tudo
na curta eternidade dos peixes
que andam de um lado a outro
como se a primeira
viajassem pela última vez

O AMOR É DE BAMBU ( Paola Valverde Alier ) tradução de Floriano Martins

 Não existe nada mais forte do que este amor.

Seu corpo se dobra
e não se quebra.
Suas costelas forjam a cana
para nos alimentar;
sulcam o sal
os dentes assassinos

o vento sopra até a medula.
Traz areia nos olhos
para cegar
os videntes.
Traz espuma na boca
e flutua.
Flutua com a ponta erguida.
Desenha um anel na água,
um eco.

Mordo essa cana,
sua raiz convulsa
o fio de saliva
que sustenta o anzol.
Mordo as peras quando amadurecem.
Minha voz empapada em teu ouvido.

A pedra do silêncio
tropeça com este bambu.
Tomo a tua asa para cruzar a calçada.
Tomo a tua asa e vejo o tempo.
Choro em um pódio
Diante da realidade acobreada.
Choro e me esfumaço
como o valor sobre os lagos.

Sou a mulher que acreditou em uma debandada
e viu nos olhos de seu amante
a origem de um fogo.

DOIS POEMAS PARA A INSÓNIA(Eunice Odio) in Os Elementos Terrestres e Outros Poemas; Anjo Terrível, 2020. trad.:Luiza Nilo Nunes

 Hoje

como nunca,
Amado,
era a tua nuca suave,

e a tua face,
um quilómetro branco
que chegava pelo ares.

Hoje
como nunca,
Amado,

vão cerejeiras
à tua casa,

e por teu pescoço fazem
cruzeiros,
certos peixes rosados.

Eu,
entretanto,
observo a variação coral
dos radiogramas

e um rio inédito
escreve
os seus molhados rituais
no teu cabelo.

*

Ver-te
é não ter perfume

Mas perder-te ao vento.

Ver-te é já não saber ver
as purezas do jasmineiro.

Ver-te é unir o céu
de quatro pontos distantes.

Amor,

Emigrante azul,

Secreta rosa dos poços,

Ah!

Que dulcíssima fábula
de açucenas extraviadas,

Que anjos de quatro
sílabas
entre os espasmos das mãos,

Amar-te
é já não ter no espírito
invólucro para o teu corpo.

CANÇÃO DO ESPOSO PARA AMADA(Eunice Odio) in Os Elementos Terrestres e Outros Poemas; Anjo Terrível, 2020. trad.:Luiza Nilo Nunes

 Caída no meu peito

Tatuada no meu peito como a idade
e o desastre.

Como uma frágil irmandade de colinas
norteadas pela manhã,

Fala a minha amada
com seu amor que mal
tem peito diurno e voz descalça.

À minha sombra
as suas ancas rodearam-se de pomos.

Para mim ela aparelha com seus seios
o gado da manhã,

E quebra-se o poente à sua passagem,
como de junco ferido
e loureiro derrubado.

Pálpebras transitadas
de neve e meio-dia,

Tanque onde se afoga
a minha boca profunda
como correntes de pombas
e sal humedecido.

– Sobre as coxas puseram-te
cachos de cólera e vocação de beijos.

De tuas coxas farei
descer cardumes de água,
e espuma interrompida,
e secretos rebanhos.

Vem,
Amada.

Todas as árvores
têm tua cândida altura,
e tua pálpebra descida,
e teu gesto molhado,

Prédio de cotovias
habitado por febres
onde ministra o sol
sobre vinhedos de ouro.

À tua sombra
hão de encontrar-me os pássaros selvagens.

Tua voz de melancólico sopro
entre quatro açucenas,
soará em meus ouvidos
como o chamado da tarde.

Vem,
provar-te-ei com alegria.
Tu sonharás comigo
esta noite.

POSSE NO SONHO (Eunice Odio) in Os Elementos Terrestres e Outros Poemas; Anjo Terrível, 2020. trad.:Luiza Nilo Nunes

Vem

Amado     

Eu te provarei com alegria.
Tu sonharás comigo esta noite.

Teu corpo acabará
onde comece para mim
a hora de tua fertilidade e de tua agonia;
e porque somos plenos de angústia
meu amor por ti nasceu em meu peito,
é que te amo no início por tua boca.

Vem
Comeremos no espaço de minha alma.

Antes de mim se te abrirá meu corpo
como mar enojado e cheio
até o crepúsculo de peixes.
Porque tu és belo,
meu irmão,
eterno meu docíssimo.

Tua cintura em o dia apalpa
completando com seu odor todas as coisas,

Tua decisão de amar,
de repente,
desembocando inesperado em minha alma.

Teu sexo matinal
em que descansa na margem do mundo e se dilata.

Vem

Vou demonstrar-te com alegria.

Um monte de lâmpadas será para meus peixes tua voz.

Falaremos de teu corpo
com alegria puríssima,
como crianças reveladas em cujo salto
descobriu-se apenas, outra criança,
e desnudo sua incipiente chegada
e conhecido em sua idade futura, total, sem diâmetro,
sem leito, em apertada solidão

Vem

Vou demonstrar-te com alegria.

Vais sonhar comigo nesta noite,
e revelar-se-ão aromas retidos em nossas bocas.

Vou te povoar com cotovias e semanas
eternamente escuras e despidas.


VENTURA ( Anna Apolinário )

 Na bruma dos latíbulos

Panteras saboreiam a escuridão
Dentes dançam sonâmbulos
Nos arcos sonoros dos sonhos
Máscaras assobiam mistérios
Mandíbulas, línguas em lunação
E nuvens cadentes,
Nuas incandescentes
Destilam a saliva das musas,
Moiras e medusas
No coração ferido da bruxa
Devoro o fruto
Para colorir o breu
Respiro a fúria das auroras

A SILFIDE E A STREGA ( Anna Apolinário )

 Os cabelos de Delírio agora estão noturnos

Escuros como estilhaços de safiras negras
Tenebrosos são seus gritos
Mas Delírio ainda dança
Ela é um cisne cintilante dançando
Ela não consegue ver
Os vultos que ameaçam seu lume

Meu coração de bruxa sangra na lua cheia
Sangra e se desmancha feito neve rubra
Meus olhos estão silenciosos e soturnos
Os sonhos suplicam na casa em ruínas
E na escuridão dos dias caóticos
Delírio dança e eu faço preces
Afio minhas facas
Suturo úlceras abissais
Coágulos faíscam no coração

EUNICE ENFEITIÇA OS ELEMENTOS TERRESTRES ( Anna Apolinário )

 Acordo nua e obscura

Numa banheira talássica
A mesma antiga banheira telúrica
Que por uma semana inteira
Acolheu o corpo iluminado
De Eunice Odio

Pálpebras de neve rubra
Sangrando ao meio-dia no México
Nuca de nuvem e naufrágio
Lábios pintados em tortuosa turquesa
Coxas osculadas por ciclones
Silente, cintilante coronária
Banhada em açudes boreais
Eunice dança em meus sonhos

 

CHICLETES TUTTI - FRUTTI ( Maria Emanuelle Cardoso) in “Amarelo Mostarda”; editora Nauta, 2024.

 andar sempre na ponta dos pés

descalça e silenciosa
sem olhar para os Reumatismos
não se pode despertar os Nomes
todos sob o tegumento de charcutarias
quieta, cada vez mais quieta
imóvel, translúcida, intocada
como a saudade grotesca das cristaleiras
podes beber nos meus copos
esta poeira na superfície
é do acúmulo de olhos

MESMO CRESCER NO ESCURO É IR EM DIREÇÃO À LUZ( Maria Emanuelle Cardoso) in “Amarelo Mostarda”; editora Nauta, 2024.

 tudo é pequenino,

para ver é necessário arregalar os olhos,
roubar o rosto do tempo
como quem pesca tamarindos
para com os dentes quebrar sua casca
e com a garganta chupar fortemente
seu sumo azedo
até subirem as canelas
múltiplos caules de muriçocas

ALGAS VERMELHAS ( Maria Emanuelle Cardoso) in “Amarelo Mostarda”; editora Nauta, 2024.

 na primeira vez que entrei no rio

fechei os olhos e mergulhei profundamente
fiquei com gosto de areia e sangue na pele
passei então
a mergulhar como quem para a noite se despe
não completamente, apenas o suficiente
sabendo que tanto na noite quanto no rio
a Areia sempre vem

A NOITE ( Esther de Cáceres ) tradução de Floriano Martins

 I.

Um alto mar de sombras já invadiu todo o Ar,
e no grande sonho escuro
reluzem, solitários,
os vastos ébanos com que o Amor esculpe
cofres insones de pianos secretos.

Sob a noite
Busco antigas estátuas.
Exploro o denso bosque onde a Memória pousa
sua estranha mão de cautela e chama.
Minhas gazelas desconhecidas já estão dormindo
ou são as folhagens lentas?
É um cabelo perdido entre os trevos
na vasta morada das fragrâncias do Ar?

Sou eu, sou eu mesma
perdida entre as árvores,
sozinha entre árvores escuras!

Sou eu, sou eu mesma
em cristal apagado
e esmaltes adormecidos!

Deixo o bosque secreto, saio do jardim sem cisnes;
Eu atravesso as paredes invisíveis do Ar,
e eu já estou no campo
da grande noite solitária!
– Algumas das minhas mortes ainda choram por mim!

II.

As Solidões chegam e as contemplamos juntas:
Já não há mais que a Noite
Uma grande flor de sombra
quieta sob o orvalho!
A Noite e eu – seu pranto! –
Até que desperte
a flor escura. As lâmpadas já estão sendo trocadas!
Um ar de gazelas
está prestes a me acordar!
Os mares do Dia cantam!

OS PIANOS ( Esther de Cáceres ) tradução de Floriano Martins

 Que piano me recordam

as nuvens esta tarde?
Longe de falésias
onde o mar se rompe
chorando!;
longe de chamas cegas
que uma mão desata
para sua morte incauta,
já não és mais espada cinza
ou relâmpagos violentos!

As nuvens me tornam doce
A tua memória na tarde!

Como se plantasse uma árvore
hoje eu deixo ao mundo
a tua imagem:

És como os pianos
distantes na tarde.
Sem penhasco: macia
praia de seda e algas
onde meu amor chega
cantando!

As melodias lentas
vagam ao seu redor,
como aquelas gaivotas
que se aproximam de um barco
e lhe fazem uma nova
quilha macia!

Que piano me recordam
as nuvens esta tarde?
Tu és como os pianos
e as nuvens distantes!

OLHANDO EXTASIADA O CÉU ( Clementina Suárez ) tradução: Floriano Martins

 Sentada à margem da vida

eu sou três:
meu sonho, a poesia e eu;
porém o que digo agora
meu sangue apaga com sua veloz vertente,
entretanto o relógio
– rompe ondas dos dias –
inventa uma nova hora,
na escala gradual do tempo.
Anterior ao pêndulo
e ao voo das andorinhas,
está a minha lua que chora e ri
em um pontual protetorado de palavras.
Eu não sei como fechar os olhos,
reconquistar as tardes,
as memórias
e as paisagens
em uma só fonte recôndita
que definitivamente afirme o sopro primogênito;
na altura da rosa que não murcha
no seio,
ou da nuvem que teria restado
aceesa à janela
olhando extasiada o céu.

MAGICAMENTE ILUMINADO COMO EM UM PARAÍSO ( Clementina Suárez ) tradução: Floriano Martins

 Eu saí de meu vestido

e fui ter com meu corpo,
e pude então comprovar
o valor de meus pés, minhas mãos, minhas pernas,
meu estômago, meu sexo, meus olhos e meu rosto.
Soube do deleite que um deles me deu
e de improviso me disse:
que mágico contorno o de meu dorso,
que novos e antigos ecos no fio de minhas veias,
que voz na garganta,
que sílaba impronunciável no lábio
e que sede detida na garganta!
Apressadamente saí pela porta
disparada a caminhar,
a tocar o chão com meus pés,
a lançar flechas acesas pelos olhos,
a devorar paisagens,
a enredar as minhas mãos em hieróglifos de relâmpagos,
a deixar detida aqui em meu sexo
– árvore frutificada –
o aroma da vida.
Pude absorver, cheirar, gritar
viver, viver, viver.
Como se despertasse uma e outra vez
e fosse laboriosa abelha
a liberar seu mel astral.
Aurora que coalhasse aqui no peito,
armeiro que dia e noite trabalhasse
em sua cumprida faina.
Precipitadamente abro
as portas de meu quarto
e jogo longe o lençol.
Me aproximo do espelho como uma morada
que não me reterá.
Como um propósito alucinado,
brilha meu anel de pedra de cor lilás,
minha lâmpada, meu relógio,
detidos nos umbrais do tempo.
Meus sapatos despertos na beira da cama
e meu rosto deambulando pelo sonho
como uma decoração para um poema
escrito nas linhas da mão,
ou no fulgor metálico de meus sentidos
tulipas sempre ardendo.
Meu perfil de arcanjo
dança com o raio,
detém seus reflexos na fronte
e com seu fogo derruba o coração
como em um paraíso magicamente iluminado.