Um compasso de espera
"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
22/07/2024
O TEMPO DAS ESTRELAS ( Ana Luísa Amaral )
Por Hilda Hilst, in Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão
A minha Casa é guardiã do meu corpo
20/07/2024
SIMPLICIDADE ( Ana Maria Oliveira )
A criatura humana deixa-se encantar pelo colorido da cena
FREIO ANIMAL ( Ana Maria Oliveira )
Cativa de rituais em demanda irrefletida de gozo
MEDITO SOBRE A LENTIDÃO DOS SENTIDOS ENQUANTO TUA LETRA MUDA DE LUGAR NO MEU CORPO (Anna Apolinário)
Teus vocábulos são lobos vociferando nos vãos de minha vigília.
LONJURA ( Mariana Artigas )
Deixe-me amar-te
DA MORTE ( Mírian Freitas )
Quando a morte chegar a esta casa
não ameaces o silêncio com o choro convulso.
Vá até o pomar e colhe frutos
aperta entre os dentes as peras
e os figos
mentaliza todas as flores amarelas
acaricia a lágrima da ausência
deita-te sobre a relva e lembra-te dos pássaros
e do arder do vento
entre as árvores e as águas
que se repetem.
PRECE A AUÐUMBLA ( Francesca Cricelli )
Auðumbla das divinas tetas
deusa primeva dessa latitude
que seus quatro rios de leite
abençoem os meus córregos
que nunca me falte a fonte
na curva noturna entre os
os meus bicos e os lábios dele.
Na mitologia nórdica, Auðhumbla era a vaca alimentadora, a Mãe Terra. Amamentou o deus Ímer e lambendo o sal do gelo desenterrou e deu vida a Búri.
FEBRE ( Daniela Pace Devisate )
Flores cadentes
estrelas perfumadas
Rimbaud na mente
a última serpente
de um jardim sem éden
música transparente
desmaio dócil
na bruma, na brisa branca
no leito de espuma
na nuvem de bruços
(deito e me cubro
com colcha de lírios
que pegam fogo)
febril a fronha
desfaleço e peço
água da fonte
para a minha fronte
CAMAFEU ( Daniela Pace Devisate )
A rosa púrpura
colheu o inverno
na fenda fulva
a lua em casulo
pulsa
nenúfar de neve
a vulva
antiga jóia
antes rubra
ÊXTASE ( Daniela Pace Devisate )
Sentia a borboleta
de asas de fogo
a esvoaçar e pousar
por entre as pernas
na rosa de carne
que principiava
a entreabrir seus lábios
de róseas pétalas
pingando mel
para que você sugasse
e minha alma
desmaiasse, debruçada
na varanda
de uma estrela cadente
porque explodiam sóis
sobre um planeta novo
BATAILLE ( Luiza Nilo Nunes )
Repara: tudo isto é erotismo.
A tua pele de livor e a sua lírica veloz,
a tua boca afeiçoada
ao gosto bíblico dos frutos,
os teus gestos onde incide a luz legítima das aves,
os teus ombros cortejados
pelas plumas da nudez,
o melancólico despir da tua carne nos espelhos.
Unhas sujas, mãos falíveis, golpes
húmidos de flancos e cabelos,
tudo isto, meu amor, exsuda sangue
e languidez,
exala aromas de suor e fruta escura,
apodrecida,
fruta adâmica e tocada pela língua viciosa.
É uma extrema vocação pornográfica,
repara:
um banho lúbrico e feroz
de onde emerges transformada,
ardendo nua para as coisas do espírito.
De Deus, da sua face hermafrodita,
do seu anjo palescente, do seu sexo sem pudor,
abarcarás a luz inteira:
tu, secreta e obscura pitonisa.
LÍLIA TAVARES, in Bailarinas De Corda, 2024
Há mulheres que são as últimas chamas a serem sopradas
18/07/2024
PASSARIM ( Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim )
Passarim quis pousar, não deu, voou
15/07/2024
TURBA ( Maiara Gouveia )
Da saliva quente, o primeiro vulto.
Ao redor das omoplatas sibila o segundo.
Ascende da nuca.
Do baixo-ventre o terceiro pula.
Num volteio ímpar constrange a cintura.
No instante em que o quarto surge do artelho,
sob o frêmito, vem a turba.
Os olhos sucumbem nas dobras do corpo.
A língua, na frincha.
E a face turva.
DESENCANTO ( Maiara Gouveia )
As mesmices cotidianas desmoronam
quando estamos juntos.
Parece que o tempo para e averigua
que cintilamos de volúpia.
Consumidos pela alegria de trazer à tona
um prazer legítimo
que não se repete em mil eras.
De repente, depois da viagem,
voltamos a nos ver entre os limites das paredes:
nossos corpos não vêm mais com paisagens,
ou entre nuvens de luz furta-cor e néon.
Já não somos deuses.
SUSPIRO VERMELHO ( Maiara Gouveia )
DA ARTE DE SEDUZIR ( Maiara Gouveia )
A MARCA DAS ORIGENS ( Maiara Gouveia )
Deus despeja sua ira: o Corpo.
E toda vida se abre e tudo é possível.
Você abandona sua força no meu dorso,
e a marca das origens
vem ferir suavemente minha pele que brilha.
Não sou só o corpo nem só o corpo me habita.
Sou o que move o mundo e o seu canto,
o que me faz mulher e a sua fibra masculina;
alma que ultrapassa o sonho das partículas:
penetra mais fundo para senti-la.
Deuses bárbaros povoam as costelas.
Sereias minúsculas mergulhadas na vagina.
A mágoa de deus, oceano:
borboleta verde-azul que se debate infinita.
Seus músculos, o rosto, um coágulo
peixes sob o útero: a flor carnívora.
Sou novamente o corpo e além do corpo
a alma das partículas:
— Penetra mais fundo para senti-la.
EMBEBIDA ( Maiara Gouveia )
ORÁCULO DE OXUM ( Lívia Natália ) in Em Face dos Últimos Acontecimentos; Caramurê, Salvador, 2022
PURA GEOMETRIA ( Marize Castro )
A CARÍCIA PERDIDA ( Alfonsina Storni ) Tradução de Carlos Seabra
Sai-me dos dedos a carícia sem causa,
ARDOR ( Iracema Macedo ) In Lance de Dardos. Estúdio 53, Rio de Janeiro, 2000.
O RETORNO DE SATURNO ( Iracema Macedo ) In Lance de Dardos. Estúdio 53, Rio de Janeiro, 2000.
POEMA DO LOBO-DO-MAR ( Iracema Macedo ) In Lance de Dardos. Estúdio 53, Rio de Janeiro, 2000.
Como proteger-me desse lobo que vem vindo
O SAL DA TERRA ( Eugénio de Andrade )
Eram o sal da terra, as abelhas,



















